O Canadá e os banderistas

Thierry Meyssan

Thierry Meyssan

Editor-chefe Réseau Voltaire


Nos artigos precedentes, mostrou-se como os banderistas, colaboradores nos piores crimes nazis na Ucrânia e na Polónia, chegaram ao poder na Ucrânia após a independência. Aqui mostramos como durante oitenta anos imigrantes banderistas incrustaram-se ao Partido Liberal canadiano ao ponto de ocupar o posto de numero 2 do actual governo Trudeau


Os primeiros combatentes estrangeiros chegados à Ucrânia no início da guerra, em fevereiro de 2022, eram canadianos. O primeiro oficial estrangeiro detido pelas forças russas, em 3 de maio, era um general canadiano. Como é evidente, o Canadá, muito embora à distância de mais de 6.000 km da Ucrânia, tem uma implicação escondida neste conflito.

Neste artigo, vou mostrar que todos os governos liberais canadianos apoiaram os banderistas ucranianos desde o início da Segunda Guerra Mundial. Eles jogaram nos dois tabuleiros durante esta guerra, lutando contra os nazis, mas apoiando os banderistas. Pior ainda, o actual governo canadiano é composto por um primeiro-ministro liberal, Justin Trudeau, ladeado por uma assistente banderista, Chrystia Freeland.

Se as conexões entre a CIA e os nazis marcaram a Guerra Fria e só foram reveladas, em 1975, com as comissões do Congresso norte-americano Pike, Church e Rockfeller, apenas terminaram com o presidente Jimmy Carter, os laços do Partido Liberal canadiano com os banderistas prosseguiram sempre. O Canadá é o único país no mundo, fora da Ucrânia, a ter uma ministra banderista e que, além do mais, é a número 2 do seu governo.

Em 1940, quer dizer na altura em que o Reino Unido estava em guerra, mas não os Estados Unidos, o governo liberal canadiano de William King criou o Ukrainian Canadian Congress (UCC) a fim de ajudar os imigrantes anti-bolcheviques contra os pró-soviéticos (Association of United Ukrainian Canadians – AUUC) e os judeus (Canadian Jewish Congress – CJC). As bibliotecas pró-soviéticas e as sinagogas foram interditas.

O Partido Liberal do Reino do Canadá não foi criado para promover o individualismo contra as ideias conservadoras, mas contra a ideia republicana [1].

Durante a Segunda Guerra Mundial, o primeiro-ministro William King era muito apreciado pelos concidadãos, mas foi vaiado pelos seus soldados quando os visitou na Europa. O Partido Liberal sempre defendeu posições anti-russas, apresentando-as até 1991 como anti-soviéticas, e sempre interpretou o cristianismo como oposto ao judaísmo.

Além disso, no fim da Segunda Guerra Mundial, o Canadá foi o principal refúgio dos banderistas (35.000 imigrantes) e nazis bálticos. Entre eles, Volodymyr Kubijovyč e “Michael Chomiak” de seu verdadeiro nome Mykhailo Khomiak, editores do principal jornal nazi na Europa Central, Krakivs’ki Visti.

Chomiak, que trabalhava sob controlo directo do Ministro da Propaganda nazi, Joseph Goebbels, jamais renegou o seu passado colaboracionista. Pelo contrário, ele sempre militou na Organização de Nacionalistas Ucranianos OUN(B). Foi neste espírito que educou a sua neta, Chrystia Freeland, actual primeira-ministro adjunta do Canadá. Longe de condenar os crimes dos banderistas, esta iniciou, com 18 anos, a sua carreira de jornalista trabalhando para a Encyclopedia of Ukraine de Kubijovyč (disponível actualmente na internet). Depois para The Ukrainian News, o jornal dos banderistas canadianos, e The Ukrainian Weekly, o dos banderistas norte-americanos ligados ao ABN e à CIA. Ela foi à União Soviética nos seus últimos tempos. As autoridades soviéticas questionaram o governo canadiano pelo seu apoio aos banderistas e o proibiram-na de tornar a voltar. No entanto, após a dissolução da URSS, tornou-se a chefe do escritório do The Financial Times em Moscovo. Depois, redactora-chefe adjunta no Globe and Mail e redactora-chefe da Thomson Reuters Digital.

Nos seus artigos e nos seus livros, Venda do século : a cavalgada selvagem da Rússia do comunismo para o capitalismo [2] e Plutocratas : a ascensão dos novos super-ricos e a queda de todos os outros [3], Chrystia Freeland desenvolve duas teses caras ao seu avô.
 Ela critica os ultra-ricos escolhendo quase exclusivamente exemplos de judeus.
 Ela ataca em toda a linha a URSS, e depois a Rússia.

É preciso lembrar que o fascismo foi uma resposta à crise económica de 1929 propondo uma aliança nacionalista de classe por corporações. Os nazis e os banderistas acrescentaram uma terrível dimensão racial a isso. Ao visar os super-ricos, Chrystia Freeland aborda corretamente o principal problema actual. Hoje em dia, só a finança lucra, enquanto a produção está em crise. No entanto, ela deriva insidiosamente para uma leitura racial ao salientar que os judeus são mais numerosos entre os super-ricos do que na população geral e sugerindo que essa correlação é significativa.

