Como travar a escalada para a guerra

Thierry Meyssan

Thierry Meyssan

Editor-chefe Réseau Voltaire


O conflito ucraniano está em vias de se transformar numa guerra opondo o Ocidente por um lado à Rússia, e por outro à China. Cada campo está persuadido que o outro quer a sua perda. E o medo é mau conselheiro. A paz só poderá ser preservada se cada campo reconhecer os seus erros. Tem que ser uma mudança radical, já que hoje nem a narrativa ocidental, nem os actos russos correspondem à realidade


Nenhum dirigente político deseja uma guerra no seu território. Quando estas acontecem, é geralmente sob o efeito do medo. Cada campo teme o outro, com razão ou sem ela. Claro, há sempre alguns elementos que empurram para o cataclismo, mas são fanáticos e muito minoritários.

É exactamente a situação em que nos encontramos. A Rússia está persuadida, erradamente ou com razão, que o Ocidente quer destruí-la, enquanto o Ocidente está igualmente convencido que a Rússia realiza uma campanha imperialista e destruirá a prazo as suas liberdades. Na sombra, um pequeníssimo grupo, os straussianos, deseja o confronto.

Isso não quer dizer que a Terceira Guerra Mundial seja para amanhã. Mas se nenhum dirigente político mudar radicalmente a sua política estrangeira, vamos caminhar directamente rumo ao desconhecido e teremos de nos preparar para o caos absoluto.

Para dissipar os mal entendidos, devemos escutar as narrativas dos dois campos.

Moscovo considera que o derrube do presidente democraticamente eleito, Viktor Yanukovych, foi um golpe de Estado orquestrado pelos EUA. É o primeiro ponto de divergência uma vez que Washington interpreta os acontecimentos como uma “revolução”, a do “EuroMaidan” ou da “Dignidade”. Oito anos mais tarde, inúmeros testemunhos ocidentais atestam a implicação do Departamento de Estado dos EUA, da CIA, do NED, da Polónia, do Canadá e por fim da NATO.

As populações da Crimeia e do Donbass recusaram reconhecer o novo poder que incluía muitos “nacionalistas integralistas”, sucessores dos vencidos da Segunda Guerra Mundial.

A Crimeia, que durante a dissolução da URSS votara por referendo a sua ligação à futura Rússia independente, meio ano antes que o resto da República Soviética da Ucrânia declarasse a independência, votou novamente através de um referendo. Durante quatro anos, a Crimeia foi reivindicada quer pela Rússia, quer pela Ucrânia. Moscovo argumentou que entre 1991 e 1995, foi ela e não Kiev que pagou as pensões e salários dos funcionários públicos na Crimeia. De facto a Crimeia fora sempre russa, mesmo que fosse considerada como estando ligada à Ucrânia. Foi por fim o presidente russo Boris Yeltsin que, atravessando uma crise económica muito grave, decidiu abandonar a Crimeia aos cuidados de Kiev. No entanto, a Crimeia votou então uma Constituição que lhe outorgava a autonomia no seio da Ucrânia, o que Kiev nunca aceitou. O segundo referendo, em 2014, proclamou de forma maciça a independência. O Parlamento da Crimeia pediu a união do seu Estado à Federação Russa, o que esta aceitou. Para reforçar a continuidade do seu território, a Rússia construiu, sem consultar a Ucrânia, uma gigantesca ponte ligando a sua metrópole à península da Crimeia através do Mar de Azov, de facto privatizando esse pequeno mar.

Ora, a Crimeia abriga o porto de Sebastopol, indispensável à marinha militar russa. Esta não era nada em 1990, mas voltou a ser poderosa em 2014.

Os ocidentais reconheceram o referendo do final soviético na Ucrânia, em 1990, mas não o de 2014. Ora, o direito dos povos à autodeterminação aplica-se inteiramente aos crimeanos. Os ocidentais argumentam que muitos soldados russos estavam presentes no terreno mesmo sem usar os uniformes. Certamente, mas os resultados dos dois referendos, de 1990 e de 2014, foram semelhantes. Não há, pois, lugar para suspeitas de fraude.

Para marcar que não aceitavam essa “anexação”, os ocidentais aplicaram colectivamente sanções contra a Rússia, sem autorização do Conselho de Segurança . Estas sanções violam a Carta das Nações Unidas, a qual confere a exclusividade desse poder ao Conselho de Segurança.

