Putin falou para os russos, mas seria bom também nós o ouvirmos com atenção

Realizado presencialmente ante centenas de representantes políticos, empresariais, culturais e religiosos russos, o presidente Vladimir Putin fez hoje um importante discurso anual à nação, que coincidindo com a pandemia, marca de certa forma uma nova época na história do país

De aproximadamente uma hora e vinte no total, a maior parte do discurso (mais de uma hora) foi dedicada a temas internos. Esta é claramente a prioridade do governo russo. Em particular pelo forte investimento público destinado a proteger as famílias que têm sofrido com as consequências económicas da pandemia, e em especial as crianças, vistas como garantia do futuro.

Putin apelou à unidade e solidariedade, aos valores familiares e morais da nação russa, como fórmula para ultrapassar um período particularmente difícil.

Pedidndo com vigor a que todos os russos se vacinem contra o actual vírus, Putin fez questão em lembrar que Rússia é pioneira em ciência e tecnologia, e que para além de dispor de três vacinas próprias contra a COVID-19, trabalha incessantemente nesta e outras áreas da medicina, contra eventuais emergências sanitárias futuras.

O responsável do Kremlin demonstrou onde o governo está a canalizar verbas para políticas sociais e económicas concretas: obras públicas, infraestruturas estratégicas, novas fontes de energia, vivenda pública, linhas de crédito para as famílias e PME’s mais afectadas com a pandemia, entre outras medidas do Estado social que representa.

Confesso que ao assistir ao discurso, senti aquela inveja sã ao constatar que noutras paragens ainda há líderes que se preocupam pelos valores colectivos e pelo destino comum do seu povo nos seus momentos mais difíceis e são capazes de lançar grandes projectos nacionais.

Enquanto que em Bruxelas já rondam os abutres à espera de se apropriarem de mais sectores públicos erigidos com suor dos nosso antepassados numa mais que provável nova onda de privatizações à escala comunitária, a Rússia mostra-nos o caminho diametralmente oposto, com o Estado a demonstrar que não é uma entidade abstracta, mas sim o garante da reconstrução nacional e o cerne da unidade de um povo.

No que respeita às relações externas, Putin dedicou pouco mais de quinze minutos, dos quais há que reter alguns pontos.

O presidente disse que a Rússia quer viver em paz com todos os actores internacionais. Mas que sanções ilegais, que se tornaram “numa prática perigosa” não podem ser mais toleradas. Que “todos os limites foram ultrapassados”, e que doravante as coisas serão diferentes. O diálogo com outros actores será feito em pé de igualdade e dentro da legalidade internacional.

Sem mencionar os autores da intentona, Putin recordou que a Rússia abortou na semana passada uma tentativa de assassinato do seu aliado Lukashenko na Bielorrússia, ao que se seguiria um ciber-ataque generalizado à capital Minsk e um consequente golpe no país que faz parte da União de Estados com a Rússia.

Este tipo de acções, tal como a tentativa de assassinato de Yanukovych na Ucrânia em 2014, ou tentativas de golpe de Estado como na Venezuela de Maduro, são histórias do passado.

Basicamente Putin disse que onde os interesses do país estiverem ameaçados, a Rússia intervirá.

Com a racionalidade que se lhe reconhece, o presidente deixou claro que a Rússia não consentirá mais provocações nem as ameaças quase “desportivas” a que se prestavam alguns e que Moscovo responderá de forma “assimétrica, rápida e severa”.

Lembrou que a nível militar a Rússia está dotada de uma vasta gama dos mais avançados sistemas de nova geração tanto de defesa como de ataque, convencionais e nucleares e de alcance global.

Centrada nos grandes desafios futuros e no desenvolvimento de um território gigantesco, a Rússia tem um projecto próprio, com uma extensa lista de parcerias, alianças, acordos de cooperação e tratados com países e organizações de todo o mundo. Putin assume assim, de forma natural o estatuto oficioso de líder de um mundo multipolar que sempre preconizou.

Atendendo a que a China fez saber recentemente que também ela não aceitará mais ditames, nem ameaças, nem provocações, seria importante que a oeste, as chancelarias tomassem boa nota destes recados para bem de um mundo que se quer em paz e prosperidade.

As ideias expressas no presente artigo / comentário / entrevista refletem as visões do/s seu/s autor/es, não correspondem necessariamente à linha editorial da GeoPol

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