A intervenção estratégica da Rússia na Síria cinco anos depois

Strategic Culture Foundation

Um “golpe imperdoável” para o Império dos EUA

Há cinco anos, neste mês, a Rússia começou a conduzir operações militares fatídicas na Síria, a pedido do governo em Damasco. Foi um “ponto de viragem” importante, conforme observado pelo presidente Assad da Síria esta semana, cuja nação está lentamente emergindo das cinzas da guerra.

Mais do que salvar a Síria de uma guerra de quase uma década – embora tenha sido vitalmente importante – a intervenção fundamental da Rússia também marcou o revés estratégico para uma campanha de mudança de regime apoiada pelo Ocidente e de guerras ilegais em todo o Médio Oriente e Norte de África.

Esse golpe decisivo contra a suposta hegemonia dos Estados Unidos e os seus aliados da NATO é sem dúvida um factor nos esforços aparentemente implacáveis do Ocidente para isolar e manchar a Rússia com sanções e outras provocações, esforços que continuam inabaláveis até à presente data.

A intervenção da Rússia foi uma resposta baseada em princípios para ajudar um aliado histórico, a República Árabe Síria. Na época, a nação levantina já era atacada há quatro anos por uma série de grupos militantes armados ilegalmente, que ameaçavam dominar o país. Esses grupos eram compostos por centenas de milhares de mercenários de dezenas de países e foram celebrados nos media ocidentais como “rebeldes” numa enganosa capa de propaganda pelo facto de que eles eram na realidade terroristas hardcore massacrando no seu caminho para Damasco. Esses “rebeldes” amados pelos governos ocidentais e pela imprensa realizaram decapitações e outras atrocidades indescritíveis contra civis.

O que a imprensa ocidental também chamou de “guerra civil” da Síria é outro estratagema cínico da propaganda para esconder o facto de que o conflito foi na realidade uma guerra de agressão patrocinada por estrangeiros. A conspiração para derrubar o Estado árabe levou anos a ser feita pelas potências ocidentais, que viam a sua aliança com a Rússia e o Irão como uma resistência inaceitável aos seus ditames e objectivos imperialistas.

A liderança russa não tinha ilusões. O presidente Vladimir Putin e o Kremlin sabiam o que estava em jogo. As potências ocidentais estavam tentando transformar a Síria num estado falido, para quebrar a nação com um ataque brutal por procuradores cruéis e, dessa forma, pavimentar o caminho para a mudança de regime e assim criar um Estado-cliente em Damasco, que dali em diante atenderia às ordens do Ocidente em termos da geopolítica do Médio Oriente. O nefasto plano teria o preço de destruir a Síria e a sua antiga civilização multi-étnica e multi-religiosa, juntamente a centenas de milhares de vidas perdidas e milhões de pessoas transformadas em refugiados.

A intervenção militar da Rússia pôs fim a esse esquema criminoso. Em dezembro de 2016, pouco mais de um ano depois, os aliados russos e sírios haviam libertado toda a cidade de Aleppo, no norte, que havia sido a plataforma de lançamento para a guerra por procuração apoiada pelo Ocidente. Seguiriam-se outras vitórias espectaculares.

Cinco anos depois, a Síria está em grande parte libertada das redes militantes. Uma pequeno bolsa de resistência permanece na província de Idlib, no norte, que o governo sírio do presidente Bashar al-Assad está determinado a derrotar em breve, a fim de restaurar a integridade territorial de todo o país.

Incongruentemente, mas revelador, partes do leste da Síria permanecem sob controle das forças terrestres do exército dos EUA. As forças americanas, ao contrário das da Rússia, nunca foram solicitadas pelo governo sírio. Eles estão ocupando ilegalmente o território e, é claro, esse facto mostra a verdadeira natureza da agenda criminal de Washington em relação à Síria. As alegações americanas sobre “derrotar o terrorismo” são um encobrimento absurdo para o seu objectivo de promover a mudança de regime, um objectivo que envolveu Washington armando dissimuladamente terroristas por procuração, não a derrotá-los.

