Rosamunde Pilcher e os “Valores Ocidentais”

A Cornualha forneceu belas fotografias. Sabemos da Cornualha que as novelas de domingo na ZDF têm pouco ou nada a ver com a vida real. Porque deveria ser diferente desta vez, com a reunião do G7 organizada pelo governo britânico e um grande contingente de realezas? Já quase não faz sentido ouvir as declarações públicas de Stoltenberg da NATO. Após a sua visita ao presidente dos EUA Joe Biden, há alguns dias atrás, é para ficar espantado. Ele realmente falou na preparação da reunião da Cornualha e da sucessão de reuniões sátrapas em Bruxelas de “valores” para os quais o Ocidente está de pé.

Especialmente quando se trata de outros países do mundo que são chamados “autoritários”, de acordo com a nova terminologia da NATO. Agora não foi o trabalho destes outros Estados que impediu o Ocidente de professar os seus antigos valores e seguir uma política correspondente ao longo das últimas décadas. A política ocidental era tão podre em todas as áreas, a começar pelas guerras, que os líderes ocidentais e os seus apoiantes preferiram abster-se de falar de “valores”. Os nossos representantes sabiam exactamente quando já não fazia sentido descer dos “cavalos mortos”. Eles já tinham sido montados até à morte há muito tempo. Agora estão novamente a ser empalhados e estão a ser vendidos ao espantoso público global, como a “nova roupa do imperador”

Seria de facto uma surpresa se o governo alemão se comprometesse a respeitar estritamente a sua própria constituição e a proibição de guerra de agressão, e não apenas em matéria de guerra. Ou todo o Ocidente, que se comprometeria estritamente a fazer da Carta das Nações Unidas a bitola das suas acções e a orientar as relações com todos os outros estados em conformidade. As regras aplicáveis do direito internacional atingiram o “nível mais elevado” de desafio global nesta Carta após a última guerra mundial. Porquê continuar a destruir como se tem tornado o padrão ocidental desde a guerra da Jugoslávia em 1999? Esta reunião do G7 da Cornualha colocou as cartas em cima da mesa. E fê-lo de várias maneiras. Quando o presidente Joe Biden desembarcou no país de Pilcher, os aspectos globais e europeus da reunião tornaram-se abruptamente claros. O presidente Joe Biden avisou o seu anfitrião britânico para não se deixar levar demasiado pela Irlanda do Norte. Foi precisamente a combinação do ” Acordo de Sexta-Feira Santa” e a adesão da Irlanda e da Grã-Bretanha à UE que lançou as bases para banir a guerra civil das ruas da Irlanda do Norte. O primeiro-ministro britânico Boris Johnson não deixou pedra sobre pedra desde o Brexit para confrontar a UE e a Irlanda com uma questão quase insolúvel: Utilizar uma lacuna de bens britânicos para entregas no mercado comum europeu ou tomar nota das realidades no território ocupado pelos britânicos na ilha da Irlanda para evitar uma guerra no “Ocidente dos Valores”, mesmo que se chame uma “guerra civil”. Os diplomatas alemães, que tiveram de viver as horríveis negociações dos Balcãs nos anos 90, ainda falam da forma pérfida como qualquer acordo pacífico nos Balcãs falhou porque os britânicos tinham em mente a situação entre a Inglaterra, a Escócia, o País de Gales e a Irlanda do Norte e acreditavam que tinham de defender a coesão do Reino Unido nos Balcãs. Este será, e de facto deve ser, o mantra da política britânica agora. Isto traz à Europa questões que se preferem não colocar.

Além disso, contudo, o presidente Joe Biden não deixa dúvidas sobre as suas origens irlandesas. Para Boris Johnson, isto deve ser algo como o aparecimento do “encarnado”. Antes de Joe Biden ter provavelmente conquistado a China como presidente dos EUA, é mais provável que ele possa ficar na história, pelo menos entre os irlandeses, como o criador da unidade irlandesa e da reunificação das partes separadas na ilha da Irlanda. O presidente francês Macron, nas suas conversas com o primeiro-ministro Johnson sobre a Irlanda do Norte e as complicações pós-Brexit, deixou claro como ele vê a posição britânica. Há apenas uma diferença entre a salsicha que vem de Toulouse, Lyon ou Bordeaux e é consumida em Paris e o que vai de Belfast a Londres. O “Acordo da Sexta-Feira Santa” diz tudo.

No entanto, não foi apenas a questão da Irlanda do Norte que atingiu a Cornualha no momento em que “Airforce one” tocou o solo da “Pilcher-lândia” com pneus guinchantes. Com um profundo conhecimento dos factos históricos, o presidente Joe Biden e o primeiro-ministro Boris Johnson, alguns dias antes da comemoração de 22 de junho de 1941, e assim o início da guerra do Reich alemão contra a então União Soviética, recordaram o elemento chave na afirmação dos interesses do mundo anglo-saxónico: a Carta Atlântica do Verão de 1941 – oitenta anos atrás, de facto, bem como a guerra do Reich Alemão contra a União Soviética. Bastava fechar os olhos para ver, no contexto dos actuais desenvolvimentos globais, a discrepância entre esta Carta Atlântica e a Carta das Nações Unidas ou mesmo a Carta de Paris de novembro de 1990. Não é a Carta das Nações Unidas que, na opinião de quase todos os povos, é a norma e o meio para uma cooperação próspera.

O mundo é a base de operações para as ideias centrais da “Carta Atlântica”, que é assegurar o domínio anglo-saxónico a nível mundial. Quem não concordar com isto, terá de se reformar politicamente em breve ou pode esperar ser rotulado como um “governante autoritário” e ser eliminado mais cedo ou mais tarde.

Fonte: KenFM

Imagem de capa: UK Prime Minister, sob licença CC BY-NC-ND 2.0

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