Preparam uma nova guerra para o após derrota face à Rússia

Thierry Meyssan

Thierry Meyssan

Editor-chefe Réseau Voltaire


A guerra na Ucrânia é uma ilusão de óptica. Por trás das aparências de unidade da NATO e da sua consolidação com novos aderentes, vários dos grandes jogadores jogam em tabuleiros opostos. Na realidade todos os que não estão cegos pela sua própria propaganda sabem que o seu campo vai perder e que ele idealiza já outros inimigos noutros campos de batalha. Washington faz das tripas coração e utiliza a pressão russa para cerrar fileiras


Na frente do palco, a NATO afirma ter sido reforçada pela “loucura de Putin”. A Ucrânia, poderosamente armada pelos ocidentais, realiza uma contra-ofensiva e repele o “invasor”. No plano internacional, as sanções dão frutos. A Finlândia e a Suécia, sentindo-se ameaçadas, decidiram aderir à Aliança Atlântica. Em breve os russos derrubarão o “ditador” do Kremlin.

A Finlândia e a Suécia apresentaram a sua candidatura de adesão à NATO em 18 de maio de 2022

Esta magnífica narrativa é contrariada pelos factos: só cerca de um terço das armas ocidentais chega à linha da frente. Mas o Exército ucraniano está exausto. Ele recua em quase todo o lado e algumas façanhas não mudam em nada o quadro geral. Dois terços das armas ocidentais, nomeadamente as mais pesadas, estão já disponíveis no mercado negro nos Balcãs, particularmente no Kosovo e na Albânia, que se tornaram os principais locais de tráfico na matéria. As sanções ocidentais representam um risco de fome, não na Rússia, mas no resto do mundo e particularmente em África. A Turquia e a Croácia opõem-se à adesão de novos membros à NATO. É possível convencê-los, mas à custa de mudanças políticas radicais às quais os ocidentais sempre se opuseram.

Mesmo que a Rússia seja sábia o suficiente para comemorar a sua vitória bem alto, como soube fazer na Síria, esta aparecerá como o fracasso da maior força militar da história, a NATO. Uma vitória sem apelo, uma vez que a Aliança Atlântica se envolveu fisicamente na luta, enquanto na Síria permaneceu à margem dos campos de batalha. Muitos estados vassalos de Washington irão tentar soltar-se. É provável que os seus dirigentes civis permaneçam mentalmente virados para o Ocidente, enquanto os seus chefes militares se voltarão mais rapidamente para Moscovo e Pequim. Nos próximos anos, as cartas serão redistribuídas. Não se tratará de passar de um alinhamento com Washington para outro alinhamento com os novos vencedores, mas de criar um mundo multipolar onde todos serão responsáveis por si próprios. O que está em jogo não é uma redefinição de zonas de influência, mas o fim da mentalidade que estabelece uma hierarquia entre os povos.

Nessa perspectiva, é fascinante observar a retórica ocidental. Muitos especialistas do velho mundo explicam que a Rússia quer reconstruir o seu império. Garantem que ela já reconquistou a Ossétia e a Crimeia e ataca agora o Donbass.

Eles reconstroem a história, falsificando em seu apoio citações do presidente Putin. Todos os que estudam a Rússia contemporânea e verificam os dados sabem que é falso. A adesão da Crimeia à Federação da Rússia e as que virão da Ossétia, do Donbass e da Transnístria nada têm a ver com um império, mas com a reconstituição da nação russa, desmembrada no decurso do colapso da União Soviética.

Neste contexto, uma pequena parte dos dirigentes ocidentais começa a contestar as escolhas do seu suserano norte-americano. O mesmo fenómeno ocorreu durante um trimestre, no fim do mandato do presidente francês Nicolas Sarkozy. Este, vendo o desastre humano que ajudara a provocar na Líbia e o seu fracasso na Síria, aceitara negociar uma paz separada com Damasco. No entanto Washington, furioso com esta independência, montou a sua derrota eleitoral em favor de François Hollande. Nos dias que se seguiram ao seu acesso ao Eliseu, esse relançou a máquina de guerra ocidental por uma década. Foi precisamente nesse momento que a Rússia se decidiu a intervir na Síria. Durante dois anos ela apurou o desenvolvimento de novas armas, depois veio combater os jihadistas armados pelo Ocidente e dirigidos pela NATO a partir do seu Comando Terrestre Aliado na Turquia.

