Washington recusa ouvir a Rússia e a China

Thierry Meyssan

Thierry Meyssan

Editor-chefe Réseau Voltaire


Durante a semana, Moscovo esperou uma resposta à sua proposta de tratado garantindo a paz. Washington jamais a referiu. Pelo contrário, acusou a Rússia de se preparar para atacar a Ucrânia e de planear uma operação de falsa bandeira para a justificar. A Rússia já não pode recuar mais e qualquer acção da sua parte arrisca desencadear uma terceira guerra mundial


A imprensa ocidental não consegue abarcar as relações entre os três grandes (China, Estados Unidos e Rússia) porque as segmenta. Ela considera cada problema separadamente e ignora as ligações entre eles. Acima de tudo, ela ignora a diferença entre o Direito anglo-saxónico e o das Nações Unidas o que a leva a inúmeros erros de interpretação.

Os Estados Unidos e a Rússia encontraram-se três vezes esta semana para debater garantias de paz:

  •  em Genebra ao nível de ministros adjuntos dos Negócios Estrangeiros;
  •  em Bruxelas na Comissão NATO-Rússia;
  •  e por fim em Viena, na OSCE.

Os Estados Unidos reiteraram a sua advertência contra o estacionamento de 100.000 soldados russos na fronteira russo-ucraniana enquanto a Rússia se indignou pela recusa dos EUA em discutir a sua proposta de paz.

Simultaneamente, o Congresso dos EUA debateu sanções contra a Rússia, enquanto o Departamento de Estado estendeu à China a atitude que assumira face à Rússia, e o Departamento da Defesa encara o aumento do seu arsenal nuclear.

Nos bastidores, Washington levou a cabo uma operação de desestabilização do Cazaquistão e levou a União Europeia a esboçar um bloqueio económico total da Transnístria.

Uma vez que os Estados Unidos recusam mais do que antes levar em conta as críticas que lhe são feitas e responder aos argumentos russos, Moscovo ameaça agora colocar tropas na Bacia das Caraíbas.

O único avanço positivo respeita a um possível relançamento das negociações russo-americanas sobre o controlo de misseis nucleares de alcance intermédio, um Tratado antes recusado pelo presidente Donald Trump.

O conteúdo das negociações

Quando a delegação norte-americana chegou a Genebra, primeiro jantou amigavelmente com os seus homólogos russos, depois, na manhã seguinte, ao iniciar as conversações, informou-os que o seu mandato se limitava a discutir a instalação de tropas americanas e russas na Ucrânia.

“Outras prioridades são mais importantes para nós: não alargamento da NATO, eliminação da infra-estrutura criada, recusa de certas medidas, e não de uma forma recíproca, mas numa base unilateral por parte do Ocidente”

declarara Serguei Riabkov ao chegar a Genebra [1].

Os russos, portanto, responderam que o mandato da delegação dos EUA só incidentalmente respondia apenas ao objectivo oficial da reunião: as garantias que assegurem a paz mundial. Depois, Wendy Sherman e Serguei Riabkov passaram em revista os assuntos que poderiam ulteriormente discutir e só encontraram um: um novo Tratado de Redução de Mísseis Nucleares de alcance Intermédio; o Tratado INF que fora denunciado pelo presidente Donald Trump.

No dia seguinte, Wendy Sherman participou na reunião da Comissão NATO-Rússia em Bruxelas. Os embaixadores aliados avaliavam com dificuldade as intenções de Washington após o seu abandono do Afeganistão para os talibãs e a sua traição à França com o acordo AUKUS. A Sra. Sherman deixou-os exprimirem-se primeiro, depois declarou aquilo que em substância dissera à delegação russa : “Claro, somos trinta aqui frente a vocês, mas temos apenas uma posição”. Depois, ela traçou a paisagem do que seria a Europa se Washington cedesse a Moscovo: um continente de novo dividido em duas zonas de influência, uma atlantista e a outra russa, como durante a Guerra Fria.

Esta apresentação despertou terríveis lembranças de tal modo que os embaixadores aliados não ouviram mais do que isto. As negativas da delegação russa, lembrando que não era soviética e não queria dividir o continente, não foram mais do que ruído de fundo. Talvez os russos tenham de novo apresentado as suas exigências de respeito pela Carta da ONU e pela palavra dada, mas ninguém se lembra.

A imprensa norte-americana comentou esta reunião afirmando que tinha dado à NATO, condenada pelos presidentes Donald Trump e Emmanuel Macron, uma nova razão de existir: combater a Rússia.

