O novo êxito eleitoral de Netanyahu não deve surpreender

Daniele Perra

Licenciado em Ciência Política e Relações Internacionais e mestre em Estudos do Médio Oriente


Entre os mais fervorosos apoiantes norte-americanos do parcelamento do Médio Oriente, segundo as linhas étnico-sectoriais, esteve sempre o actual presidente dos EUA Joe Biden


O novo (e não particularmente surpreendente) sucesso eleitoral de Benjamin Netanyahu lembra-me o plano “Uma ruptura limpa: uma nova estratégia para assegurar o reino” elaborado em 1996 pelo conselheiro político judeu-americano Richard Perle e o grupo de estudo “Uma nova estratégia para Israel para o ano 2000”. O documento político, redigido no âmbito do neo-conservador Think Tank IASPS – Institute for Advanced Strategic and Political Studies, foi dirigido precisamente a Netanyahu após a sua primeira nomeação como chefe do governo israelita.

O plano previa a “reconstrução do sionismo” através de uma série de pontos importantes:

1) a anulação dos acordos de paz de Oslo;
2) a eliminação política (e possivelmente física) de Yasser Arafat;
3) a anexação dos territórios palestinianos;
4) a destruição do Iraque (já presente no Plano Yinon de 1982) como premissa para
5) a desestabilização da Síria e do Líbano;
6) a utilização de Israel como base complementar para os programas norte-americanos da “guerra das estrelas”.

Em particular, era essencial cercar a Síria com a ajuda da Turquia e da Jordânia e desestabilizar o Líbano segundo linhas sectárias (a criação de um Estado maronita cristão no Líbano como satélite de Israel, por exemplo, estava presente nos planos sionistas desde os anos 50, como mostra a correspondência entre David Ben Gurion e Moshe Sharett).

Entre os mais fervorosos apoiantes norte-americanos do parcelamento do Médio Oriente, segundo as linhas étnico-sectoriais, esteve sempre o actual presidente dos EUA Joe Biden. Este último, em 2006, co-escreveu com outra judaico-americana, Leslie H. Gelb (então presidente emérita do Conselho das Relações Exteriores-CFR) um artigo no New York Times em que defendia a divisão do Iraque em três estados (curdo, sunita muçulmano e xiita muçulmano). Em 2007, também apoiou fortemente uma resolução votada pelo Senado dos EUA que traçava na íntegra o projecto sionista para o futuro do próprio Iraque e do “Médio Oriente” delineado no Plano Yinon acima mencionado (baseado na forma geopolítica de “dividir para reinar”). Para não mencionar o facto de que, mais ou menos ao mesmo tempo, se tornou o porta-voz das exigências prementes da liderança militar dos EUA relativamente à necessidade de bombardear as áreas tribais do Paquistão (uma estratégia levada a cabo com resultados sangrentos em termos de baixas civis durante a era Obama).

No final, tanto o Plano Yinon como o plano IASPS baseavam-se no conceito de “instabilidade criativa” assente:

1) na criação e gestão de conflitos de média/baixa intensidade;
2) na promoção da fragmentação política e territorial;
3) na promoção do sectarismo, se não da limpeza étnico-confessional. Neste sentido, o conflito sírio é certamente emblemático.

Um grupo de reflexão francês ligado à DST (Direcção da Vigilância do Território), já em 2012 (embora o documento só tenha sido desclassificado em 2015), falou em referência à Síria de uma “falsificação orquestrada dos acontecimentos”, destacando também como os alegados “rebeldes” eram na realidade sobretudo mercenários e milicianos jihadistas caucasianos e da Ásia Central armados e pagos pela CIA, Mossad, MI6, Turquia e as monarquias do Golfo (com algumas diferenças em função da orientação). Uma operação (a francesa) que também deve ser lida como uma tentativa parcial de desvinculação do conflito, numa altura em que a Rússia escolheu intervir directamente na defesa dos seus interesses geopolíticos.

A este respeito, não deveria surpreender tanto que o bombardeamento dos EUA contra o auto-intitulado “Estado Islâmico” acabasse muitas vezes por atingir “acidentalmente” (como o bombardeamento da embaixada chinesa em Belgrado) bases do Exército Árabe Sírio. Isto aconteceu especialmente na área estratégica de Deir Ezzor, perto do território que os próprios Estados Unidos continuam a ocupar ilegalmente. O que, entre outras coisas, lança sérias dúvidas sobre a verdadeira dinâmica do episódio em que o general Issam Zahreddine, o libertador da cidade, perdeu a sua vida.

Imagem de capa por Paul Kagame sob licença CC BY-NC-ND 2.0


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