Washington e Londres, atingidos de surdez

Thierry Meyssan

Thierry Meyssan

Editor-chefe Réseau Voltaire


Os Estados Unidos responderam por fim à proposta russa de Tratado que garanta a paz, mas recusando debater os argumentos do Kremlin. Simultaneamente organizaram uma maciça campanha de comunicação acusando a Rússia de preparar uma invasão da Ucrânia, em fevereiro. O que Kiev firmemente desmentiu. Uma mistura de histeria e de confusão espalha-se no seio da NATO que Londres aproveita para ressuscitar as redes de ‘stay-behind’. Neste intervalo o eixo sino-russo reforça-se


A proposta russa feita aos Estados Unidos de um Tratado bilateral fixando garantias de Segurança, tornado público pelo Kremlin em 17 de Dezembro de 2021, recebeu uma dupla resposta dos Estados Unidos e da NATO, em 26 de janeiro de 2022, ou seja um mês e meio mais tarde.

A proposta russa estabelece que os dois países devem respeitar a Carta da ONU e que, além disso, Washington respeite a palavra que deu oralmente quanto à não extensão da NATO para lá da linha Oder-Neisse que separa a Alemanha da Polónia.

Os Estados Unidos mantêm a sua resposta em segredo. O secretário de Estado, Antony Blinken, garantiu que o seu país recusa qualquer limitação à extensão da NATO. O Ministro da Defesa britânico, Ben Wallace, foi mais longe assegurando perante a Câmara dos Comuns que “Muitos países se juntaram à Aliança não porque a NATO os tivesse obrigado, mas pela vontade livremente expressa dos governos e dos seus povos”.

O ministro russo dos Negócios Estrangeiros, Sergey Lavrov, lembrou que os Estados Unidos, o Reino Unido e todos os estados membros da OSCE são signatários da Declaração de Istambul de 1999 e de Astana de 2010. Estes dois documentos, firmados pelas assinaturas de 57 chefes de Estado e de governo, estabelecem dois princípios:

 1. Qualquer país é livre de aderir a uma aliança militar da sua escolha;
 2. Qualquer país tem a obrigação de não reforçar a sua segurança em detrimento da dos outros.

Ora, não há nenhuma dúvida que a adesão dos antigos membros do Pacto de Varsóvia à NATO, envolvendo a colocação de armas dos EUA no seu território, ameaça a segurança da Rússia.

A observação de Ben Wallace sobre a vontade dos povos em aderir à NATO é factualmente falsa. Assim, durante o referendo, de 30 de setembro de 2018, de adesão dos macedónios do Norte à NATO, sendo certo que 91,46% dos votantes responderam «Sim» eles representaram apenas 33,75% dos eleitores. Além disso, nenhuma adesão à NATO é válida até que seja aceite por todos os Estados membros dessa organização.

A resposta da NATO, também mantida secreta, foi explicada pelo secretário-geral, Jens Stoltenberg [1]. Inclui três propostas e uma exigência:

– Reabrir as missões diplomáticas respectivas da NATO e da Rússia;

– Iniciar novas discussões sobre o controle de armamentos e regras aplicáveis aos mísseis de curto alcance e de alcance médio;

– Propor novas regras de transparência sobre os exercícios militares e as doutrinas nucleares.

Evacuar a Transnístria, a Crimeia, a Abecásia e a Ossétia do Sul que o Exército russo ocupa na Moldávia, na Ucrânia e na Geórgia.

Estas três propostas visam diminuir o risco de guerra nuclear. Elas diferem do que se sabia da resposta dos EUA, pois estão sujeitas a verdadeiras negociações. Elas mostram que os membros da NATO estão conscientes dos riscos de guerra nuclear.

