O esquema industrial-militar por trás da guerra na Ucrânia

Ricardo Nuno Costa

Ricardo Nuno Costa

Editor-chefe GeoPol


Uma nova Ostpolitik, um desanuviamento, iniciativas diplomáticas e diálogo para lograr um consenso de dimensão continental para que se evite aquilo que de outra forma se pode tornar num pesadelo


Claro que o papel que a Alemanha está jogando no actual conflito não é nada desprezível e obedece à lógica económica belicista que as elites transatlânticas estão apostadas na sua longa guerra contra a Rússia.

Como forma de lucrar ao máximo, ao mesmo tempo que planeia liderar uma máquina militar pan-europeia, Berlim está jogando os seus parceiros de leste num negócio do qual beneficia duplamente. O chamado esquema de “trocas em anel” permite à Alemanha renovar o seu arsenal militar ao mesmo tempo que se livra de armamento antigo a parceiros como a Polónia, República Checa ou a Grécia, que por sua vez vendem material ainda mais obsoleto a Kiev, que o “derrete” na fornalha que lhe engendraram contra os russos.

Se dúvidas houvesse se a Alemanha, a UE e NATO alguma vez quiseram acabar com a guerra da Ucrânia, aqui está a prova. Ao invés de accionarem os esforços para se sentar à mesa, puseram-se todos a trabalhar imediatamente nestes negócios de guerra sem jamais retroceder, como se na realidade já tivessem o plano mais ou menos traçado previamente.

A ministra da Defesa, a socialista Christine Lambrecht, acaba de aprovar mais venda de armamento pesado letal a Zelensky, logo após a ministra dos Negócios Estrangeiros Baerbock ter regressado de Kiev, onde se reuniu com o seu homólogo Kuleba. Lambrecht avisou também que a despesa militar permanentemente da Bundeswehr será incrementada, e que os cidadãos devem estar preparados para se sacrificar. Tudo isto dito no ano em que todos os políticos viram os seus chorudos salários incrementados na ordem dos 3 por cento! 

Desta forma, a Alemanha assume um papel maior na guerra da Ucrânia. Surpreendentemente (ou não), sob a pressão extrema dos elementos teoricamente “pacifistas” dos Verdes no governo de coligação, mas com a responsabilidade final do SPD, o entusiasmo dos liberais e a total conformidade da oposição da CDU/CSU. No Bundestag resta a dissintonia dos populistas de direita da AfD e de uma parte do partido da Esquerda.

O anúncio deste maior envolvimento do governo Scholz no conflito a leste foi acusado pelo embaixador russo em Berlim, Sergey Nechayev, em recente entrevista ao Izvestia de Moscovo. Fala-se agora da sobreposição de “linhas vermelhas” delineadas pelo Kremlin no seu espaço, posto que Berlim estaria a alimentar uma máquina de guerra própria pensada em matar não só soldados, como civis do Donbass. Não faz falta recordar como acabaram as coisas da última vez que Berlim se aventurou ir para aquelas paragens matar russos.

No entanto, a liderança russa sabe que a maioria dos alemães não tem interesse na presente hostilização e que o povo alemão sabe do grave risco que incorre nesta via provocativa dos seus políticos. Moscovo sabe que há um crescente divórcio entre a elite política alemã e o cidadão comum. Sabe que todo o presente guião tem sido manobrado desde instâncias e por interesses contrários aos do povo alemão. Com efeito, o embaixador também fez saber na mesma entrevista que a Rússia (ainda) está disposta a abrir o Nord Stream 2. É obviamente de interesse e sentido comum! Quanto tempo a oferta de Moscovo permanecerá válida é uma excelente pergunta, mas seria bom que Berlim e Bruxelas soubessem que o tempo não joga a seu favor.

Entretanto as consequências de toda esta loucura encetada pelas sanções estão lançando o país na desindustrialização, com consumidores e empresas a terem que suportar os elevados preços da energia e a inflação galopante. Diversos relatórios locais recentes traçam uma previsão desoladora para anos. O plano Morgenthau preterido no final da SGM a favor do de Marshall, estará então a ser implementado efectivamente agora.

Ganha ímpeto e razão de ser as exigências que se ouvem cada vez mais da sociedade civil, dos empresários, sindicatos, associações e nas franjas do Bundestag, de uma nova Ostpolitik, de um desanuviamento, iniciativas diplomáticas e diálogo a leste, para que finalmente se logre um consenso de dimensão continental e se evite aquilo que de outra forma se pode tornar num pesadelo.

Imagem de capa por 7th Army Training Command sob licença CC BY 2.0

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