Em 1991, o deputado liberal de origem polaco-ucraniana Borys Wrzesnewskyj pronunciou-se para que o Canadá fosse o primeiro país do mundo a reconhecer a independência da Ucrânia. Com a sua fortuna familiar (as padarias Future Bakery), criou um serviço para difundir junto de todos os membros do parlamento notícias da Ucrânia. Financiou o arquivo por Volodymyr Kubijovyč e “Michael Chomiak” de documentos sobre os nacionalistas ucranianos durante a Segunda Guerra Mundial. É preciso admitir que a Encyclopedia of Ukraine não é uma obra científica, mas uma reabilitação dos banderistas e uma falsificação da história. Tendo em conta os seus laços familiares, Borys Wrzesnewskyj apresentou o futuro Presidente ucraniano Viktor Iushenko ao Canadá.

Em 1994, o primeiro-ministro liberal Jean Chrétien negociou um Tratado de amizade e de cooperação com a Ucrânia, para a qual ele pediu, a partir de 1996, a adesão à NATO.

Em janeiro de 2004, o Canadá, sob a orientação do primeiro-ministro liberal Paul Martin, participou na preparação por Washington da “Revolução Laranja”. O embaixador canadiano em Kiev, Andrew Robinson, organizou reuniões com os seus colegas de 28 países para levar Viktor Yushenko ao poder. Tratava-se de quebrar a política do presidente Kuchma, que tinha aceite o gás russo em vez de favorecer as pesquisas de petróleo dos EUA no Cáspio [4].

O embaixador do Canadá financiou a sondagem do Centro Ucraniano de Estudos Económicos e Políticos Oleksandr Razumkov segundo a qual a eleição presidencial tinha sido falsificada, ele subsidiou igualmente com o montante de 30.000 dólares a Associação Pora! (É a hora!) do estratega da NATO Gene Sharp [5].

Com base exclusiva na sondagem de Razumkov, a “Pora!” organizou manifestações, o escrutínio foi anulado e um outro convocado. O Canadá gastou 3 milhões de dólares para enviar 500 observadores eleitorais. A segunda votação levou Viktor Iushenko ao poder. Este formou então a sua equipe, escolhendo Vladislav Kaskiv (empregado de George Soros e líder do Pora!) como conselheiro especial e Anatoliy Gritsenko (militar formado nos Estados Unidos e presidente do Centro Razumkov) como ministro da Defesa.

O deputado liberal Borys Wrzesnewskyj, esteve particularmente activo durante a Revolução Laranja; uma vez sendo a sua irmã, Ruslana, muito próxima da Srª Yushenko, Katerina Chumachenko. Ele investiu 250.000 dólares canadianos para apoiar o movimento e utilizou seu apartamento no centro de Kiev para coordenar os protestos entre os dois escrutínios. Os cortejos do “Pora!” gritavam “Ca-na-da!” e ostentavam a bandeira da folha de acer.

Chrystia Freeland começou sua carreira política em 2013, no Partido Liberal. Ela foi eleita deputada por Toronto. Em 2014, apoiou a “Revolução da Dignidade” em Kiev (quer dizer, o golpe de Estado banderista), encontrando-se com os seus principais actores. Ela denunciou a independência da Crimeia e encontrou-se com Mustafa Dzhemilev, o celebre espião dos EUA da Guerra Fria e líder dos tártaros. No fim, o presidente Vladimir Putin proibiu-a de entrar na Rússia.

Ela foi nomeada ministra do Comércio Externo pelo primeiro-ministro liberal Justin Trudeau, em 2015, depois ministra dos Negócios Estrangeiros em 2017, e ministra dos Assuntos Inter-governamentais em 2019, com a qualidade de adjunta do primeiro-ministro. Ela tornou-se ministra das Finanças a partir de 2020.

Em 2014, o ministro dos Negócios Estrangeiros conservador, John Baird, foi à Praça Maidan e aí se reuniu com os principais líderes dos protestos. A Televisão Canadiana considerou que ele dava assim razão à versão do presidente Putin segundo a qual esta revolução não era mais do que uma manipulação ocidental.

A porta-voz da embaixada, Inna Tsarkova, era uma das responsáveis do movimento Maidan. A embaixada, situada ao lado da Praça Maidan, era um refúgio para os manifestantes que acamparam no seu átrio durante uma semana. O grupo neo-nazi C14 [6] refugiou-se lá, em 18 de fevereiro, durante o massacre.

Quando, em 17 de julho de 2014, o voo da Malaysia Airlines MH17 foi abatido sobre a Ucrânia, a Organização de Aviação Civil Internacional (ICAO), com sede em Montreal, enviou quatro inspectores ao local do acidente. Mesmo antes do início da investigação, Chrystia Freeland iniciou uma campanha internacional para culpar a Rússia. Em seguida, ela irá usar o seu estatuto ministerial para atiçar a fogueira o máximo possível.

