Porque é que a Rússia vai participar nos exercícios navais AMAN-2021?

A melhoria das relações com o Paquistão permite a Moscovo aperfeiçoar o seu sensível acto de “equilíbrio” na Eurásia


A frota da marinha russa do Mar Negro anunciou na quinta-feira que planeia participar nos exercícios navais multinacionais AMAN-2021 do próximo ano, a serem realizados no Paquistão. Estes exercícios bienais visam melhorar a coordenação conjunta em missões de salvamento marítimo e combate à pirataria, entre outras questões de interesse comum. É extremamente simbólico que a Rússia tenha concordado em participar desde que a sua frota disse que será a primeira vez desde os exercícios “Bold Monarch-2011” ao largo da costa espanhola que as suas forças navais irão juntar-se às da NATO. Para além do Paquistão, Rússia e EUA, cerca de 30 marinhas de outros países participarão também nos exercícios do próximo ano.

Moscovo está a enviar vários sinais importantes ao concordar em participar, o mais óbvio dos quais é que as relações com Islamabad estão a melhorar rapidamente ao ponto de se sentir confortável em assistir aos seus exercícios ao lado das forças da NATO. Isto demonstra uma mudança de percepção da Rússia em relação ao Paquistão, de um jogador partidário da Velha Guerra Fria para uma força neutra de “equilíbrio” nos assuntos globais. Representa também um marco importante na sua aproximação contínua, que foi inicialmente impulsionada por preocupações anti-terroristas partilhadas decorrentes da chegada do ISIS ao Afeganistão, mas que desde então evoluiu para uma parceria abrangente com intenções estratégicas a longo prazo.

Extrapolando desta observação, a minha percepção de há quase dois anos atrás de que o Paquistão é o Estado pivot global parece agora ser tacitamente partilhada pela liderança russa. O acolhimento pelo país do sul da Ásia do projecto emblemático do CPEC da Belt and Road Initiative (BRI) permite-lhe funcionar como o fecho de correr da Eurásia, após o que poderia servir como a Convergência das Civilizações em todo o Hemisfério Oriental através das minhas propostas relacionadas com o CPEC+ para uma integração mais estreita da Afro-Ásia através dos corredores dos sectores norte (N-CPEC+), ocidental (W-CPEC+), e sul (S-CPEC+). A Rússia aprecia naturalmente o crescente significado geoestratégico global do Paquistão e não quer ser deixada de fora.

A “diplomacia militar” de Moscovo – que é a utilização de meios militares para promover objectivos políticos – explica a sua participação nos exercícios navais do próximo ano. O observador político russo Dmitry Bokarev, no seu último artigo para o Journal NEO (que é o jornal oficial do Instituto de Estudos Orientais da Academia das Ciências da Rússia), citou o discurso do embaixador russo no Paquistão, Danila Ganich, na abertura do Druzhba (“Amizade”) deste ano, exercícios conjuntos anti-terroristas, onde elogiou o Exército Paquistanês como “o núcleo do Estado e da sociedade paquistanesas”. Isto sugere que a aproximação russo-paquistanesa está a ser impulsionada pela “diplomacia militar”.

Tendo isso em mente, o contexto geopolítico maior da sua aproximação precisa de ser discutido. Como perguntei em setembro, “Estará a Rússia a ‘Abandonar’ ou ‘Recalibrar’ a sua Lei de ‘Equilíbrio’ entre a China e a Índia?”, que levantou questões sobre o impacto inadvertido que o “Renascimento das relações entre a Índia e a Rússia” poderia ter nas relações entre a Rússia e a China. Na sequência da publicação inesperada do artigo anti-russo odioso da Subramanian Subramanian Swamy em novembro, avisei então que “Os Ideólogos extremistas pró-EUA do Partido do Povo Indiano (BJP) não devem ser autorizados a sabotar as relações russo-indianas”.

No rescaldo desse escândalo político que prejudicou enormemente a boa vontade e a confiança que anteriormente caracterizavam a Parceria Estratégica Russo-Indiana (especialmente durante o ano passado desde que começaram o seu “renascimento”), faz sentido que a Rússia procure recalibrar ainda mais o seu acto de “equilíbrio”, abraçando mais abertamente o Paquistão. Foi exactamente isto que encorajei a Rússia a fazer no artigo académico que co-autorizei conjuntamente durante o Verão sobre “O Papel do Paquistão na Grande Parceria Euro-asiática da Rússia”, que foi republicado pelo Conselho de Assuntos Internacionais Russo (RIAC), um dos principais grupos de reflexão do país.

Prova dessa política praticada no contexto actual pode ser vista pelo facto de a Rússia e o Paquistão terem finalmente chegado a um acordo sobre os seus planos de gasodutos longamente discutidos duas semanas após o escândalo do Swamy. As discussões foram claramente anteriores a esse escândalo em muitos anos, mas é simbólico que o timing tenha coincidido com as consequências diplomáticas desse incidente. É também mais do que curioso que a Rússia esteja agora a praticar com mais confiança a sua “diplomacia militar” com o Paquistão, concordando em aderir aos exercícios AMAN-2021 do próximo ano, durante os quais participará ao lado de alguns dos seus rivais da NATO.

Curiosamente, até então, tinha sido a Índia a professar uma política de “multi-alinhamento”, mas em vez daquele Estado do sul da Ásia ser o cenário onde as marinhas russas e da NATO irão participar em exercícios multilaterais, acaba por ser o Estado pivô global do Paquistão. Correndo o risco de ler demasiado as entrelinhas e “especular”, parece certamente ser o caso de a Rússia estar hoje mais segura da real neutralidade geoestratégica do Paquistão do que a afirmação pouco convincente da Índia, especialmente porque o ministro dos Negócios Estrangeiros russo Lavrov criticou duramente a influência do aliado americano da Índia sobre Nova Deli recentemente.

Tudo considerado, o AMAN-2021 do próximo ano será um marco nas relações russo-paquistanesas, e não teria sido possível se não fosse a maturidade política de Moscovo em virar a página da sua complicada história de relações com Islamabad e corajosamente decidir traçar um novo capítulo de cooperação em conjunto na emergente Ordem Mundial Multipolar. Da perspectiva russa, a melhoria das relações com o Paquistão permite a Moscovo aperfeiçoar o seu sensível acto de “equilíbrio” na Eurásia – especialmente entre os novos rivais, China e Índia – enquanto que as relações com a Rússia permitem a Islamabad reafirmar a sua neutralidade geoestratégica.

Ambos os países têm vindo a aperceber-se cada vez mais de que precisam um do outro. A visão do presidente Vladimir Putin de uma Grande Parceria Eurasiática está incompleta sem a participação do Paquistão – o mesmo que é impossível fazer uma sinergia entre a União Eurasiática e o BRI, como propôs anteriormente sem uma aproximação nas relações, considerando que o Paquistão acolhe o projecto emblemático do CPEC do BRI – tal como a visão do CPEC+ do Paquistão de se tornar o Estado pivô global não pode acontecer sem a ligação do N-CPEC+ à Rússia. Uma vez que ambas as suas forças armadas influenciam a política externa, faz sentido que a “diplomacia militar” esteja a impulsionar a sua aproximação, daí o AMAN-2021.

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