O Faraó contra o Sultão

Alexander Markovics

Se olharmos para o Norte da África, o desenrolar dos acontecimentos na Líbia desde a “intervenção humanitária” do Ocidente em 2011 e o assassinato de Muammar Khadafi, é um dos desenvolvimentos mais trágicos de um estado desde o fim da Guerra Fria.

Paralelamente à Síria, aqui também foi revelado o verdadeiro carácter da “Primavera Árabe”. O aparente movimento pela democracia rapidamente revelou ser uma associação de interesses tribais, mercenários ocidentais, islamistas e criminosos que deveriam fazer o trabalho sujo para o Ocidente, desestabilizando e destruindo um Estado outrora próspero, que ia contra os interesses dos Estados Unidos.

A destruição de uma das principais potências da África, apoiada pelo intelectual francês Bernard-Henry Lévy, até agora não trouxe a “democracia” ocidental ao país, mas restabeleceu o comércio de escravos e desencadeou uma guerra civil que já dura desde 2014 – com imigração em massa pelo Mediterrâneo para a Europa como consequência.

Por um lado, existia o Governo de Acordo Nacional (GAN) reconhecido pelos EUA e vários países ocidentais, e sob a influência da Irmandade Muçulmana, e por outro do General Khalifa Haftar, que entre si disputavam o poder numa guerra civil.

Mas quando Haftar começou a batalha por Trípoli para acabar com a guerra, após o afastamento do Estado Islâmico na Líbia, ocorreu uma viragem surpreendente: o presidente turco Erdoğan interveio e conseguiu colocar em fuga as tropas do general para o leste do país.

Para ele não se tratava apenas da projecção da sua própria influência, mas também um regresso à “pátria azul”, como são entendidas estas áreas marítimas reivindicadas pela Turquia. O governo de Trípoli apoou as reivindicações de Ancara. A seguinte contra-ofensiva causou preocupação no Cairo: em 20 de julho o presidente al-Sisi anunciou que o Egipto invadiria a Líbia se o GAN tomasse Sirte, cidade a leste, importante para o comércio de petróleo.

Por que é que o Egipto está tão preocupado com esse avanço? O próprio presidente al-Sisi chegou ao poder através de um golpe de Estado contra Mohammed Morsi (da Irmandade Muçulmana) em 2013.

Al-Sisi apresenta-se como um muçulmano devoto mas, ainda assim, segue a tradição nacionalista árabe de Nasser: ele não se incomodou quando reprimiu duramente a Irmandade Muçulmana e os salafistas egípcios. Desde então, o Egipto tem tido problemas com o terrorismo islâmico, que afecta em particular os cristãos coptas.

No final das contas, al-Sisi intervém na Líbia principalmente porque deseja impedir que os seus arqui-inimigos da Irmandade Muçulmana assumam o controle do país vizinho, que serviria de alento aos seus inimigos em casa. Portanto, o som dos sabres no Norte de África deve ser levado a sério: tanto para o Sultão Erdoğan quanto para o Faraó al-Sisi. Muito está em jogo.◼

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