Os “oblasts” de Donetsk e de Lugasnk rejeitaram igualmente o governo saído do golpe de Estado de 2014. Eles proclamaram a sua autonomia e assumiram-se como resistentes aos “nazis” de Kiev. Igualar os “nacionalistas integralistas” aos “nazis” é historicamente justificado, mas não ajuda os não-ucranianos a compreender aquilo que se passa.

O “nacionalista integralista” foi criado na Ucrânia por Dmytro Dontsov no início do século XX. À partida, Dontsov era um filósofo de esquerda, só de de forma progressiva é que se passou para a extrema-direita. Ele foi um agente pago do Segundo Reich, durante a Primeira Guerra Mundial, antes de participar no governo ucraniano de Symon Petliura, surgido durante a Revolução Russa de 1917. Participou na Conferência de Paz de Paris e aceitou o Tratado de Versalhes. Durante o período entre guerras, exerceu um magistério sobre a juventude ucraniana e tornou-se um propagandista do fascismo e depois do nazismo. Também se tornou violentamente anti-semita, pregando o massacre dos judeus muito antes desse tema ser apoiado pelas autoridades nazis, as quais até 1942 apenas falavam de expulsão. Durante a Segunda Guerra Mundial, recusou tomar a chefia da Organização dos Nacionalistas Ucranianos (OUN), a qual confiou ao seu discípulo Stepan Bandera, auxiliado por Yaroslav Stetsko. Quase todos os documentos sobre sua actividade no seio do nazismo foram destruídos. Ignora-se o que ele fez durante a Guerra, salvo a sua participação activa no Instituto Reinhard Heydrich, após o assassinato deste. Os jornais deste órgão anti-semita dão-lhe o maior destaque. Aquando da libertação, fugiu para o Canadá, sob protecção dos Serviços Secretos anglo-saxões, depois para os Estados Unidos. No fim da sua vida, ele continuava virulento e tinha evoluído para uma forma de misticismo viking, pregando o confronto final contra os “moscovitas”. Hoje, os seus livros, em especial o seu nacionalismo, são uma leitura obrigatória para os milicianos, nomeadamente os do Regimento Azov. Durante a Segunda Guerra Mundial, os “nacionalistas integralistas” ucranianos massacraram pelo menos três milhões dos seus concidadãos.

Washington lê esta história de forma diferente. Para ela, os “nacionalistas integralistas” cometeram certamente erros, mas eles lutavam pela sua independência, ao mesmo tempo face aos nazis alemães e aos bolcheviques russos. A CIA tinha, pois, razão em abrigar Dmytro Donsov nos EUA e em empregar Stepan Bandera na Radio Free Europe. E mais ainda, em criar a Liga Anti-comunista Mundial em torno do primeiro-ministro nazi ucraniano, Yaroslav Stetsko, e do chefe da oposição anti-comunista chinesa, Chiang Kai-shek. Hoje em dia, ainda segundo Washington, estes factos são já parte do passado.

Em 2014, com o presidente Petro Poroshenko, o governo de Kiev cortou toda a ajuda aos “moscovitas” do Donbass. Deixou de pagar as pensões dos seus cidadãos e os salários dos seus funcionários. Ele proibiu a língua russa, falada por metade dos ucranianos, e lançou operações militares punitivas contra esses “infra-humanos”, causando 5. 600 mortos e 1,5 milhão de deslocados em 10 meses. Face a esses horrores, a Alemanha, a França e a Rússia impuseram os Acordos de Minsk. Tratava-se de levar o governo de Kiev à razão e de proteger as populações do Donbass.

Constatando que os primeiros acordos não tinham produzido efeito, a Rússia fez consagrar o de Minsk 2 pelo Conselho de Segurança. É a Resolução 2202, adoptada por unanimidade. Durante as declarações de voto, os Estados Unidos desenvolveram a sua leitura sobre este período. Para eles, os “resistentes” do Donbass não passavam de “separatistas” apoiados militarmente por Moscovo. Especificaram, portanto, que o Acordo de Minsk 2 (12 de fevereiro de 2015) não substituía os Acordos de Minsk 1 (5 e 19 de setembro de 2014), mas que apenas a eles se acrescentava. Assim, exigiram que a Rússia retirasse as tropas que tinha colocado, sem uniforme, no Donbass. A Alemanha e a França fizeram juntar uma declaração conjunta, co-assinada pela Rússia, garantindo a aplicação “obrigatória” deste conjunto de “compromissos”.