O compromisso da Rússia em defender a nação síria foi heróico e contra todas as probabilidades adversas. O país estava infestado por uma miríade de grupos militantes armados, dirigidos e financiados por um formidável conjunto de potências, incluindo os Estados Unidos, a Grã-Bretanha, a França, a Turquia, a Arábia Saudita e outros regimes do Golfo ricos em petróleo, bem como Israel.

Como observado acima, antes da intervenção da Rússia, os inimigos apoiados por estrangeiros estavam às portas de Damasco. O terrorismo bárbaro e a destruição infligidos à Síria quase chegaram ao ponto de ruptura. Felizmente, porém, o poder do fogo russo reverteu a maré terrorista. A conquista é comparável à vitória do Exército Vermelho soviético na Segunda Guerra Mundial em Estalingrado.

Hoje, a guerra na Síria quase não é mencionada na imprensa ocidental. A aparente perda de interesse reflecte a admissão tácita de que a Rússia e o seu aliado sírio derrotaram a guerra secreta apoiada pelo Ocidente.

Pode-se imaginar o resultado alternativo se a Rússia não tivesse intervido. Sem dúvida, a Síria hoje seria uma terra devastada invadida por senhores da guerra terroristas. As implicações desse cenário de pesadelo para a segurança da região do Médio Oriente e além são quase impossíveis de contemplar. Foram os esforços da Rússia que evitaram esse resultado infernal.

A Síria foi apenas uma das vítimas de uma série de guerras criminosas lançadas pelos EUA no Médio Oriente e no Norte de África, guerras que foram apoiadas ou possibilitadas por aliados europeus e da NATO. A destruição ocidental do Iraque, Afeganistão e Líbia gerou terrorismo que, por sua vez, foi explorado pelas potências ocidentais para a mudança de regime na Síria. A intervenção da Rússia na Síria foi semelhante a um bombeiro cujas acções extinguiram as chamas do caos e da barbárie.

A aliança militar da Rússia pode ter salvado a Síria da derrota, mas a nação árabe ainda enfrenta árduos desafios pela frente, principalmente por causa das sanções ocidentais que impedem a reconstrução da guerra. A resiliência do povo sírio é inspiradora e, esperançosamente, com a ajuda estratégica da Rússia, China, Irão e outros, a nação será restaurada com o tempo, apesar da cruel vingança das potências ocidentais.

Mas a importância da intervenção militar da Rússia vai muito além da Síria. Foi uma derrota histórica e de referência sobre a criminalidade das mudanças de regime ocidentais e a cumplicidade com os seus representantes terroristas.

No entanto, as brasas e os pirómanos não foram totalmente eliminados. Podemos olhar para o conflito actual no Nagorno-Karabakh entre a Arménia e o Azerbaijão. Essa guerra ameaça explodir numa guerra regional no sul do Cáucaso, vizinho da Rússia. Um factor de mau presságio é o envolvimento da Turquia, membro da NATO, no seu apoio militar ao Azerbaijão, que inclui o envio secreto de militantes terroristas do norte da Síria para a região do Cáucaso.

Podemos também discernir a contínua expansão provocativa da NATO perto das fronteiras da Rússia como uma forma de Washington e os seus aliados tentarem reequilibrar o poder. O mesmo pode ser discernido de pretextos em curso para impor sanções à Rússia, como no estranho caso Navalny.

Na verdade, tal foi a derrota monumental da intriga ocidental na Síria pela Rússia, que parece plausível que a vingança contra Moscovo seja buscada por Washington e seus aliados em busca de todas as oportunidades perniciosas de recuperar a sua perda do droit de seigneur imperial.

Para Washington e o seu império de lacaios, a perda de poder exercer a violência com impunidade foi um “golpe imperdoável” da Rússia.◼

As ideias expressas no presente artigo / comentário / entrevista refletem as visões do/s seu/s autor/es, não correspondem necessariamente à linha editorial da GeoPol

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