A exigência de evacuação da Transnístria, da Crimeia, da Abecásia e da Ossétia do Sul mostra, uma vez mais, que o bloco ocidental nega o direito dos povos à auto-determinação enunciado na Carta da ONU. A história destes quatro territórios atesta que são habitados por povos distintos dos moldavos, dos ucranianos e dos georgianos. Não houve qualquer processo de limpeza étnica. Cada povo escolheu a sua independência por referendo. Além disso, a Crimeia independente solicitou a sua adesão à Federação da Rússia, que a aceitou.

Tudo se passa como se os Estados Unidos e a NATO estivessem surdos face à Rússia.

Durante estas últimas semanas, a Bulgária, a Dinamarca, a Espanha, a Estónia, a Itália, a Letónia, a Lituânia, a Polónia, a Roménia e o Reino Unido enviaram armas para a Ucrânia ou enviaram tropas para a defender [2]. Não apenas a imprensa americana e britânica enxamearam com rumores de uma eventual invasão russa da Ucrânia em Fevereiro, como a imprensa na Europa Central, Oriental e do Báltico lhe seguiu o exemplo. No entanto, o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, e o seu Ministro da Defesa, Oleksii Reznikov, repetiram constantemente que não existia esse risco, que o seu país não estava ameaçado no curto prazo [3].

Esta dissonância no seio do bloco ocidental é chocante. Confirma que os Estados Unidos raciocinam fora da realidade. Claro, a Rússia esperava uma recusa dos EUA à sua proposta de Tratado, mas não eructações sem argumentos e ignorando os seus. O presidente Biden parece ter adoptado a estratégia escolhida pelo seu antecessor Richard Nixon face à URSS, a do louco (Madman theory) : manter em tom ameaçador comentários incoerentes para intimidar o adversário e fazê-lo recuar. Ou ainda, segundo a fórmula do professor Thomas Schelling, enunciar « uma ameaça que deixa lugar ao acaso ». Esta estratégia falhou durante a Guerra do Vietname (Vietnã-br). É pouco provável que atinja o seu objectivo na segunda vez, tanto mais que a equipa do Presidente Vladimir Putin é muito mais capaz do que era a do Primeiro-Secretário Leonid Brezhnev. É o bluff do jogador de póquer contra o calculismo do jogador de xadrez.

A tensão em torno da Ucrânia poderá facilmente encontrar uma solução diplomática. Primeiro porque se Washington e Bruxelas (sede da NATO) não cessam de repetir que a Ucrânia tem o direito de aderir à Aliança, isso está fora de questão hoje e nem sequer é viável a médio prazo. Em seguida, porque bastará que a Aliança reitere a sua declaração de 1996, segundo a qual “não tem nenhuma intenção, nenhum plano, nem nenhuma razão para instalar armas nucleares no território dos seus novos membros” – os três “Não”– para que tudo volte ao normal a curto prazo, no plano militar [4]. Não é de mais sublinhar que a questão colocada pela Rússia não é a presença de armas dos EUA na Ucrânia, mas de maneira muito mais genérica a do respeito pelos tratados.

Enquanto os dois grandes se entregam a este estranho jogo, alguns aliados dos Estados Unidos exibem as suas diferenças.

Em primeiro lugar, o Reino Unido que acordou as redes ‘stay-behind’ da Guerra Fria. Esquece-se muitas vezes que a Aliança Atlântica é historicamente uma criação conjunta dos Estados Unidos e do Reino Unido. O que é claro segundo a formulação do Presidente Charles De Gaulle, a NATO não passa de um para-vento do domínio norte-americano da Europa já que o supremo comandante da Aliança é sempre um oficial dos EUA e as decisões políticas são da incumbência conjunta de Washington e Londres, não passando os outros aliados de vassalos. Não é o que o Tratado do Atlântico Norte diz, mas foi aquilo que ainda durante a guerra contra a Líbia se verificou. O Conselho do Atlântico não foi convocado para decidir sobre o ataque a Trípoli, porque alguns membros se lhe opunham. A decisão foi tomada durante uma reunião secreta, em Nápoles, em exclusivo pelos Estados Unidos e pelo Reino Unido, na presença de alguns aliados por eles escolhidos.