Ora, pouco tempo depois, o presidente Poroshenko declarou que não tinha intenção de aplicar fosse o que fosse e relançou as hostilidades; uma posição que o governo do presidente Zelensky reiterou. Durante os 7 anos que se seguiram à Resolução 2202, foram mortas 12.000 pessoas, segundo Kiev, ou 20.000, segundo Moscovo.

Durante este período, Moscovo não interveio. O presidente Vladimir Putin não somente retirou as suas tropas, mas proibiu um oligarca de enviar mercenários para apoiar as populações do Donbass. Estas acharam-se abandonadas pelos garantes dos Acordos de Minsk e pelos outros membros do Conselho de Segurança.

No modo de funcionamento político russo, espera-se estar pronto a concretizar algo para então o anunciar. Moscovo, portanto, nada disse, mas preparou o seguimento. Sofrendo sanções, que experimenta desde a união da Crimeia, esperava que os ocidentais as aumentassem assim que interviesse para aplicar a Resolução 2202. Realizou pois contactos com outros Estados também sob sanções, nomeadamente com o Irão, para contornar as que a atingiam e se preparar para contornar outras. Todos os que visitam regularmente a Rússia constataram que a Administração Putin desenvolvia uma auto-suficiência alimentar, inclusive para a carne e os queijos, dos quais o país estava até aí desprovido. A Rússia aproximou-se da China em matéria bancária, o que interpretamos erradamente como uma iniciativa contra o dólar. Tratava-se, na realidade, de se preparar para uma exclusão do sistema SWIFT.

Quando o presidente Putin lançou o seu exército na Ucrânia, deixou bem claro que não estava a declarar uma “guerra” visando anexar a Ucrânia, mas que punha em prática uma “operação especial militar” em virtude da Resolução 2202 e da sua “responsabilidade em proteger” as populações civis do Donbass.

Tal como previsto, os ocidentais reagiram com sanções económicas que perturbaram gravemente a economia russa durante dois meses. Depois as coisas inverteram-se e essas sanções mostraram-se proveitosas para a Rússia, que se havia longamente preparado para elas.

Na prática, os ocidentais fizeram chegar uma enorme quantidade de armas ao terreno, depois colocaram conselheiros militares e algumas forças especiais. O exército russo, três vezes inferior em número ao exército ucraniano, começou a penar. Por isso, acaba de decretar uma “mobilização parcial” para enviar novas tropas sem ter que desguarnecer o seu sistema de defesa nacional.

A NATO, por seu lado, elaborou um mecanismo visando mobilizar um grupo central de estados e um grupo alargado de seus aliados mais distantes. Trata-se de fazer recair o esforço financeiro sobre o mais vasto número de parceiros até ao esgotamento da Rússia.

Moscovo respondeu anunciando que se os ocidentais dessem um passo suplementar, usaria as suas novas armas.

Os exércitos russo e chinês manejam mísseis hipersónicos, do que os ocidentais estão desprovidos. Moscovo e Pequim podem destruir seja qual for o objectivo, não importando o lugar do mundo, em alguns minutos. É impossível impedi-los e este desequilíbrio durará no mínimo até 2030, segundo os generais norte-americanos. A Rússia disse já que atacaria prioritariamente o Ministério britânico dos Negócios Estrangeiros, que ela considera como a cabeça pensante dos seus inimigos, e o Pentágono, que ela considera como o braço armado. No caso de atacarem, os exércitos russo e chinês destruiriam previamente os satélites de comunicação estratégica dos Estados Unidos (CS3). Estes perderiam em poucas horas a capacidade de guiar mísseis nucleares e, portanto, de retaliar. O resultado de tal guerra oferece poucas dúvidas.

Quando a Rússia evoca a utilização das suas armas nucleares para atacar, ela não fala de bombas atómicas estratégicas como os Estados Unidos utilizaram em Hiroshima e Nagasaki, mas de armas tácticas para destruir pequenos alvos determinados (Whitehall ou o Pentágono). As grandiloquentes declarações do presidente Biden sobre o risco que ela faria o mundo correr são, portanto, nulas e sem efeito.

