O fim do domínio ocidental

Thierry Meyssan

Thierry Meyssan

Editor-chefe Réseau Voltaire


As sanções ocidentais contra a Rússia, decididas unilateralmente por Washington, são apresentadas como uma justa punição à agressão contra a Ucrânia. Mas, sem falar da sua ilegalidade face ao Direito Internacional, todos podem constatar que elas não atingem o alvo. Na prática, os Estados Unidos isolam o Ocidente esperando manter a hegemonia sobre os seus aliados


Os Estados Unidos, que só tardiamente participaram nas guerras mundiais e não sofreram quaisquer danos no seu território, saíram vitoriosos dos conflitos. Herdeiros dos impérios europeus, elaboraram um sistema de dominação que os tornou nos “gendarmes do mundo”. No entanto, a sua hegemonia era frágil e não podia resistir ao desenvolvimento de grandes nações. Desde 2012, politólogos começaram a descrever a “armadilha de Tucídides” por analogia com a explicação que o estratega grego havia dado das guerras que opuseram Esparta a Atenas. Segundo eles, o aumento de poderio da China tornava assim inevitável o confronto com os Estados Unidos. Constatando que, se a China se tornara a primeira potência económica mundial, a Rússia se tornou a primeira potência militar, Washington decidiu combatê-las uma a seguir à outra.

É neste contexto que surge a guerra na Ucrânia. Washington apresenta-a como “agressão russa”, adopta sanções e força os seus aliados a adoptá-las também. A primeira ideia que salta ao espírito, é que os Estados Unidos achando-se inferiores militarmente, mas superiores economicamente, decidiram escolher o seu campo de batalha. No entanto, a análise de forças em presença e das medidas tomadas desmente esta leitura dos acontecimentos.

Washington assassinou o presidente iraquiano Saddam Hussein e o guia líbio, Muammar Kadhafi, porque eles haviam ousado por em causa o domínio do dólar. Depois pilharam-lhes os bancos centrais
O SISTEMA ECONÓMICO MUNDIAL

O sistema económico mundial foi criado pelos Acordos de Bretton Woods, em 1944. Eles visavam estabelecer um quadro do capitalismo para além da crise de 1929, para a qual o nazismo não havia sido a solução. Os Estados Unidos impuseram a sua moeda como referência convertível em ouro. Nem a União Soviética, nem a República Popular da China participaram nesta conferência.

Em 1971, o presidente Richard Nixon decidiu acabar oficiosamente com a paridade dólar-ouro. Pôde assim financiar a guerra do Vietname. Concretamente, já não havia mais taxas de câmbio fixas. A medida só foi oficializada uma vez a guerra terminada, em 1976. Foi também nesse momento que a China fez aliança com as multinacionais anglo-saxónicas. A Comunidade Europeia (precursora da União) adaptou-se enquadrando as taxas de câmbio, agora flutuantes, em 1972 (a chamada “serpente monetária”), e depois criando o euro.

A partir de 1981, os Estados Unidos começaram a deixar engrossar a sua dívida. Ela passou de 40% do seu PIB para os 130% hoje em dia. Eles tentaram globalizar a economia mundial, quer dizer, impor as suas regras aos países solventes e destruir as estruturas estatais dos países restantes (a Doutrina Rumsfeld-Cebrowski). Para pagar a sua dívida imprimiram dólares, espiaram as empresas dos aliados e roubaram todas as reservas de dois grandes estados petrolíferos, o Iraque e a Líbia. Ninguém ousou dizer nada, mas a partir de 2003, o sistema económico dos Estados Unidos já não era mais o que dizia ser. Oficialmente continuavam a dizer-se liberais, mas todos podiam constatar que já não produziam mais nem sequer a sua alimentação, nem as suas mercadorias de primeira necessidade, e que não se forneciam mais nada senão de rapina.

A economia norte-americana, que representava um terço da economia mundial aquando da dissolução da URSS, não representa hoje mais do que um décimo daquilo.

