Eleições regionais em Madrid: Castigo à esquerda

Na passada terça-feira (4 de maio) realizaram-se eleições regionais na Comunidade de Madrid. Foram antecipadas porque as últimas tinham sido realizados em 2019. O motivo do antecipação eleitoral foi a ruptura do pacto governamental entre o Partido Popular e os Ciudadanos na região de Múrcia e o acordo de um novo governo regional dos Ciudadanos com os socialistas do PSOE. A presidente da região, Isabel Díaz Ayuso, temendo a mesma mudança em Madrid (uma vez que ela governou graças à mesma coligação), decidiu antecipar as eleições, apesar da esquerda ter tentado evitar tal apelo, sinal de que o plano era fazer o mesmo que em Múrcia.

Apesar das sondagens governamentais, que previam uma vitória para os partidos de esquerda, a actual presidente da região de Madrid alcançou um grande triunfo, ganhando 65 deputados (mais 35 que em 2019) e quase uma maioria absoluta (de 132 lugares). Deve ter-se em conta que ela governou anteriormente graças ao pacto dos seus 30 deputados na altura, juntamente com os 26 dos Ciudadanos e 12 do VOX.

O partido mais castigado foi o Ciudadanos, um partido de centro liberal que tinha jogado eleitoralmente com a direita, mas inesperadamente e contra a opinião, tanto de quadros como de militantes ou eleitores, tinha feito uma aproximação ao PSOE, tentando mudar o governo de três regiões através de moções de censura. A punição foi total: de 26 deputados para 0. Mais de 500.000 votos perdidos.

Pelo contrário, a presidente Díaz Ayuso, que foi demonizada e assediada ad nauseam pelo governo central e os seus meios de comunicação, recebeu o apoio de 1 milhão e 600 mil votos, sendo a força mais votada em todos os distritos e em 176 dos 178 municípios da região de Madrid. Demolidor. As razões mais plausíveis para este apoio popular têm sido, sem dúvida, a sua posição contra o encerramento dos locais de trabalho e a possibilidade de circulação ao máximo, encenando um confronto permanente com o governo socialista em Espanha.

O PSOE caiu do primeiro para o terceiro lugar, sendo o seu candidato Gabilondo, um personagem cinzento sem carisma, ultrapassado por alguns milhares de votos por outra candidatura de esquerda, cindida do PODEMOS: a Más Madrid.

O VOX, por outro lado, manteve a sua posição, passando de 12 para 13 deputados e ganhando quase 50 mil votos. Já anunciou a sua vontade de apoiar um governo do Partido Popular na região, como se esperava.

Na mesma noite eleitoral, Pablo Iglesias, que se demitiu do seu cargo de vice-presidente do governo espanhol para ser o candidato do PODEMOS, anunciou a sua demissão dos seus cargos e da política. Como anunciei, embora não esperasse que fosse tão cedo. A sua candidatura obteve mais 80 mil votos do que em 2019, mas é um fracasso para todos os relatos com o seu total de 7% de votos. Em todos os bairros da classe trabalhadora que afirmam representar, a direita ganhou e a bizarra campanha intimidadora, na qual recebeu cartas com balas no interior, assim como os seus apelos para apostar entre “democracia ou fascismo” dificilmente influenciaram os resultados. De facto, o verdadeiro eleitorado espanhol, para além dos gritos histéricos dos meios de comunicação, não está preocupado com as questões de uma guerra civil que terminou há mais de 80 anos, mas com a possibilidade de comer e trabalhar todos os dias. Os apelos anti-fascistas ou anti-comunistas (VOX com o seu “parámos o comunismo em Madrid”) já perderam eficácia devido ao seu abuso.

De facto, os comunistas e os fascistas mais genuínos que concorriam nestas eleições, com as suas candidaturas marginais que não atingiram 1% dos votos, foram ainda mais empurrados para um canto: o Partido Comunista dos Trabalhadores de Espanha (PCTE) passou de 2.610 para 1.653 votos (0,05%) e a Falange Española de las JONS de 2.217 para 1.129 votos (0,03%)…

O líder do PP, Pablo Casado, na sua euforia, anunciou que este é o início da recuperação do governo espanhol. Uma leitura inicial destas eleições pode certamente indicar o regresso, num curto espaço de tempo, do bipartidarismo a Espanha. Se até recentemente havia cinco partidos a disputar directamente os lugares de poder nas diferentes eleições, agora o mapa é o seguinte:

– Ciudadanos, após uma série de erros estratégicos está a desaparecer rapidamente e quase todos os seus eleitores estão a ir para o Partido Popular.

– PODEMOS, após a partida de Pablo Iglesias, tem muitas possibilidades de se desintegrar, uma vez que a sua liderança foi um pilar fundamental da sua coesão.

– VOX, que apesar de ser mantido, continua a seguir o Partido Popular, com o risco de que os seus eleitores acabem mais cedo ou mais tarde por apostar no partido maior e mais moderado que diz a mesma coisa sem gritar tanto…

As ideias expressas no presente artigo / comentário / entrevista refletem as visões do/s seu/s autor/es, não correspondem necessariamente à linha editorial da GeoPol

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