Renascimento à saudita

Por Nicola Francavilla

A visita do antigo primeiro-ministro italiano Matteo Renzi a Riade, à margem de uma conferência internacional, onde como membro de pleno direito da Future Investement Initiative, organização criada e fundada pelo príncipe e futuro monarca Mohammad bin Salman (MBS), “invejosamente” expressou o “modelo democrático” da Arábia Saudita, como se a nação árabe estivesse a produzir exemplos de virtude e secularismo típicos dos sistemas democráticos ocidentais.

Infelizmente, a Arábia Saudita, em comparação com as generosas intenções do senador Renzi, está longe de ser o berço de uma Renascença do Médio Oriente por uma série de razões. Em primeiro lugar, a elite saudita a nível cultural ainda está longe da Europa, o berço da civilização greco-romana, e o lar físico no passado, graças ao génio italiano, da Renascença que colocou a figura do homem e a sua liberdade de expressão nas artes e literatura no centro da realização de um humanismo maduro que olhou para os ideais de beleza e dignidade graças ao apoio de grandes patronos como os Papas Júlio II e Leão X.

Geralmente quando discutimos o mundo islâmico, associamo-lo ao mundo árabe. No entanto, os árabes autóctones, no sentido literal do termo, estão localizados no que é hoje a Arábia Saudita onde, desde 1927, após a união de uma boa parte da península árabe (excluindo o Iémen atormentado por uma longa e sangrenta guerra civil, Omã, Kuwait e os Emirados Árabes Unidos), através do trabalho do progenitor da dinastia saudita, Abd al-Aziz. Elevado da categoria de saqueadores e nómadas para a dos comerciantes de petróleo após a feliz descoberta de imensos depósitos de petróleo, o seu aumento no tabuleiro de xadrez geopolítico do Médio Oriente segue-se aos episódios da guerra do Yom Kipur de 1973 e à crise europeia de abastecimento de petróleo. Isto deixou também um rasto em Itália, na sequência de uma série de investigações promovidas pelo magistrado Mario Almerighi, que mostrou a lógica do quid pro quo entre as partes italianas e as principais companhias petrolíferas italianas para vender combustível no estrangeiro em troca de subornos, causando danos incalculáveis à comunidade italiana.

A crise petrolífera de 1973 garantiu à Arábia Saudita um enorme influxo de dólares, tornado útil e necessário para promover o grande projecto de doutrinação da ideologia wahabi do puritanismo e do molde conservador em todos os países do mundo islâmico sunita, desde a Malásia até à Indonésia, passando pelo Sudão. O interesse em difundir o wahabismo no mundo islâmico tem sido acompanhado por uma campanha de filantropia e apoio financeiro às economias mais debilitadas da galáxia sunita. A Arábia Saudita através da construção de mesquitas e madrasas (escolas corânicas) e a distribuição gratuita de textos sagrados islâmicos como o Alcorão e a Sunna a países incluídos na grande rede da Organização da Conferência Islâmica ofereceu solidariedade e assistência para criar um vínculo visceral em países instáveis como o Paquistão de Zia, Sudão, Indonésia, Nigéria, Somália e a Malásia.

O objectivo primordial do sonho dos Saud é estabelecer um novo Califado abássida para prosseguir a sua “antiga vocação hegemónica sobre o significado do Islão em toda a “Umma” (a comunidade mundial de crentes da fé muçulmana) sob a sua liderança. Desde ’73, a sua posição predominante no mundo árabe tem sido exacerbada pelos “fracassos da nação” agora dependentes dos seus subsídios para aliviar as suas economias pobres. A ajuda saudita, em alguns aspectos e por conveniência, tem sido comparada ao apoio dos EUA à Europa ao abrigo do Plano Marshall de 1947. O apoio americano aos países europeus, tornou-se de facto, um poderoso instrumento geopolítico para impor a sua influência e o seu modelo de democracia à cultura europeia como uma antítese para derrotar o nazismo e o comunismo em todas as suas formas e variantes (maoísmo, marxismo-leninismo).

Neste quadro, qual é a origem da distinção entre árabes sunitas e xiitas? Se quisermos dar uma resposta histórica, basta lembrar que após a conversão dos descrentes pagãos por Maomé e seus seguidores, que culminou no cerco militar de Meca, o profeta estabeleceu como objectivo primordial a unificação da humanidade sob um governo teocrático. De facto, pouco antes da sua morte em 632, ele percebeu que seria fundamental indicar uma linha de sucessão para garantir a continuação do seu programa teocrático.