Para causar medo aos seus aliados e justificar o reforço das redes ‘stay-behind’, o Reino Unido acusou políticos ucranianos de preparar um governo colaboracionista após a invasão russa. Yevgeniy Murayev respondeu-lhe, com humor, considerando que apenas os britânicos podiam imaginar personagens como James Bond. Ele apelou aos seus concidadãos para não se dividirem em pró-ocidentais e pró-russos, mas para juntos defenderem a sua pátria

Este papel de suserano de Washington e de Londres, levara-os durante toda a Guerra Fria a manter redes de stay-behind para intervir, com o seu acordo de princípio, na política interna dos estados-membros, mas sem o seu conhecimento [5]. Essas intervenções incluíram o assassínio do presidente do Conselho italiano Aldo Moro, bem como o derrube do regime republicano grego e a instalação do regime militar dos Coronéis. Em França, a NATO apoiou a OAS (Organisation de l’Armée Secrète) que realizou umas quarenta tentativas de assassinato do presidente De Gaulle. O Pentágono revelou publicamente que essas redes – nunca dissolvidas, apesar dos anúncios repetidos – tinham sido alargadas à Ucrânia. A Rússia concluiu, a propósito, que esta é um membro de facto da Aliança sem que ela, no entanto, possa fazer-se valer do Artigo 5.º do Tratado do Atlântico Norte, que garantirá a sua segurança.

Londres anunciou igualmente que reforçava a sua solidariedade militar com a Polónia no quadro de uma aliança trilateral com a Ucrânia [6]. Em poucas semanas, Varsóvia tornou-se a placa giratória pela qual transita toda a ajuda a Kiev. No entanto, os polacos não querem expor-se de uma forma escandalosa. Por isso eles propuseram à Rússia deixá-la inspecionar as bases dos EUA no seu território, com a condição de que eles pudessem reciprocamente inspecionar as bases russas no enclave de Kaliningrado [7].

Os Estados Unidos e o Reino Unido estão inquietos pela falta de entusiasmo do novo governo alemão do Chanceler Olaf Scholz. Berlim recusou deixar aviões britânicos sobrevoar o seu território a fim de armar a Ucrânia. Segundo os tratados, os alemães não teriam podido opor-se se o pedido tivesse sido emitido pelo Pentágono. Berlim pede que se dissocie a questão ucraniana do colocação em serviço do gasoduto Nord Stream 2, indispensável à sua economia. Por fim, não respeita seu compromisso de consagrar 2% do seu PIB à Defesa, não gastando mais do que 1,5%.

O secretário de Estado, Antony Blinken, veio pessoalmente dar um sermão ao governo Scholz, mas a Alemanha, em vez de negociar com a Rússia, está enredada nas negociações internas da sua coligação governamental.

Resta o caso francês. O presidente Emmanuel Macron reabriu as negociações no formato Normandia a fim de aplicar os Acordos de Minsk e pacificar a Ucrânia. Ele conversou longamente com o seu colega russo, o presidente Vladimir Putin. Mas, neste dossier, o problema está noutro lado: são os ucranianos que recusam aplicar o acordo que assinaram. São eles que mantêm a guerra civil no Donbass.

Voltando a Washington. A classe política é unânime contra a Rússia, mas está dividida quanto aos meios para a fazer dobrar. Durante três semanas, debateu as mais terríveis sanções. No entanto, se as adoptar agora, Moscovo será sancionada antes de ter invadido a Ucrânia e poderá, pois, fazê-lo sem medo de represálias. Mais seriamente, os Republicanos apoiam as propostas da Heritage Foundation [8], enquanto os democratas se agarram às do Center for American Progress [9]. Todos tem perfeita consciência que aplicar os compromissos assumidos na OSCE, ao ter assinado a Declaração de Istambul de 1999 e de Astana de 2010, será o início do fim. O “Império americano” está ameaçado, não pela Rússia, mas pelo Direito Internacional que, até aqui, permanece inaplicado.

