Afundando a paz na Europa

Thierry Meyssan

Thierry Meyssan

Editor-chefe Réseau Voltaire


No momento em que os anglo-saxões conseguiram já excluir a Rússia do Conselho da Europa, e se aprestam para a impedir de participar nas reuniões da OSCE, manobram agora para afundar a União Europeia ao criar uma estrutura concorrente na Europa Central: A Iniciativa dos Três Mares. Ao fazê-lo, retomam um velho projecto polaco que visa desenvolver essa região, preservando-a de qualquer influência alemã ou russa


O Conselho de Chefes de Estado e de Governo da União Europeia decidiu, em 23 de janeiro de 2022, conceder à Ucrânia o estatuto de país candidato à adesão. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, precisou que o caminho será longo (a Turquia tem este estatuto há 23 anos) para elevar este país ao nível exigido pela União, tanto em matérias económicas quanto políticas.

A cimeira da Iniciativa dos Três Mares (Intermarium)
em Riga, a 20 de junho de 2022

O gabinete do presidente ucraniano havia já especificado que Kiev não espera ingressar na União hoje ou amanhã, porque dispõe de um outro projecto, mas que o estatuto de candidato abre a via a um forte apoio financeiro de Bruxelas para que se possa aproximar dos padrões da União.

Com efeito, a Ucrânia partilha o projecto polaco do Intermarium: uma aliança de todos os estados situados entre o Mar Báltico e o Mar Negro.

A INTERMARIUM CONTRA A UNIÃO EUROPEIA

Este projecto assenta quer numa realidade geográfica como num passado histórico: a “República das duas Nações” (Coroa da Polónia e Grão-Ducado da Lituânia) dos séculos XVI a XVIII. Ele foi formulado a primeira vez durante a Revolução Polaca de 1830, pelo príncipe Adam Jerzy Czartoryski, depois durante o período entre guerras pelo general polaco Józef Piłsudski, sob o nome de “Federação Międzymorze”. Piłsudski concebeu paralelamente uma ideologia visando libertar todos os povos da Europa Central da sua integração nos impérios germânico e sobretudo russo, o “prometeísmo”. Tal como o Titã, ele prometia aos homens progresso técnico que lhes permitisse libertarem-se dos seus suseranos. Na prática, ele preferia os germânicos aos russos e não hesitou em aliar-se aos austro-húngaros e aos alemães contra o czar. Em 2016, uma terceira versão deste projecto foi apresentada pelo presidente polaco, Andrzej Duda, sob o nome de “Iniciativa dos Três Mares” (o terceiro mar é o Adriático). Participaram nela onze estados. Eles passaram a doze há poucos dias.

O projecto Prometheu de Józef Piłsudski dava lugar a uma miríade de etnias quando a sua época era a dos Estados mono-étnicos e do racismo científico. Ele fundou uma revista em Paris para o defender, mas fracassou

Este projecto oferece, em princípio, uma resposta política legítima à ausência de fronteiras físicas na grande planície da Europa Central: mais vale unir-se do que se submeter ou fazer a guerra. No entanto, as coisas não são tão claras como parece : a República das duas Nações era uma confederação que permitia tanto ao Reino como ao Grão-Ducado manter o seu próprio funcionamento, enquanto Piłsudski concebia uma Federação na qual todos os povos se fundiriam e onde os polacos teriam o predomínio. Todos os movimentos nacionalistas da Europa Central se referem à República das duas Nações, mas tiram daí conclusões muito diferentes.

Para os banderistas ucranianos, a República das Duas Nações é a herdeira da Ruténia criada pelos Vikings suecos, os Varégues, o que é um pouco exagerado na medida em que seus territórios não se sobrepõem. Quando muito, pode dizer-se que culturalmente essas entidades têm pontos comuns. Para o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, a República das Duas Nações é um bom exemplo de confederação que permite libertar-se ao mesmo tempo da Rússia… e da Alemanha que domina a União Europeia.