Muitos estados antecipam o fim das regras de Bretton Woods e pensam já em novos modelos. Em 2009, o Brasil, a Rússia, a Índia e a China, depois acompanhados pela África do Sul, criaram os BRICS. Estes países dotaram-se de instituições financeiras que, ao contrário do FMI e do Banco Mundial, não condicionam os seus empréstimos a reformas estruturais ou compromissos políticos tal como o alinhamento com Washington. Preferem investir em leasing, tornando-se o país anfitrião proprietário do investimento assim que este é rentabilizado.

Em 2010, a Bielorrússia, o Cazaquistão e a Rússia, logo seguidos pela Arménia, fundaram a União Económica Eurasiática. Estes países fronteiriços instauraram uma zona de livre comércio com o Egipto, a China, o Irão, a Sérvia, Singapura e o Vietname. Eles poderão vir a ser acompanhados pela Coreia do Sul, a Índia, a Turquia e a Síria.

Em 2013, a China iniciou um vasto projecto de “Novas Rotas da Seda”. No ano seguinte, quando o seu PIB ultrapassou o dos Estados Unidos em paridade de poder de compra, Pequim criou o Banco Asiático de Investimento para as Infraestruturas (AIIB), depois em 2020, enquadrou os capitais estrangeiros.

Em 2021, a União Europeia idealizou a sua Global Gateway para competir com a China e impor o seu modelo político. Mas esta exigência foi sentida por muitos países como uma retoma colonial e foi objecto de uma rejeição maciça.

Progressivamente, o bloco russo e o bloco chinês aproximaram-se graças ao projecto comum da Grande Parceria Eurasiática Global (2016), no âmbito da Organização de Cooperação de Xangai. Trata-se de desenvolver todo esse espaço criando vias de comunicação equilibradas sobre as bases ideológicas definidas pelo sultão cazaque Nazerbayev: a inclusão, a igualdade soberana, o respeito da identidade cultural e sócio-política, a abertura e a disponibilidade para integrar outros conjuntos .

A tentativa de Washington de destruir este conjunto em formação não tem possibilidade de êxito.

É impressionante constatar que o ataque económico começou, não com a invasão da Ucrânia, mas dois dias antes. Ele dirige-se, antes de mais, contra os bancos russos, os bilionários russos e a indústria russa de gás e de modo algum contra o novo sistema de comunicação eurasiático. Por fim, ele visa excluir a Rússia das organizações internacionais, mas não envolve os estados que recusam condenar a Rússia. Por conseguinte, ela irá crescer nos braços de Pequim.

Por outras palavras, os Estados Unidos não isolam a Rússia, mas isolam o Ocidente (10% da humanidade) do resto do mundo (90% da humanidade).

O presidente norte-americano, Joe Biden, veio presidir, de facto, ao Conselho Europeu de 24 de março do qual os Estados Unidos não fazem parte. Segundo os tratados europeus, é a NATO que garante a segurança da UE
O PROCESSO DE SEPARAÇÃO DO OCIDENTE DO RESTO DO MUNDO

Logo no dia seguinte ao reconhecimento por Moscovo da independência das repúblicas populares de Donestsk e de Lugansk (21 de fevereiro de 2022), os Estados Unidos atacavam economicamente a Rússia (22 de fevereiro). A União Europeia seguia-lhes o passo no dia imediato (23 de fevereiro). O Vnesheconombank e o Promsvyazbank eram excluídos do sistema financeiro mundial.

O Vnesheconombank (VEB.RF) é um banco de desenvolvimento regional. Ele poderia ajudar o do Donbass. O Promsvyazbank (PSB) investe principalmente no sector da Defesa. Este poderia jogar um papel na aplicação do Tratado de Assistência Mútua.

 1. Tendo a Rússia iniciado uma operação militar especial na Ucrânia (24 de fevereiro), os Estados Unidos estendem a exclusão dos dois primeiros bancos do sistema financeiro mundial, a todos os bancos russos (25 de fevereiro). A União Europeia imita-lhe o passo (25 de fevereiro).