Após a derrube do presidente Viktor Ianukovych e a ascensão ao poder dos banderistas, o Canadá criou a Operação UNIFIER (Força-Tarefa Conjunta das Forças Armadas Canadianas-Ucrânia). Tratava-se de instruir os militares ucranianos e de desenvolver a sua polícia militar. A operação foi conduzida sob as ordens de Londres e de Washington. Comportava o envio de 200 instrutores e de material não-letal. Ela acabou, em 13 de fevereiro de 2022, precisamente antes da operação russa, a fim de não colocar o Canadá em situação de guerra.

Em 8 anos, o Canadá alocou cerca de 900 milhões de dólares de ajuda à Ucrânia.

Em 2016, o primeiro-ministro liberal, Justin Trudeau, recebeu com honras Mustafa Dzhemilev, com quem a sua adjunta Chrystia Freeland se havia já encontrado. Ele tinha-se tornado, em agosto de 2015, o emir de uma Brigada Internacional Muçulmana, co-financiada pela Ucrânia e pela Turquia para retomar a Crimeia [7].

No mesmo período, Chrystia Freeland negoceia o acordo de livre comércio CanadáUcrânia.

Logo que em 2017, o site Russia Insider revelou o passado criminoso de seu avô e seus laços, sempre próximos, com os banderistas, ela negou os factos e culpou a “propaganda” russa. No entanto, em 27 de fevereiro, apareceu com um grupo de banderistas da OUN(B) durante uma manifestação contra a agressão russa. A foto, que ela mesma postou, foi rapidamente retirada da sua conta no Twitter.

Reagindo com seus parceiros da NATO à operação militar russa, o Canadá modificou o seu orçamento a fim de reservar 500 milhões de dólares para o Exército ucraniano, banderistas incluídos. Já enviou metralhadoras, pistolas, carabinas, 1,5 milhões de balas, espingardas de precisão e vários equipamentos relacionados (14 de fevereiro), óculos de visão nocturna, capacetes e coletes à prova de balas (27 de fevereiro), 100 canhões Carl Gustav M2 e 2.000 munições de 84 mm (28 de fevereiro), 390.000 rações de combate individuais e aproximadamente 1.600 coletes de choque (1 de março), 4.500 lança-foguetes M72 e 7. 500 granadas de mão, bem como uma assinatura de imagens por satélite comercial de 1 milhão de dólares (3 de março), câmaras para drones de vigilância (9 de março), morteiros M777 e munições afins, assim como munições adicionais para arma anti-blindados Carl Gustav M2 (22 de abril), 8 veículos blindados de modelo comercial, um contrato de serviço para a manutenção e reparo de câmaras especiais transportadas por drones (26 de abril), e começou a treinar soldados ucranianos no uso de morteiros M777.

Em 2 de março, Justin Trudeau, que vai atrás dos Estados Unidos, levou uma vintena de países a assinar uma declaração denunciando a desinformação russa [8]. Tratou-se de impedir a difusão de informações sobre os banderistas ucranianos e canadianos.

Em 10 de março, o Canadá conseguiu levar a assinar, desta vez por uma trintena de países, uma segunda declaração, muito orwelliana, para se regozijarem —em nome da liberdade de imprensa— com a censura pelo Ocidente do Russia Today e da agência Sputnik, dois órgãos de imprensa públicos russos.

Após a irrupção no poder em Kiev dos banderistas, o Canadá sancionou mais de 900 personalidades e empresas russas ou da oposição ucraniana. A esta lista, juntou os próximos do Presidente russo e os membros das suas famílias.

Apesar das suas declarações de princípio a favor da igualdade de direito de todos os homens, o Canadá apoia sem reservas os banderistas, arautos da superioridade racial dos ucranianos sobre os russos.


[1Canada’s Origins: Liberal, Tory, or Republican?, Janet Ajzenstat & Peter J. Smith, Mcgill Queens University Press (1995).

[2Sale of the Century: Russia’s Wild Ride from Communism to Capitalism, Crown Business (2000).

[3Plutocrats: The Rise of the New Global Super-Rich and the Fall of Everyone Else, Penguin Pres (2012).

[4] «Agent orange: Our secret role in Ukraine», Mark Mackinnon, Globe and Mail, April 14, 2007.

[5] «La Albert Einstein Institution: no violencia según la CIA », por Thierry Meyssan, Red Voltaire , 10 de febrero de 2005.

[6] «La ley racial ucraniana», Red Voltaire , 4 de marzo de 2022.

[7] «Ucrania y Turquía han creado una brigada internacional islámica contra Rusia», por Thierry Meyssan, Red Voltaire , 15 de agosto de 2015.

[8] «Un appel à l’action sur la désinformation parrainée par l’État en Ukraine», Affaires mondiales Canada, 2 mars 2022.

Imagem de capa por Can Pac Swire sob licença CC BY-NC 2.0

As ideias expressas no presente artigo / comentário / entrevista refletem as visões do/s seu/s autor/es, não correspondem necessariamente à linha editorial da GeoPol

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