É por causa dos dirigentes políticos polacos e ucranianos apostarem neste projecto comum de Confederação Intermarium que o presidente Zelensky pôde considerar, sem corar, ceder a Galícia Oriental à Polónia [1]. No entanto, em ambos os países, a extrema direita (no sentido totalitário do período entre guerras) pretende usar essa política para fazer avançar as suas ideias raciais.

A Polónia jamais jogou o jogo da União Europeia, da qual é membro desde 2004. Durante o seu período de candidatura à União, não hesitou em encaixar somas enormes, destinadas a reformar a sua agricultura, e em gastá-las para comprar aviões de guerra norte-americanos e ir fazer a guerra no Iraque sob ordens de Washington. Este truque de mãos havia sido concebido pelo americano-polaco Zbigniew Brzezinski e pela franco-americana Christine Lagarde [2]. Nada mudou: hoje Varsóvia está em perpétuo litígio com Bruxelas, nomeadamente a propósito do seu sistema judicial. A Ucrânia não terá qualquer problema em fazer o mesmo jogo duplo.

Este é o problema principal dos povos da Europa Central: eles procuram, legitimamente, afirmar-se sem os seus grandes vizinhos russo e alemão, mas não conseguem assumir-se sem lutar contra eles. No passado, esta doença pressionou-os sempre a confrontarem-se entre si.

Em 21017, o presidente norte-americano, Donald Trump, participou na cimeira da Iniciativa dos Três Mares em Varsóvia. A Polónia é muitas vezes descrita como o «Cavalo de Tróia» norte-americano na União Europeia. Ela é também a chave da presença dos EUA na Europa Central

O príncipe Adam Jerzy Czartoryski acabou a sua vida no exílio em Paris e o general Piłsudski estabeleceu a sede do seu movimento prometeico igualmente em Paris. Em ambos os casos, tratava-se de escapar, ao mesmo tempo, à Alemanha e à Rússia. A lembrança deste período deu lugar, em 1945, à criação de uma rede de emigrantes da Europa Central trabalhando primeiro para o Vaticano, depois para os Serviços Secretos franceses e finalmente para os anglo-saxões (rede igualmente denominada Intermarium [3]). Reuniu os principais dirigentes em fuga aos Ustashas croatas, à Guarda de Ferro romena etc. Depois, em 1991, foi a constituição do “Grupo de Visegrád” (Hungria, Polónia, República Checa e Eslováquia). Hoje, os partidários deste projecto viram-se para os anglo-saxões, daí o apoio de Washington e Londres a Varsóvia e a Kiev. Assim, a cimeira da Iniciativa dos Três Mares em Varsóvia, em 2017, recebeu o presidente norte-americano, Donald Trump. Enquanto que na Cimeira de 20 de junho de 2022, o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, intervindo por vídeo, solicitou e obteve de imediato a adesão do seu país.

O interesse dos anglo-saxões pelo projecto Intermarium é antigo. Um dos pais da geopolítica anglo-saxónica, sir Halford Mackinder, havia identificado a Europa Central como o coração (Heartland) da Eurásia. Para ele, o Império Britânico só poderia controlar o mundo controlando primeiro esta região. Um dos seus discípulos, o primeiro-ministro Boris Johnson, precipitou-se pois para Kiev a fim de dar o seu apoio ao presidente Zelensky. Todos os geopolíticos anglo-saxónicos retomaram as ideias de Mackinder, incluindo, é claro, Zbigniew Brzezinski, o qual foi com o straussiano Paul Wolfowitz uma das duas principais figuras do colóquio de Washington, em 2000, que marcou a aliança entre os Estados Unidos e a Ucrânia [4].

Em 1983, o Presidente Reagan recebeu o Bloco anti-comunista das nações (ABN) por ocasião da Semana das nações cativas. Ele apertou a mão de Yaroslav Stetsko, primeiro-ministro da Ucrânia imposto pelos nazis e antigo braço direito de Stepan Bandera

Infelizmente, aqueles que empurram os Estados Unidos para o apoio do projecto Intermarium são figuras representativas do nacionalismo de extrema-direita. Assim, os conselheiros dos presidentes Dwight Eisenhower e Ronald Reagan que os levaram a adoptar o conceito de “nações cativas (da URSS)” eram todos antigos colaboradores dos nazis, membros do Bloco das Nações Anti-Bolcheviques [5]; os que organizaram o pré-citado congresso de 2000 foram os seus filhos; e hoje o mais importante deles é o americano-polaco Marek Jan Chodakiewicz, que não parou de minimizar os crimes dos nazis [6].