Nestas condições, a terceira reunião, a da OSCE em Viena, foi apenas — nas palavras de Serguei Lavrov — “dilatória”. A OSCE não tem nenhum poder de decisão, é apenas um fórum criado durante a Guerra Fria para avaliar posições. A presidência sueca do seu Conselho Permanente foi feita à imagem desse país, oficialmente neutro, mas debatendo internamente a sua próxima adesão à NATO. Os aliados ficaram na defensiva, enquanto os Estados Unidos, esses, procuravam ganhar tempo. A reunião nem sequer deu lugar a um comunicado final.

Moscovo esperava uma rejeição em bloco das suas propostas por parte de Washington, mas ficou espantada pela maneira como os diplomatas norte-americanos conseguiram manipular os membros da NATO e da OSCE. É a segunda vez que Vladimir Putin se choca com o comportamento irracional dos Europeus da União. Lembram-se que, em 2007, ele havia acreditado poder afastar os Europeus Ocidentais do seu suserano norte-americano indo à Conferência de Segurança de Munique e pedindo-lhes que se interrogassem sobre os seus interesses [2]. Tinha acreditado, erradamente, que captaria a sua atenção, particularmente a dos Alemães. Ora, o mesmo fenómeno repete-se hoje.

Tem de se constatar que a maior parte dos dirigentes europeus, com a notável excepção dos Russos, não deseja ser independente. Renunciam às suas próprias responsabilidades e preferem curvar-se a uma ordem mundial ilegítima e cruel.

Histeria em Washington

Em Washington, a Casa Branca está ciente de já não ter os meios decisivos para a sua política global, mas não a classe dirigente. O Congresso foi teatro de tomadas de posição grandiloquentes denunciando a insolência russa e particularmente a do seu presidente, Vladimir Putin. Os parlamentares chegaram até a discutir a possibilidade de o sancionar pessoalmente, o que implicaria romper as relações diplomáticas com o país. Nenhum parece ciente de que os Estados Unidos já não são a primeira potência militar do mundo e que foram substituídos pela Rússia e pela China.

Menos estupidamente do que as sanções contra o presidente Putin, o Congresso tem-se sobretudo dilacerado sobre o possível restabelecimento de sanções contra o gasoduto russo Nord Stream 2. O senador republicano Marco Rubio defendeu a ideia segundo a qual era preciso sancionar os Alemães que pactuem com “o diabo”, incluindo o antigo shanceler social-democrata Gerhard Schröder, que dirigiu a construção do oleoduto, para que não tenham escolha [3]. Pelo contrário, os democratas, a conselho da Casa Branca, argumentaram que seria mais sensato levar os Alemães a escolher o lado certo por si mesmos, em vez de os forçar a isso. O governo ucraniano veio em apoio desta abordagem de bom senso, lembrando que os Alemães tinham negociado com a Rússia garantias para que ela não usasse seus fornecimentos de gás como uma arma [4].

Este debate grotesco só foi possível porque todos esqueceram a razão que levara o presidente Joe Biden a levantar as sanções contra o Nord Stream 2, pouco antes da cimeira russo-americana de Genebra [5]: era um meio de passar aos europeus a factura dos prejuízos de guerra na Síria. Eles pagarão o gás russo barato, mas um pouco menos barato do que o previsto. Ninguém se lembra sequer que os Estados Unidos perderam essa guerra.

Tudo continua como se nada tivesse passado

Longe de ceder quanto ao essencial, o Departamento de Estado estendeu a sua narrativa russa à China, a qual apoia a Rússia. Não só a Rússia iria invadir a Ucrânia e estender o seu domínio a toda a Europa Oriental e Central, mas também a China gostaria de dominar todo o Mar da China.

Se o litígio com a Rússia é posterior à dissolução da União Soviética, com a China remonta muito mais atrás, ao trágico período colonial.

O Departamento de Estado apoia-se numa decisão do Tribunal de Arbitragem de Haia, de 2016, condenando a China num litígio territorial com as Filipinas, para rejeitar os argumentos de Pequim [6]. Ora, um tribunal de arbitragem não é um tribunal e a China ao não reconhecer este tribunal significa que ele não arbitrou absolutamente nada, mas apenas endossou a versão filipina da disputa. Longe de permitir estabelecer seja o que for, este episódio atesta a maneira como os Estados Unidos interpretam o Direito Internacional, em geral, e a Carta das Nações Unidas em particular.