 2. A fim de prevenir que o máximo de Estados se juntassem à Rússia, Washington estende as interdições comerciais à Bielorússia. A União Europeia começs a privar os bancos russos de aceder ao sistema SWIFT, de acordo com as instruções norte-americanas precedentes estende, por sua vez, as sanções à Bielorússia e censura os media públicos russos RT e Sputnik (2 de março).

 3. Washington começa a atirar-se aos cidadãos russos ricos, erradamente chamados de “oligarcas” (3 de março), e a proibe a importação de fontes de energia russas (8 de março). A União Europeia sege-lhe o passo, mas resiste em relação à proibição de importar gás russo que lhe é indispensável (9 de março).

 4. Washington estende as sanções financeiras ao seio do FMI e do Banco Mundial, além disso, alarga a lista dos oligarcas e interdita a exportação de produtos de luxo para a Rússia (11 de março). A União Europeia segue-lhe o passo (15 de março).

 5. Washington assegura-se que os membros da Duma e os oligarcas não tenham mais quaisquer direitos no Ocidente; que a Rússia não possa mais usar seus activos nos EUA para pagar as suas dívidas aos EUA; e que ela não mais possa utilizar o seu ouro para pagar as suas dívidas ao estrangeiro (24 de março). A UE segue-a nestas proibições e expressa interdição de importar carvão e petróleo russos, mas continua sem nenhuma proibição de gás.

A tabela abaixo resume as comunicações da Casa Branca e de Bruxelas.

Estados UnidosUnião Europeia
Os Estados Unidos impõem a primeiro série de custos rápidos e significativos à Rússia” (22 de fevereiro)A UE adopta um pacote de sanções em resposta ao reconhecimento das zonas dos oblasts ucranianos de Donetsk e de Lugansk não controladas pelo governo (23 de fevereiro)
Os Estados Unidos com os seus Aliados e parceiros, impõem custos devastadoras à Rússia“(24 de fevereiro)Primeiro grupo de sanções da UE (25 de fevereiro)
Os Estados Unidos continuam a impor custos à Rússia e à Bielorrússia devido à guerra declarada por Putin” (2 de março)Segundo pacote de sanções da UE (2 de março)
Os Estados Unidos continuam a atingir os oligarcas russos que colaboram com a guerra declarada por Putin” (3 de março) “Os Estados Unidos interditam as importações de petróleo, de gaz natural liquefeito e de carvão russos” (8 de março)Terceiro pacote de sanções da UE (9 de março)
Os Estados Unidos , a União Europeia e o G7 anunciarão sanções económicas suplementares à Rússia” (11 de março)Quarto pacote de sanções da UE (15 de março)
Os Estados Unidos e seus Aliados e parceiros impõem custos suplementares à Rússia” (24 de março) “Os Estados Unidos , o G7 e a UE impõem custos importantes e imediatos à Rússia” (6 de abril)Quinto pacote de sanções da UE (8 de abril)
Em 4 de fevereiro de 2022, os presidentes russo e chinês, Vladimir Putin e Xi Jinping, assinaram uma declaração conjunta apresentando a sua concepção de desenvolvimento económico duradouro. No dia seguinte à entrada do Exército russo na Ucrânia, em 25 de fevereiro, eles confirmaram, por telefone, que a reacção dos Estados Unidos não mudaria nada da sua “Entente”
A RESPOSTA DO RESTO DO MUNDO

É um fenómeno extremamente surpreendente a observar: os Estados Unidos conseguiram fazer virar uma maioria dos estados para o seu lado, mas esses estados são os menos povoados do mundo. Tudo se passa como se eles não tivessem meios para pressionar os países capazes de afirmar independência.

Devido às acções unilaterais dos anglo-saxões e da União Europeia, o mundo está em vias de se dividir em dois espaços heterogéneos. A era da globalização económica terminou. As pontes económicas e financeiras estão a ser quebradas uma a uma.