Todos os membros da Iniciativa dos Três Mares são membros da UE, salvo a Ucrânia. A maior parte considera espontaneamente que ela é para eles muito mais importante do que a UE, embora não tenha os mesmos meios. O facto de a Ucrânia ter a ela aderido três dias antes do reconhecimento do seu estatuto de candidato à UE atesta não só que essa é mais importante para ela, mas também que Bruxelas percebeu muito bem que devia aceitar todos os membros da Iniciativa dos Três Mares para não perder nenhum.

A prazo, esta lógica deverá levar os membros da Iniciativa dos Três Mares a deixar colectivamente a UE quando ela já não lhes for financeiramente proveitosa, porque jamais partilharam os seus objectivos políticos.

Desde logo, toda a arquitetura de segurança do continente é posta em causa. Ela repousava sobre dois pilares, por um lado o Conselho da Europa e por outro a Organização para a Cooperação e Segurança na Europa.

A última reunião do Comité de Ministros do Conselho da Europa, sem a participação da Rússia
A RÚSSIA EMPURRADA PARA FORA DO CONSELHO DA EUROPA

O Conselho da Europa foi criado em 1949. Tratava-se para certos fundadores de basear a unidade europeia em princípios jurídicos comuns através de um Conselho de Estados e para outros, via uma Assembleia de parlamentares. No fim, juntaram os dois projectos, mas à época mantiveram fora os Soviéticos e seus países irmãos. A Rússia e os membros do Pacto de Varsóvia aderiram logo após a queda do Muro de Berlim.

Este Conselho dotou-se de duas instituições emblemáticas. Em primeiro lugar, o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem (TEDH). Infelizmente, este politizou-se no decurso dos últimos meses, manifestando uma evidente parcialidade face à Rússia. Por exemplo, reconheceu em janeiro o direito de um cidadão russo cuspir no retrato oficial do presidente da Federação da Rússia (Processo Karuyev v. Rússia). Ou ainda, em fevereiro de 2022, o direito de um cidadão russo perturbar uma manifestação pró-Putin exibindo um cartaz “Putin, melhor que Hitler!” ( Processo Manannikov v. Rússia). E acaba de censurar a lei russa que foi adoptada após as revoluções coloridas exigindo que as organizações políticas financiadas do estrangeiro o exibam em todas as suas publicações (Processo Ecodefence e outros v. Rússia).

A outra grande instituição, é a Comissão de Veneza que ajudou os estados recém-independentes a assimilar as regras democráticas — Comissão que, diga-se de passagem, não tem parado de chamar a atenção da Ucrânia sobre os seus procedimentos administrativos e institucionais. [7]—.

Em última análise, os ocidentais suspenderam o direito de voto da Rússia no Conselho da Europa com a alegação que esta estaria a tentar anexar a Ucrânia pela força. Ao que a Rússia, estupefacta, respondeu que jamais teve essa intenção e que se retirava de uma instituição que se tornara partidária.

Tal como com os funcionários da ONU, agora os funcionários da OSCE podem ser espiões
A RÚSSIA IMPEDIDA DE PARTICIPAR NAS REUNIÕES DA OSCE

A outra plataforma intergovernamental é a Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE). Ela foi criada por ocasião dos Acordos de Helsínquia, em 1973. Ao contrário das Nações Unidas, não é um local de arbitragem, mas apenas um fórum que permite a todos os actores do continente falar entre si livremente. Foi ela, por exemplo, que adoptou a Declaração de Istambul de 1999, também conhecida como “Carta da Segurança na Europa”, que estabelece os dois grandes princípios (1) O direito de cada Estado escolher os aliados a seu gosto e (2) O dever de não ameaçar a segurança alheia garantindo a sua; princípios cujo desrespeito está na raiz do conflito entre os Estados Unidos e a Rússia [8].