Na sua morte, foi sucedido pelos seus seguidores mais fiéis, declarados na tradição islâmica como os “melhores”, aqueles a quem, repudiando o título de monarca, foi dado o apelido de Califa, um termo árabe ambíguo que combina os significados de substituto e sucessor, tornando-se, a partir do califado de Abu Bakr, uma estrutura monocrática com contornos políticos claros. A nomeação dos novos califas, a partir de Abu Bakr, facilitou o surgimento dos primeiros desacordos no seio da comunidade dos fiéis, já que alguns estavam clamavam pelo primo de Maomé, Ali ibn Abi Talib, que se casou com sua filha Fátima.

As dúvidas entre os neo-muçulmanos sobre a liderança legítima de Abu Bakr, começaram assim que ele se tornou o novo califa. A crise levou a tensões crescentes que culminaram no assassinato do califa Otomão, o terceiro sucessor de Maomé, considerado por uma parte dos muçulmanos como um usurpador em relação à confiança que lhe foi concedida pela maioria da comunidade. Foi só mais tarde, com a morte de Ali, que a cisão no mundo islâmico tomou forma com o desenvolvimento da corrente sunita que se referia à Sunna, aos princípios, costumes, acções e palavras do Profeta. Os califas assumiram o papel de guias espirituais na terra, repudiando a corrente ideológica xiita, cuja origem etimológica se refere ao significado de seguidor de Ali na composição árabe das palavras “shi’a de Ali”.

Antes da sua morte, Ali agiu como escudeiro dos responsáveis pelo assassinato de Otomão, prosseguindo um programa político para defender os assassinos do califa. Esta posição foi vista com desconfiança pelos fiéis de Otomão, que, por vingança ideológica, assassinaram Ali. Após a sua morte, o califado tornou-se hereditário, concentrando-se nas mãos da dinastia Omíada. Nos séculos vindouros, o contraste entre os sunitas e os xiitas continuou a extender-se, tornando-se um fenómeno característico do mundo islâmico, no qual os sunitas constituíam cerca de 90% dos muçulmanos globais, em comparação com os xiitas do Iraque, Líbano e Irão. Em particular, a história iraniana é única. Partindo da ascensão da grande dinastia safávida, numa região dotada de uma história e cultura milenares, na qual os valores religiosos conseguiram efectivamente unir-se aos valores nacionalistas.

Fazendo um breve excursus histórico, o Irão para uma parte dos persas é idealmente o continuador da grande Dinastia Aqueménida dos Grandes Reis da Pérsia, de Ciro o Grande a Dário III, antes de este último ser expulso pela fúria de Alexandre o Grande. Após alguns séculos de dormência, a identidade persa acordou na viragem da era imperial romana e da antiguidade tardia com o advento da Dinastia Sassânida. Os árabes sauditas, pelo contrário, em comparação com a variante xiita, não têm uma definição nacionalista e identitária da sua civilização. Referem-se ao pensamento do criador da corrente puritana, Muhammad al-Wahhab. Al-Wahhab, um teólogo árabe do Najd que viveu no século XVII, referiu-se à escola jurídica de Ibn Hanbal e Ibn Taymiyya no que diz respeito a uma forte adesão aos ideais do Corão e da Sunna, querendo aplicar estritamente os princípios e métodos da Sharia. O pensamento de Wahhab, que previa a rejeição de uma dimensão mística da religião, seguiu uma espécie de idealização da primitiva cidade islâmica dos Salaf.

Este endurecimento do pensamento favoreceu uma interpretação radical e conservadora do Corão, considerando infiéis todos aqueles que não seguiam literal e lealmente a conduta de vida e acções de Maomé (entre os quais se encontravam os sufis e os xiitas). Uma posição tão rígida resultou num conservadorismo profundo dos povos que a tomaram como modelo, em primeiro lugar e acima de tudo os sauditas. Actualmente, a Arábia Saudita, apesar das suas relações geoestratégicas com as potências ocidentais, continua ancorada em velhos esquemas ideológicos e de realpolitik que datam da Idade Média, nos quais os princípios da consciência civil e da tolerância eram pura utopia.

Traduzido do Osservatorio Globalizzazione

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