A Argentina inclina-se ante o FMI e estrangula o seu próprio povo

Infelizmente, hoje todos os povos do mundo são vítimas potenciais deste sistema capitalista e desumano


Por Alexander Cavallini

Numa altura em que todos os meios de comunicação social do mundo estão concentrados no conflito russo-ucraniano, teve lugar um acontecimento muito importante que poucos mencionaram: após semanas de negociações extremamente difíceis e exaustivas, a Argentina chegou a um acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI) sobre a reestruturação da sua dívida, superior a 44 mil milhões de dólares, contraída em 2018 pelo então presidente Mauricio Macri.

De acordo com uma nota oficial emitida pelo Ministério da Economia, o acordo “permitirá ao país refinanciar os compromissos assumidos no programa Stand By falhado de 2018, que tinha maturidades principalmente entre os anos 2022 e 2023”. O acordo com o FMI baseia-se no mecanismo do Fundo Alargado (EFF) que prevê 10 revisões periódicas numa base trimestral durante os próximos dois anos e meio. O período de reembolso é de 10 anos com início em 2026, com uma moratória inicial de quatro anos e meio.

Então, irá a Argentina finalmente emergir da grave crise dos últimos anos e ver a sua economia recuperar? De facto, já existe pessimismo entre os especialistas. O actual governo argentino está muito dividido internamente e tem como principal objectivo o prazo eleitoral do próximo ano. De acordo com muitos economistas, nestas condições é muito difícil que o acordo seja respeitado e, sobretudo, que as revisões periódicas e numerosas de controlo do FMI sejam regularmente aprovadas. Sem esquecer que normalmente, quando se recorre ao FMI, os países envolvidos são muitas vezes destruídos economicamente. Não é coincidência que um deputado da oposição, Fernando Iglesias, tenha chamado ao acordo ‘uma bomba relógio’.

Quem pode censurá-lo? Basta pensar no que aconteceu na Argentina no início dos anos 2000. Em resultado da dívida excessiva causada pela ditadura militar, o país sofreu um colapso económico e social de proporções sem precedentes, com o desemprego a atingir um nível recorde de 40%. Para não mencionar os protestos que se seguiram aos vários cortes na despesa pública, resultando numa verdadeira crise social que à primeira vista parecia intransponível.

Parece que estamos de volta a esse ponto. O que torna as coisas piores, porém, é que mais uma vez confiamos no diktat do FMl para nos tirar do impasse económico. A receita é sempre a mesma: reduzir o pessoal e os salários dos funcionários públicos, reduzir os investimentos públicos, reduzir os subsídios às empresas nacionais e proibir os subsídios estatais para manter baixos os preços dos bens de primeira necessidade. A visão do FMI é muito clara: uma política monetária restritiva e programas deflacionistas. É apenas nestas premissas que os acordos são assinados.

Mas o problema é sempre o mesmo: se estes cortes anti-sociais não forem acompanhados por uma política de aumento da produtividade industrial e do emprego no sector privado, as pessoas estão condenadas à fome. A visão exclusivamente monetarista do FMI, e das outras estruturas que fazem parte do actual sistema capitalista, tem efeitos negativos sobre o trabalho. O trabalho é visto apenas como um custo e já não como um instrumento de emancipação social e de dignidade do cidadão individual. Os únicos dados tidos em consideração são os dados frios de moedas e dívidas, tudo o resto é inútil. Para sair deste impasse, seria necessária uma verdadeira mudança de paradigma, colocando o trabalho no centro de cada uma das economias nacionais. É muito difícil, contudo, que isto aconteça enquanto os governos nacionais confiarem nos abraços persuasivos, na realidade verdadeiros torcedores do pescoço, do FMI e outros organismos semelhantes.

Hoje é de novo a vez da Argentina arriscar a fome do seu próprio povo, seguindo diktat do FMI. Estamos certos, contudo, de que o FMI não perderá a oportunidade de intervir também na Ucrânia, uma vez terminada a guerra. Infelizmente, hoje todos os povos do mundo são vítimas potenciais deste sistema capitalista e desumano. Sonhar que existe algum governo, talvez em algum país distante e exótico, que não faz parte deste sistema é o resultado de ingenuidade ou, pior ainda, de uma total falta de análise social e política. Só os povos se poderiam opor e rebelar contra este sistema. Mas para o fazer, especialmente numa época como a actual, baseada unicamente no consumismo flagrante, precisariam de vanguardas revolucionárias capazes de lhes mostrar o caminho. Vê algum no horizonte? Não tenho. Mas não esqueço que os primeiros cristãos estavam escondidos nas catacumbas e depois conseguiram evangelizar o mundo inteiro. Por isso não cedo ao pessimismo e espero que, mais cedo ou mais tarde, estas vanguardas se mostrem à luz do dia e nos conduzam à Revolução.

Fonte: Electo Magazine

As ideias expressas no presente artigo / comentário / entrevista refletem as visões do/s seu/s autor/es, não correspondem necessariamente à linha editorial da GeoPol

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