Lembremos que a Federação Russa nunca contestou o direito de ninguém em aderir à NATO, mas o dos membros da NATO em albergar bases militares norte-americanas. Os nossos leitores lembram-se que quando o ministro russo dos Negócios Estrangeiros da Rússia, Serguei Lavrov, escreveu a cada um de seus “parceiros” para lhes perguntar como conciliavam os dois princípios de Istambul com a instalação de equipamentos e pessoal militar norte-americanos na proximidade da Rússia nenhum ousou responder-lhe.

No entanto, a neutralidade deste fórum foi violada no mês de abril quando novos funcionários da OSCE, mais precisamente antigos militares da NATO, foram apanhados em flagrante delito de espionagem no Donbass [9].

Como se isso não bastasse, o Reino Unido acaba de recusar os vistos necessários à delegação russa que devia assistir à Assembleia parlamentar anual da OSCE, de 2 a 6 de julho de 2022, em Birmingham. Londres, que viola as suas obrigações, refugiou-se atrás das sanções nominais da União Europeia contra cada membro da delegação.

Por consequência, não apenas os documentos assinados pelos 57 chefes de Estado e de Governo da OSCE deixaram de ter valor, como a administração desta organização se tornou numa arma de guerra e, em última análise, deixará de desempenhar o seu papel de fórum.

A arquitetura de segurança do continente europeu transforma-se, portanto, radicalmente. A prazo, a Europa Central irá formar um bloco, primeiro no seio da União Europeia e de seus candidatos, depois fora da União. A sua Defesa será garantida pelos Estados Unidos. Enquanto tal, as duas partes do continente, Ocidental e Oriental, deixarão de se comunicar. Isto será o culminar do plano dos geopolíticos anglo-saxónicos. Mas este projecto, se for concretizado, será instável. Primeiro, os europeus ocidentais tiveram sempre necessidade da Rússia e, depois, os povos da Europa Central viveram durante muito tempo num campo de batalha. Quando os Cavaleiros Teutónicos e os Cossacos não se enfrentavam no seu território, eles batiam-se entre si. Para que uma paz seja duradoura é preciso haver respeito por todos os protagonistas. Ao destruir todas as instituições de Segurança do continente, torna-se inevitável um conflito generalizado.

Este é o capítulo 24 de uma serie de artigos da autoria de Thierry Meyssan sobre a Ucrânia. Capítulos anteriores:


Serie da Ucrânia de Thierry Meyssan

Todos os artigos sobre o tema Ucrânia da Rede Voltaire:

1. A Rússia quer obrigar os EUA a respeitar a Carta das Nações Unidas 
2. Washington prossegue o plano da RAND no Cazaquistão, a seguir na Transnístria
3. Washington recusa ouvir a Rússia e a China
4. Washington e Londres, atingidos de surdez
5. Washington e Londres tentam preservar a sua dominação sobre a Europa
6. Duas interpretações do processo ucraniano
7. Washington canta vitória, enquanto seus aliados se retiram
8. A Rússia declara guerra aos Straussianos
9. Um bando de drogados e de neo-nazis
10. Israel aturdido pelos neo-nazis ucranianos
11. Ucrânia : a grande manipulação
12. A Nova Ordem Mundial que preparam a pretexto da guerra na Ucrânia
13. A propaganda de guerra muda de forma
14. A aliança do MI6, a CIA e os banderistas
15. O fim do domínio ocidental
16. Ucrânia: a Segunda Guerra mundial continua
17. Washington quer prolongar a guerra para recuperar o estatuto de super-potência
18. O Canadá e os banderistas
19. Preparam uma nova guerra para o após derrota face à Rússia
20. Os programas militares ucranianos secretos
21. Ucrânia: enganos, arrogância e incompreensão
22. A Polónia e a Ucrânia
23. A ideologia dos banderistas
24. Afundando a paz na Europa
25. A agonia do Ocidente


Autor

Thierry Meyssan
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