Reagindo com rapidez, a Rússia convenceu os seus parceiros dos BRICS a parar as trocas comerciais em dólares e a criar, a termo, uma moeda virtual comum para o seu comércio. Daqui até lá, continuarão em ouro. Esta moeda deverá ser baseada num cabaz de moedas dos BRICS, ponderada em função do PIB de cada Estado membro, e numa cesta de matérias primas cotadas em bolsa. Este sistema deverá ser muito mais estável do que o actual.

Acima de tudo, a Rússia e a China aparecem como muito mais respeitadoras dos seus parceiros do que os ocidentais. Elas jamais exigem reformas estruturais, quer económicas, quer políticas. O caso ucraniano mostra aos olhos de todos que Moscovo não busca tomar o poder em Kiev ou em ocupar a Ucrânia, mas em afastar a NATO e em combater os banderistas (os “neo-nazis” na terminologia do Kremlin). Nada mais legítimo, mesmo se o método for brutal.

Na prática, assiste-se ao fim de quatro séculos de domínio dos ocidentais e dos seus Impérios. É um confronto entre maneiras de pensar diferentes. – Os Ocidentais já só pensam em termos de semanas. Com esta miopia, podem ter a impressão que os Estados Unidos estão certos e os russos errados. Pelo contrário, o resto do mundo pensa em décadas, ou até mesmo em séculos. Neste caso, não há dúvida de que os russos estão certos e os ocidentais, no seu conjunto, estão errados.

 Além disso, os Ocidentais rejeitam o Direito Internacional. Atacaram a Jugoslávia e a Líbia sem autorização do Conselho de Segurança e mentiram para atacar o Afeganistão e o Iraque. Eles só aceitam as regras que eles próprios estabelecem. Pelo contrário, os outros estados aspiram a um mundo multipolar em que cada actor pensaria em função da sua própria cultura. Estão cientes que só o Direito Internacional permitirá preservar a paz no mundo tal como eles o sonham.

Talvez mais do que confrontar a Rússia e a China, os Estados Unidos tenham escolhido recuar para dentro do seu império: isolar o Ocidente, para assim manter aí a sua hegemonia.

Desde 2001, todos os dirigentes mundiais consideram os ocidentais, e particularmente os Estados Unidos, como predadores feridos. Não ousando enfrentá-los, buscam a maneira de os acompanhar gentilmente até à última morada. Mas, ninguém havia imaginado que eles iriam isolar-se para morrer.


Serie da Ucrânia de Thierry Meyssan

Todos os artigos sobre o tema Ucrânia da Rede Voltaire:

1. A Rússia quer obrigar os EUA a respeitar a Carta das Nações Unidas 
2. Washington prossegue o plano da RAND no Cazaquistão, a seguir na Transnístria
3. Washington recusa ouvir a Rússia e a China
4. Washington e Londres, atingidos de surdez
5. Washington e Londres tentam preservar a sua dominação sobre a Europa
6. Duas interpretações do processo ucraniano
7. Washington canta vitória, enquanto seus aliados se retiram
8. A Rússia declara guerra aos Straussianos
9. Um bando de drogados e de neo-nazis
10. Israel aturdido pelos neo-nazis ucranianos
11. Ucrânia : a grande manipulação
12. A Nova Ordem Mundial que preparam a pretexto da guerra na Ucrânia
13. A propaganda de guerra muda de forma
14. A aliança do MI6, a CIA e os banderistas
15. O fim do domínio ocidental
16. Ucrânia: a Segunda Guerra mundial continua
17. Washington quer prolongar a guerra para recuperar o estatuto de super-potência
18. O Canadá e os banderistas
19. Preparam uma nova guerra para o após derrota face à Rússia
20. Os programas militares ucranianos secretos
21. Ucrânia: enganos, arrogância e incompreensão
22. A Polónia e a Ucrânia
23. A ideologia dos banderistas
24. Afundando a paz na Europa
25. A agonia do Ocidente


Fonte: Rede Voltaire


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