Portanto, a questão que se põe é : que meios está a Rússia pronta a por em prática para forçar Washington a respeitar o Direito Internacional (no sentido da ONU e não no sentido estados Unidos)? O ministro adjunto dos Negócios Estrangeiros russo, Serge Riabkov, deixou pairar a dúvida sobre uma possível transferência de mísseis para Cuba ou para a Venezuela. Mas o vice-presidente do Conselho de Segurança russo, Dmitry Medvedev declarou que isso estava « fora de questão » porque iria contra os interesses desses dois países [10] ; uma maneira de sublinhar que a presença de armas dos EUA na Europa central e oriental vai contra os interesses dos países que as abrigam.

É preciso, portanto, olhar para outros céus. Para a Síria, por exemplo. Assim, as forças aéreas síria e russa iniciaram manobras conjuntas por cima dos montes Golã, juridicamente sírios segundo a ONU, mas que Israel ilegalmente anexou em 1981. O Tsahal não se atreveu a disparar contra estes aviões. O respeito pelos tratados não tem a ver unicamente com os Estados Unidos, mas também com Israel.

A lentidão de Washington em responder à proposta russa do fim de 2021 e a histeria visível no Congresso acordaram a China. Esta tomou nota do 2022 National Defense Authorization Act – NDAA (Lei de Autorização da Defesa Nacional de 2022-ndT), promulgada em 27 de Dezembro de 2021. Ela prevê um gigantesco orçamento de Defesa (fora bombas atómicas) de 768 mil milhões de dólares ! Ninguém leu esse texto na integra (2.186 páginas), mas a sua filosofia é claramente a de isolar Pequim. Assim Wang Yi, o ministro chinês dos Negócios Estrangeiros, não deixou de prevenir o seu homólogo dos EUA, Antony Blinken… para responder aos pedidos “justificados” de Moscovo. Passo a passo, a Entente sino-russa confirma-se ; um eixo demasiado poderoso para os Estados Unidos e seus aliados.

Última nota. Quando Washington, em 23 de janeiro, informou Moscovo que finalizava a sua resposta escrita, precisou que desejava conservá-la secreta [11]. O que a Rússia aceitou. A única explicação possível para esta iniciativa é que a Casa Branca se aprestava a manter discursos diferentes com os seus interlocutores. O Ocidente agora deixa a Democracia para entrar na diplomacia secreta.


Serie da Ucrânia de Thierry Meyssan

Todos os artigos sobre o tema Ucrânia da Rede Voltaire:

1. A Rússia quer obrigar os EUA a respeitar a Carta das Nações Unidas 
2. Washington prossegue o plano da RAND no Cazaquistão, a seguir na Transnístria
3. Washington recusa ouvir a Rússia e a China
4. Washington e Londres, atingidos de surdez
5. Washington e Londres tentam preservar a sua dominação sobre a Europa
6. Duas interpretações do processo ucraniano
7. Washington canta vitória, enquanto seus aliados se retiram
8. A Rússia declara guerra aos Straussianos
9. Um bando de drogados e de neo-nazis
10. Israel aturdido pelos neo-nazis ucranianos
11. Ucrânia : a grande manipulação
12. A Nova Ordem Mundial que preparam a pretexto da guerra na Ucrânia
13. A propaganda de guerra muda de forma
14. A aliança do MI6, a CIA e os banderistas
15. O fim do domínio ocidental
16. Ucrânia: a Segunda Guerra mundial continua
17. Washington quer prolongar a guerra para recuperar o estatuto de super-potência
18. O Canadá e os banderistas
19. Preparam uma nova guerra para o após derrota face à Rússia
20. Os programas militares ucranianos secretos
21. Ucrânia: enganos, arrogância e incompreensão
22. A Polónia e a Ucrânia
23. A ideologia dos banderistas
24. Afundando a paz na Europa
25. A agonia do Ocidente


Imagem de capa **** por sob licença ****


Este artigo foi foi originalmente publicado na Rede Voltaire

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