Se as palavras de ordem da NATO triunfaram na imprensa ocidental, os nossos estudos sobre a história, a importância e o lugar dos banderistas na Ucrânia contemporânea circularam largamente nos círculos dirigentes do mundo inteiro. Muitos “aliados” de Washington recusam-se agora a apoiar estes “ucranianos” que sabem serem neo-nazis. Eles consideram que neste combate é a Rússia que tem a razão. Desde já, a Alemanha, a França e a Itália autorizaram certos membros do seu governo a conversar com a Rússia, sem que isso mude a política oficial dos seus países. Pelo menos estes três membros da Aliança Atlântica fazem cautelosamente um jogo duplo: se as coisas derem torto para a NATO, eles serão os primeiros a mudar a casaca.

De forma idêntica, a Santa Sé, que quase chegou a pregar uma nova cruzada contra a “Terceira Roma” (Moscovo) e divulgou fotos do papa rezando com as esposas de banderistas do Regimento Azov, contactou igualmente não só com o patriarca Cirilo, mas também com o Kremlin.

Todos esses contactos, por mais discretos que sejam, desautorizam Washington, que tenta já afastar os emissários secretos. Mas, precisamente, o facto de serem oficialmente demitidos dá mais latitude a esses emissários para negociar. O importante é que eles possam dar contas a quem tem direito do que fazem. Trata-se aqui de um jogo perigoso tal como prova a derrota eleitoral do presidente Sarkozy quando tentou se libertar do seu patrocinador norte-americano.

A Croácia e a Turquia partilham interesses comuns nos Balcãs. Aqui os Presidentes Zoran Milanovic e Recep Tayyip Erdogan durante o seu encontro, em Nova Iorque, em setembro passado

HIPÓTESE 1 : O ALARGAMENTO DA NATO CONFIRMARÁ O SEU NOVO OBJECTIVO

Tentemos abordar os acontecimentos com um pouco de distanciamento e ver como eles poderão evoluir.

Para que a Turquia e a Croácia aceitem a adesão da Finlândia e da Suécia à NATO, será preciso que esta subscreva as suas condições. Essas são:

Para a Turquia:

1. A inscrição do PKK e do Hizmet (Fethullah Gülen) nas listas de organizações terroristas, a prisão e a extradição dos seus membros.

2. O retorno da sua indústria de armamento ao programa de fabrico dos F-35

E para a Croácia:

3. A mudança das leis eleitorais na Bósnia-Herzegovina a fim de conceder igualdade política à sua minoria croata.

O PKK não representa os curdos em geral, mas somente alguns dentre eles. Tratava-se à partida de um partido marxista-leninista que combatia a ditadura militar turca durante a Guerra Fria. Depois, após a prisão do seu chefe e a dissolução da URSS, mudou de campo para se tornar um partido libertário, ao serviço do Pentágono no Médio-Oriente. Hoje em dia é uma milícia mercenária que serve de cobertura para a ocupação dos EUA na Síria. Considerá-la como uma organização terrorista significará evacuar os GI da Síria e restituir os poços de petróleo a Damasco.

Fethullah Gülen é o pai espiritual de uma vasta organização de caridade, presente em muitos países. Extraditá-lo dos Estados Unidos e considerar a sua organização como terrorista privará a CIA de ligações em inúmeros países africanos e túrquicos da Ásia. Isso só poderá ser concebível para Washington se o AfriCom estiver implantado no continente africano em vez de estar afastado na Alemanha. Estão em curso negociações para o instalar na Somalilândia, a qual se tornará um Estado reconhecido internacionalmente.

Levando em conta a longa série de atentados que o PKK perpetrou na Turquia e a tentativa de assassinato do presidente Erdogan seguida da tentativa de golpe de Estado, em julho de 2016, na qual o Hizmet desempenhou um papel central por conta da CIA, Ancara tem legitimidade nas suas exigências.

 A reintegração da Turquia entre as nações que fabricam o F-35 não custa nada, mas a sua expulsão foi uma sanção face à compra pelo Exército turco de armas anti-aéreas russas S400. Dar satisfação a Ancara para alargar a NATO face à Rússia será, no mínimo, contraditório e risível. Além disso, ter os F-35 fabricados por uma potência que não hesitou em criticar a suposta falta de qualidade pode também mostrar-se embaraçoso.

A Bósnia-Herzegovina foi criada pelos straussianos (nos acordos de Dayton, Richard Perle não era membro da delegação norte-americana, mas da bósnia). Ela foi pensada como uma entidade homogénea de acordo com o pensamento straussiano. A minoria croata (15% da população) foi, portanto, aí ostracizada. A sua língua não é reconhecida e não têm representantes políticos. Aceder ao pedido que a Croácia formula em seu nome significará pôr em causa as razões pelas quais os straussianos lançaram as guerras da Jugoslávia (separar as etnias e criar populações homogéneas). Ora, são os straussianos quem estão a manobrar na Ucrânia.

