Ucrânia: “guerra religiosa” que não ousa falar o seu nome

Alfredo Jalife-Rahme

Analista geopolítico, autor e docente


Poroshenko, apoiado pelos EUA, jogou perversamente com a autonomia da Igreja Ortodoxa Ucraniana contra o patriarcado de Moscovo, a fim de se manter no poder e aprofundar a fenda “geopolítica bizantina” contra a Rússia


Antes de se tornar presidente, o “católico” Joe Biden tinha pensado que a maior vulnerabilidade do que restava da Rússia – após a catástrofe (Putin dixit) da balcanização da ex-URSS – era a sua demografia em declínio, que se tornou negativa na fase fatídica de Gorbachev e Ieltsin – dois naïfs da geoestratégia – à frente da parousia geopolítica do Czar Putin, que cada vez mais se inspira em “Pedro o Grande“: o construtor das Luzes do século XVII de São Petersburgo (antiga Leninegrado), uma das cidades mais “ocidentais“.

Entre as “várias guerras numa” na “Ucrânia” enteléquia, que fracturou a biosfera em dois blocos geoestratégicos regionais – UE/NATO/União Europeia vs Rússia/China – está uma “guerra religiosa” que não ousa falar o seu nome, procurando deliberadamente balcanizar a Igreja Ortodoxa maioritária – três quartos da população da Ucrânia, de acordo com a CIA – e, por acaso, dividir o cosmos da religião ortodoxa cuja maioria universal é alimentada pelo patriarcado de Moscovo.

Três guerras, geralmente não escrutinadas, foram condescendidas na “Operação Militar Especial” de “desnazificação/desmilitarização” da “Ucrânia“: 1) demográfica: quebrando, através de uma guerra civil artificial das populações eslavas, os laços históricos fraternais de Kiev com Moscovo: o Rus de Quieve do século IX, a matriz étnica da Rússia; 2) linguística: proibindo a língua russa; e 3) religiosa: diluição da maioria ortodoxa aderente ao patriarcado de Moscovo. Daí resulta que uma tal balcanização demográfica/linguística/religiosa tripla procura fragmentar geopoliticamente os países da Europa Central/Leste a partir do epicentro do poder nuclear de Moscovo – e os seus assustadores mísseis hipersónicos.

A percentagem de adeptos da religião Ortodoxa Universal – concentrada principalmente na Europa Central/Europa Oriental/Ucrânia/Rússia/Bielorrússia/Sérvia – diminuiu drasticamente, quase para metade: de 20 para 12 por cento (hpewrsr.ch/3OThQkE).

Segundo o centro de Pew, existe uma correlação entre o declínio demográfico e o declínio religioso do mundo ortodoxo, predominantemente nas “porções eslavas da Europa de Leste que remontam ao século IX“. O número total de ortodoxos no mundo situa-se nos 260 milhões: minúsculo e em declínio face à chocante ascensão da juventude islâmica para 1,8 mil milhões de praticantes.

Actualmente, a Rússia, deliberada e demograficamente dizimada com a balcanização da ex-URSS, tem uma população de mais de 142 milhões de habitantes, dos quais dois terços professam a religião ortodoxa (mais de 100 milhões, de acordo com a CBS). Fontes norte-americanas – para quem o declínio dos ortodoxos é conveniente – notam que existem cerca de 7% de adeptos islâmicos e menos de 1% de judeus na Rússia. Seria um grave erro de julgamento fazer uma comparação trivial da adesão à religião ortodoxa sem ter em conta a aceitação tácita de um modus vivendi civilizacional que resulta da combinação de factores étnicos/linguísticos/religiosos.

A Ucrânia – 43,5 milhões de habitantes – é mais de dois terços ortodoxa, enquanto que os “judeus” representam 0,13 por cento (bit.ly/3vzXSEZ). É impressionante que o cazar (mzn.to/2MR0PfM) e o trágico comediante Zelensky – em uníssono com o oligarca israelo-ucraniano Kolomoyskyi, envolvido nos Pandora Papers (bit.ly/3PW0dSI) – governe um país etnicamente eslavo com mais de dois terços de religião ortodoxos.

Na veia da balcanização dos ortodoxos eslavos da Ucrânia, Alan Cullison, do WSJ, distorce que a guerra na Ucrânia “alarga as brechas espirituais (sic) entre os países cristãos ortodoxos (on.wsj. com/3cPQmiw)”, enquanto o Yale Journal mostra como o ex-presidente Petro Poroshenko, apoiado pelos EUA (sic), jogou perversamente com a autonomia da Igreja Ortodoxa Ucraniana contra o patriarcado de Moscovo, a fim de se manter no poder e aprofundar a sua fenda “geopolítica bizantina (sic)” contra a Rússia (bit.ly/3SjWik8).

Imagem de capa por Konrad Lembcke sob licença CC BY-NC 2.0


Peça traduzida do espanhol para GeoPol desde La Jornada


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