A nova ordem multipolar será decidida pela “guerra energética”, não na Ucrânia

Alfredo Jalife-Rahme

Analista geopolítico, autor e docente


Apesar da narrativa alucinante de que o mundo está a caminhar para uma era pós-petróleo, antigos rivais como a Arábia Saudita e a Rússia estão agora a convergir os seus interesses com cartas poderosas


Karin Kneissl, antiga ministra dos Negócios Estrangeiros austríaca – hoje analista de energia e autora de 14 livros – avalia a guerra em curso entre as finanças globais e a “energia global” (bit.ly/3FbXmT7).

Ela comenta que a decisão hercúlea dos 23 ministros da OPEP+, liderados pela dupla Arábia Saudita (AS)/Rússia (bit.ly/3FhKgnl) – da qual o México é membro e que se distinguiu pela liderança da sua secretária da Energia, Rocio Nahle, que manteve a produção sem quaisquer cortes – provocou reacções neuróticas nos EUA, onde desencadearam clamores de guerra (bit.ly/3zblUYw) contra o seu antigo aliado de 77 anos (bit.ly/3U09Zox). Kneissl destaca a relevância da OPEP+, apesar da narrativa alucinante de que o mundo está a caminhar para uma era pós-petróleo, antigos rivais como a AS e a Rússia estão agora a convergir os seus interesses com cartas poderosas. Desapareceu a era das Sete Irmãs – o cartel das multinacionais anglo-saxónicas (bit.ly/3SwxC6N) – quando os EUA afirmaram em voz alta que o petróleo era sua propriedade global, o que ressoou durante a invasão ilegal dos EUA no Iraque em 2003.

Kneissl condensa o epicentro do conflito na Ucrânia: os EUA e os seus aliados europeus, que representam e apoiam o sector financeiro global, estão essencialmente empenhados numa batalha contra o sector energético. Detalha que nos últimos 22 anos viu como é fácil para os governos imprimir papel-moeda” quando, só em 2022, o dólar americano imprimiu mais papel-moeda do que em toda a sua história, enquanto que a energia não pode ser impressa.

Considera que o problema fundamental para os EUA é que o sector das matérias-primas (commodities) pode superar a indústria financeira. Argumenta que a AS e a Rússia estão a preparar-se para a nova condição internacional de multipolaridade (mega sic!), enquanto os EUA já não têm a capacidade de exercer a sua influência absoluta sobre a OPEP, que se reposicionou agora geopoliticamente como OPEP+.

Ela sublinha a importância do petróleo na formação de ordens regionais e globais, como aconteceu no Médio Oriente na era pós Primeira Guerra Mundial, quando primeiro vieram os oleodutos e depois as fronteiras.

Citando o clássico adágio energético que “o petróleo faz e fractura países (bit.ly/3N3tOJj)”, Kniessel argumenta que actualmente os volumes de petróleo e gás necessários para substituir as fontes de energia da Rússia não podem ser encontrados no mercado mundial dentro de um ano. Argumenta que nenhuma matéria-prima é mais global do que o petróleo e qualquer mudança no mercado petrolífero influenciará sempre a economia mundial.

Para Kneissl, o actual conflito militar vai além da Ucrânia, onde vemos a indústria financeira ocidental a travar a sua guerra contra a economia energética dominada pelo Oriente. Ela conclui que o preço do petróleo é o sismógrafo da economia mundial e também da geopolítica global.

Em duas análises notáveis, Alastair Crooke – antigo agente do MI6 e antigo diplomata da UE – aborda as cinco guerras entrelaçadas das quais “a Ucrânia é talvez a menos (mega sic!) estrategicamente importante (bit.ly/3W6ggB0), e nas quais se destacam a Cimeira de Samarcanda (bit.ly/3zgqTau), a decisão épica da OPEP+, e a aliança de gás Rússia-Turquia (bit.ly/3TU2BuS), colocando o mundo no caminho para uma nova ordem multipolar. Crooke expõe a guerra da dissociação geoestratégica da ordem global ocidental e a sua guerra financeira global que é encenada a dois níveis:

1) o jogo global da FED dos EUA para proteger os privilégios do dólar; e
2) a longa batalha de Yellen e Blinken para manter o controlo dos mercados energéticos e a capacidade dos EUA para impor os preços dos combustíveis.

O problema é que o grupo euro-asiático procura “tirar o controlo dos mercados energéticos dos EUA e relocalizá-los para a Eurásia (bit.ly/3W0biW9)”.

Imagem de capa por Bundesministerium für europäische und internationale Angelegenheiten sob licença CC BY 2.0


Peça traduzida do espanhol para GeoPol desde La Jornada


Gostou desta matéria? Ajude-nos a melhorar!

O nosso trabalho tem o preço que você achar justo. Qualquer contribuição é bem vinda.

1,00 €

As ideias expressas no presente artigo / comentário / entrevista refletem as visões do/s seu/s autor/es, não correspondem necessariamente à linha editorial da GeoPol

Para mais conteúdos, siga os nossos outros canais: Youtube, Twitter, Facebook, Instagram, Telegram e VK

Autor

Alfredo Jalife-Rahme
Latest posts by geopol.pt (see all)

Leave a Reply