Envolver-se num tal confronto não é impossível. Nos Estados Unidos, os straussianos, um grupúsculo de políticos não eleitos, estão determinados em provocar o apocalipse. Segundo eles, os Estados Unidos já não poderão exercer mais domínio sobre todo o mundo, mas ainda podem consegui-lo usando seus aliados. Para isso, não devem hesitar em sacrificar uma parte deles, se os seus aliados sofrerem ainda mais do que eles e se, dessa forma, continuarem a ser os primeiros (não os melhores).

Como em todos os conflitos, os povos têm medo e alguns indivíduos empurram-nos para a guerra.

A Rússia acaba de organizar quatro referendos de autodeterminação e de união, ao mesmo tempo nas duas repúblicas do Donbass e nos dois “oblasts” da Nova Rússia. O ponto de vista do G7, cujos ministros dos Negócios Estrangeiros participavam na Assembleia Geral da ONU em Nova Iorque, foi de denunciar imediatamente referendos inválidos porque se realizam em situação de guerra, o que é uma opinião discutível. Prosseguiram, pois, denunciando uma violação da soberania e da integridade territorial da Ucrânia e dos princípios da Carta das Nações Unidas. Ora, estes últimos pontos são falsos. Por definição, o direito dos povos à autodeterminação não contraria a soberania e a integridade territorial do Estado do qual eles podem, se o desejam, separar-se. Além disso, todos os membros do G7 (excepto o Japão) assinaram a Acta Final de Helsínquia, pelo qual se comprometem a defender simultaneamente todos esses princípios.

É particularmente odioso constatar a maneira como o G7 interpreta o Direito a seu favor, e particularmente o dos povos à autodeterminação. A título de exemplo, a Assembleia Geral das Nações Unidas condenou a ocupação ilegal pelo Reino Unido do Arquipélago de Chagos. Ela ordenou que fosse restituído às ilhas Maurícias o mais tardar em 22 de outubro de 2019. Não somente isso não foi feito, como uma das ilhas de Chagos, Diego Garcia, continua arrendada ilegalmente aos Estados Unidos para abrigar a maior base militar do Oceano Índico. Ou ainda, a França transformou ilegalmente a sua colónia de Mayotte num departamento, em 2009. Montou um referendo em violação das Resoluções 3291, 3385 e 31/4 da Assembleia Geral que afirmam a unidade das Comores e proíbem que referendos sejam realizados quer numa, ou noutra, de suas partes apenas, o Estado das Comores e a colónia francesa de Mayotte. Foi precisamente para escapar à descolonização que a França organizou este referendo, sendo sabido que aí instalara uma base militar marítima e sobretudo uma base militar de intercepção e Inteligência.

De um ponto de vista russo, estes referendos, se fossem internacionalmente reconhecidos, poriam fim às operações militares. Ao recusá-los, o Ocidente faz durar o conflito. A intenção deles é ver cair o resto da Nova Rússia nas mãos da Rússia. Ora, se Odessa se tornar russa de novo, Moscovo terá também que aceitar a adesão da Transnístria que ficará assim contígua à Federação da Rússia. No entanto, a Transnístria não é ucraniana, mas sim moldava, daí o seu actual nome de República Moldava do Dniestre.

A Rússia recusa-se a acolher um território moldavo que tem, é certo, razões históricas para se proclamar independente. Mas ela não aceitou isso, de forma alguma, com a Ossétia do Sul e a Abcásia, as quais têm igualmente razões históricas para se proclamarem independentes, mas são georgianas. Nem a Moldávia, nem a Geórgia cometeram crimes comparáveis aos da Ucrânia moderna.

Chegados ao final desta exposição, constatamos que os erros são partilhados, mas não de forma equitativa. Os ocidentais reconheceram o golpe de Estado de 2014; eles tentaram parar o massacre que se seguiu, mas finalmente deixaram os nacionalistas integralistas continuá-lo; eles armaram a Ucrânia em vez de a obrigar a respeitar os Acordos de Minsk 1 e 2. A Rússia, por sua vez, construiu sem consulta, uma ponte que fecha o Mar de Azov. A paz só será preservada se ambos os campos reconhecerem os seus erros.

Ser-se-á capaz disso ?

Imagem de capa por Utanríkisráðuneytið – MFA sob licença CC BY-NC-ND 2.0


Este artigo foi foi originalmente publicado na Rede Voltaire


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