A China reivindica legitimamente as ilhas que governava no século XVIII e que abandonou durante o seu colapso sob os golpes violentos da colonização. A maior parte delas ficaram desabitadas até há uma trintena de anos atrás, ou seja, até à dissolução da União Soviética. Ao pretender atribuí-las aos seus aliados nesta zona, os Estados Unidos dão provas do mesmo imperialismo conquistador que coloca a Europa Central e Oriental sob o comando da NATO.

Por outro lado, durante esta semana Washington prosseguiu a sua operação de desestabilização do Cazaquistão e de ajuda aos apelos, para o derrube do regime, feitos por Mukhtar Ablyazov desde Paris. Finalmente, encorajou a União Europeia a montar o bloqueio da Transnístria, esse Estado não reconhecido encravado entre a Ucrânia e a Moldávia [7]. Se parece ter perdido no Cazaquistão, prepara já o episódio seguinte na Transnístria.

Os Estados Unidos fecham-se no seu estado de negação e enviam emissários a cada um dos seus vassalos para os prevenir de um iminente ataque russo contra a Ucrânia a seguir a uma provocação de bandeira falsa.

Conclusão provisória

Esta semana mostrou, como seria de esperar, que os Estados Unidos não pensam respeitar nem a Carta das Nações Unidas, nem a sua palavra. Eles não irão recuar em lado nenhum por conta própria. As suas propostas visam, na melhor das hipóteses, preservar o status quo.

A sua estratégia parece baseada na ideia de que os Russos e os Chineses não arriscarão a confrontação. É a “teoria do louco” (madman theory) antes empregue pelo presidente Richard Nixon contra a União Soviética: sim, claro, estou errado e posso não ser o mais forte, mas sou louco e as minhas reacções são irracionais e imprevisíveis. Estou-me nas tintas se ganho, posso rebentar com tudo. Esta atitude é como uma golpada de póquer. Ora, ela não permitiu aos Estados Unidos ganhar a Guerra do Vietname.

A Rússia tinha, evidentemente, previsto o golpe seguinte quando publicou o seu projeto de Tratado Garantindo a Paz. Portanto, ela deverá adaptá-lo porque Washington conseguiu juntar todos os vassalos assustados. Se a confrontação tiver lugar, ela será nuclear e irá seguramente saldar-se por centenas de milhões de vítimas.

Se Washington planeia a próxima escaramuça na Transnístria, Moscovo apresta-se para dar o próximo passo, provavelmente na Bacia das Caraíbas, inspirado na crise dos mísseis cubanos de 1962. Tratar-se-á de provocar um choque que faça a classe dirigente norte-americana tomar consciência que ela já não tem a superioridade de que tanto usou e abusou.


Serie da Ucrânia de Thierry Meyssan

Todos os artigos sobre o tema Ucrânia da Rede Voltaire:

1. A Rússia quer obrigar os EUA a respeitar a Carta das Nações Unidas 
2. Washington prossegue o plano da RAND no Cazaquistão, a seguir na Transnístria
3. Washington recusa ouvir a Rússia e a China
4. Washington e Londres, atingidos de surdez
5. Washington e Londres tentam preservar a sua dominação sobre a Europa
6. Duas interpretações do processo ucraniano
7. Washington canta vitória, enquanto seus aliados se retiram
8. A Rússia declara guerra aos Straussianos
9. Um bando de drogados e de neo-nazis
10. Israel aturdido pelos neo-nazis ucranianos
11. Ucrânia : a grande manipulação
12. A Nova Ordem Mundial que preparam a pretexto da guerra na Ucrânia
13. A propaganda de guerra muda de forma
14. A aliança do MI6, a CIA e os banderistas
15. O fim do domínio ocidental
16. Ucrânia: a Segunda Guerra mundial continua
17. Washington quer prolongar a guerra para recuperar o estatuto de super-potência
18. O Canadá e os banderistas
19. Preparam uma nova guerra para o após derrota face à Rússia
20. Os programas militares ucranianos secretos
21. Ucrânia: enganos, arrogância e incompreensão
22. A Polónia e a Ucrânia
23. A ideologia dos banderistas
24. Afundando a paz na Europa
25. A agonia do Ocidente


Imagem de capa Prachatai por sob licença CC BY-NC-ND 2.0


Este artigo foi foi originalmente publicado na Rede Voltaire


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