Supondo que estas três condições sejam cumpridas ou que os dirigentes políticos que as formularam sejam derrubados, o alargamento da Aliança Atlântica à Finlândia e à Suécia confirmará a mudança de natureza da NATO. Já não se tratará mais de uma estrutura destinada a estabilizar a região do Atlântico Norte tal como estipulado no Tratado, o que havia levado, em 1995, o presidente Boris Yeltsin a considerar seriamente a adesão do seu país. A NATO acabará a sua transformação numa simples administração militar do império ocidental dos EUA.

Estão já armazenadas no Kosovo e na Albânia duas vezes mais armas que as envolvidas na Ucrânia, antes de serem encaminhadas para um outro teatro de operações. Para os straussianos, a derrota futura face à Rússia não terá significado. Outras guerras poderão ser lançadas contra outros inimigos fazendo girar o “business”

HIPÓTESE 2 : AS SANÇÕES E A AJUDA MILITAR OCIDENTAIS SÃO DESTINADAS A PREPARAR OUTROS CONFLITOS

Observemos agora as consequências reais das sanções ocidentais. As medidas de exclusão da Rússia do sistema financeiro internacional não a atingem. Ela continua a importar e a exportar conforme necessário, mas é forçada a mudar de fornecedores e de clientes. Ela põe rapidamente em acção o equivalente do SWIFT com os BRICS (África do Sul, Brasil, China e Índia), mas já não pode comerciar directamente com o resto do mundo. Desde já, é impossível comprar fertilizantes à base de potássio em África. Com efeito, a Rússia e a Bielorrússia são os seus principais exportadores. Está à vista uma fome. O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, soou já o alarme. Ele pede que os ocidentais admitam uma excepção ao seu embargo no que concerne aos adubos à base de potássio.

No caso mais provável, aquele em que Washington não mudará nada da sua política, a fome suscitará novas guerras e vastas migrações para a União Europeia.

É no mínimo surpreendente que, após a queda de Mariupol, os Estados Unidos estivessem dispostos a enviar mais 40 mil milhões de dólares para a Ucrânia, onde já havia perdido outros 14 mil milhões. Na realidade, dois terços nunca chegaram ao seu destino. Esses valores foram desviados. Em breve, mais cerca de 18 mil milhões de dólares em armas estarão disponíveis no Kosovo e na Albânia. Ou se considera que o Pentágono atira dinheiro pela janela, ou então, que ele investe escondendo este gigantesco arsenal dos olhos do Congresso.

A subsecretária de Estado dos EUA para os Assuntos Políticos, a straussiana Victoria Nuland, dirigiu-se pois a Marrocos, no dia 11 de maio, para presidir a uma reunião da Coligação Global contra o Daesh (EI). Participaram nela 85 estados ao nível dos seus ministros dos Negócios Estrangeiros. Tal como esperado, Nuland denunciou a reformulação do Daesh, não mais no Médio-Oriente, mas no Sahel. Ela convidou todos os participantes a se juntarem aos EUA para combater este inimigo. No entanto, tendo constatado o apoio maciço do Pentágono aos jihadistas no Iraque e na Síria, todos os diplomatas presentes compreenderam bem que a tempestade não tardará a rebentar. Faltavam armas e o Pentágono não deseja ser apanhado novamente a entregá-las aos jihadistas. Bastar-lhe-á fazê-las encaminhar a partir dos Balcãs, onde elas esperam pelos utilizadores finais ainda nas embalagens.

Os straussianos reuniram 85 Estados em Marraquexe para planear a próxima guerra no Sahel. Dezenas de milhar de milhão de dólares em armas, oficialmente destinados à guerra na Ucrânia, acumulam-se já nos Balcãs antes de serem fornecidas aos jiahdistas do Daesh

Uma guerra no Sahel não colocará nenhum problema: poupará as grandes potências e só provocará vítimas africanas. Ela irá durar o tempo que a mantiverem e nenhum aliado se permitirá chamar à atenção que esse conflito só existe porque invadiram e destruíram a Líbia. Tudo poderá continuar como antes : para uma parte da humanidade, o mundo continuará a ser unipolar com Washington no seu centro.

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Imagem de capa por U.S. Embassy Moldova sob licença CC BY-ND 2.0

As ideias expressas no presente artigo / comentário / entrevista refletem as visões do/s seu/s autor/es, não correspondem necessariamente à linha editorial da GeoPol

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