Lula: vulnerabilidade doméstica; esplendor geopolítico global com os BRICS

Alfredo Jalife-Rahme

Analista geopolítico, autor e docente


Cabe a Lula liderar a transição do Brasil para a nova ordem multipolar soberana


Para além da dimensão doméstica do Brasil onde, apesar da sua derrota, o bolsonarismo sem Bolsonaro controla o Congresso e os três importantes estados de São Paulo/Rio de Janeiro/Minas Gerais – que reflectem a vulnerabilidade de Lula -, destaca-se a chocante dimensão global do novo presidente, aclamado pelos tírios e troianos. Até Edward Snowden celebrou a sua entronização!

Bolsonaro não aceita a vitória estreita do seu icónico adversário Lula, enquanto que o brasileiro Pepe Escobar – listado no ranking dos dez melhores geopolíticos do mundo, a quem o britânico Alastair Crooke e o americano John Mearsheimer não foram acrescentados – dirigiu-se ao lado poderoso de Lula, em escalas geoeconómicas e geopolíticas, sem perder a sua sindérese crítica cartesiana (bit.ly/3NoeC9L). Numa escala doméstica, Lula mudou-se para o centro: negou o aborto perante o conglomerado omnipotente de evangélicos (30% da população) e catapultou como vice-presidente o centro-direita – na antiquada taxonomia da esquerda vs. direita – Geraldo Alckmin, um paroquiano do Opus Dei, também superado após a morte do papa João Paulo II.

A hipercomplexidade do antigo líder sindical Lula posiciona-o como um pilar da geopolítica ao ponto de ter sido co-fundador do bloco geo-económico transcendente BRICS+, que é hoje a pedra de toque da emergente nova “ordem soberanista multipolar (bit.ly/3WjZfDo)”. Isto é bem compreendido por Escobar, que disseca a vulnerabilidade doméstica de Lula da sua dimensão geopolítica global com BRICS+. Seria um grave erro de julgamento reduzir a eleição ad absurdum a um confronto Bolsonaro/Trump/Steve Bannon vs Lula/Biden/Departmento de Estado dos EUA.

Lula sofrerá o claro-escuro da política interna, enquanto a uma escala global ele brilhará com o crescente bloco geoeconómico BRICS+ – O PIB dos EUA 3,2 biliões de dólares (26,7% global!); 41,5% da população mundial; e quase 40 milhões de quilómetros quadrados – que ele co-fundou em 2006 juntamente com três gigantes RIC (Rússia/Índia/China) e que hoje se tornou o pólo de atracção sedutor da nova ordem multipolar soberanista.

Lula já é, ipso facto, o principal líder do Sul Global. E ai dos maniqueus primitivos que pensam que se submeterão aos ditames geoestratégicos da tétrade Biden/Jake Sullivan/Blinken/Vicky Nuland, quando os EUA intensificaram a sua guerra multidimensional contra a Rússia e a China, e não perdoam a neutralidade da Índia, enquanto o Brasil – com ou sem Bolsonaro, e com Lula – se tornou o principal parceiro comercial de Pequim na América Latina.

Lula contará com a lendária sapiência do Itamaraty – a sede da diplomacia brasileira, e do muito capaz ministro dos negócios estrangeiros Celso Amorim – sem perder de vista o facto de que o Brasil em breve fará parte das três Rota da Seda lideradas pela China, o que desagradou ao grupo desbotado de Biden. Lula está em última análise a viver a transição da velha ordem globalista/neoliberal para a nova ordem financeira global de “multipolaridade soberana (bit.ly/3TWMjSi)”, à qual ele tende congénita e ontologicamente, de modo que, dada a situação, terá ainda de sofrer os palafreneros do neoliberalismo ultrapassado, enquanto os alicerces da multipolaridade financeira tocada por Putin e sustentada pela China e a Índia estão a ser lançados.

Por agora, Lula não terá outra escolha senão contar com o mega-globalista/neoliberal Henrique Meirelles, 77 anos, que dedicou metade da sua vida ao Bank of Boston, o segundo maior credor do Brasil depois do Citigroup, e que já foi governador do Banco Central no primeiro mandato de Lula quando, segundo Escobar, Meirelles provavelmente prescreverá as próprias (mega sic!) políticas económicas como principal impulsionador económico do Bolsonaro, o banqueiro de investimentos Paulo Guedes. Progresso social e geopolítico com o catastrofismo globalista neoliberal?

Cabe a Lula liderar a transição do Brasil para a nova ordem multipolar soberana.


Peça traduzida do espanhol para GeoPol desde La Jornada


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