“Armas Químicas de Damasco”: os mesmos velhos contos falsos

Vladimir Odintsov
New Eastern Outlook

Os resultados francamente desastrosos na sequência das intervenções militares dos Estados Unidos e dos seus aliados mais próximos da Europa Ocidental no Afeganistão, Líbia, Iraque e Síria fizeram da guerra de informação um dos principais instrumentos utilizados pelo Ocidente, um tipo de operação de combate em que o instrumento chave para exercer um impacto se tornou informação dirigida e propagandística. Nos últimos anos, a utilização destes métodos (guerra de informação) por parte dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha tem sido particularmente notória na Síria, onde as tentativas de substituir o actual regime por meios militares, e de criar e posteriormente apoiar forças da oposição, e mesmo grupos terroristas como a Al-Qaeda e o DAESH, não produziram os resultados desejados nem para Washington nem para Londres durante muitos anos.

E a Alemanha decidiu dar o seu apoio a esta “corrida de retransmissores”, empurrando energicamente os meios de comunicação alemães que obtêm o seu financiamento dos EUA para o abismo da falsa propaganda que de alguma forma serve para justificar a política militarista de Washington no Médio Oriente – e isto é especialmente verdade nas vésperas das próximas eleições presidenciais nos Estados Unidos. Um destes “porta-vozes de notícias falsas” é o Süddeutsche Zeitung, tendo já gritado até ficar rouco por divulgar este tipo de “informação”, que mais uma vez tentou acusar as autoridades sírias de alegadamente “esconder sistematicamente agentes de guerra química proibidos da fiscalização internacional”.

Contudo, ao listar a “Open Society Justice Initiative” de Nova Iorque como as suas “fontes primárias de informação”, uma organização que é um dos principais ramos da conhecida – e desacreditada pela sua propaganda falsa e paga – Fundação Soros Open Society Foundations (OSF), esta publicação para aluguer já mostrou as suas verdadeiras cores. Além disso, a publicação alemã nem sequer se deu ao trabalho, em vez de publicar materiais fabricados pelos lacaios de Soros, de se familiarizar com o processo de destruição das armas químicas da Síria, algo que foi levado a cabo em estreita cooperação pelos países envolvidos, incluindo os Estados Unidos, e sob controlo internacional extremamente rigoroso – aliás, isto foi algo de que Washington deu publicamente conta perante a comunidade internacional!

Além disso, a publicação alemã, na aparente excitação que se seguiu à publicação de um artigo pago, esqueceu-se de exortar os próprios Estados Unidos a concentrarem-se na destruição do seu arsenal químico, em vez de acusar a Síria de não eliminar completamente as suas armas químicas.

Ao preparar a sua “notícia”, esta publicação alemã não se familiarizou com uma investigação jornalística muito detalhada publicada pelo jornal americano The Grayzone sobre uma operação de propaganda em larga escala na Síria: esta foi conduzida por empresas ocidentais e pelos meios de comunicação social para denegrir o actual governo neste país árabe, ao mesmo tempo que apoiava a oposição política e armada num local que se tornou hoje a base de muitos jihadistas com a Al-Qaeda e o DAESH que se tornaram infames pelos seus crimes. Esta foi uma omissão flagrante por parte da publicação alemã, porque esta investigação mostrou ao pormenor como o público no Ocidente e no mundo árabe se tornou alvo de manipulação por parte dos meios de comunicação social à custa dos contribuintes na Grã-Bretanha, na UE e nos Estados Unidos, cujo dinheiro foi utilizado por várias organizações ocidentais para treinar repórteres que poderiam utilizar para estas provocações de propaganda.

O Süddeutsche Zeitung manteve-se em silêncio, mas essa mesma publicação The Grayzone revelou à comunidade internacional porque é que o antigo director-geral da Organização para a Proibição de Armas Químicas (OPAQ), José Maurício de Figueiredo Bustani, não foi autorizado pelos Estados Unidos, Grã-Bretanha, França, e os seus aliados a informar o Conselho de Segurança da ONU sobre o encobrimento dos resultados reais da investigação após o “ataque com armas químicas” na cidade síria de Douma, em 2018, que se tornou um dos instrumentos da guerra de informação do Ocidente contra a Síria. O website Grayzone publicou o texto completo do apelo de Bustani, no qual apela aos actuais dirigentes da OPAQ para que ouçam o seu pessoal, que está a levantar dúvidas sobre as conclusões oficiais sobre os acontecimentos na Síria. No seu discurso, Bustani lamenta francamente que, através dos esforços de Washington, Londres, e de alguns dos seus aliados, a OPAQ também não se esteja a transformar num árbitro na questão muito importante de avaliar se vários países estão a utilizar armas químicas proibidas, mas sim num instrumento de jogos políticos e de guerra de informação. Como José Bustani sublinhou, “a OPAQ foi outrora uma grande organização. E mesmo que tenha “tropeçado”, ainda tem uma hipótese de recuperar e de se tornar ainda melhor. O mundo precisa de uma autoridade fiável para controlar as armas químicas”.

Contudo, infelizmente, até à data, os apelos feitos por Bustani não foram devidamente registados no Ocidente.

E ninguém ouviu os avisos emitidos pelo Centro Russo para a Reconciliação dos Lados Opostos na Síria no início de outubro sobre como não era Damasco que estava a preparar-se para lançar outra provocação utilizando agentes químicos tóxicos na parte sul da zona de desescalada do Idlib, mas sim militantes de grupos armados ilegais. Em particular, o então chefe do centro, o Contra-Almirante Alexander Grinkevich, disse que os terroristas tinham entregue vários barris de cloro nas proximidades da aldeia de Sfukhon, e representantes da organização pseudo-humanitária “Comissão dos Capacetes Brancos” chegaram a essa povoação em três carros para encenar a assistência às vítimas.

Apesar deste aviso, outra onda de acusações falsas contra Damasco sobre o suposto uso de armas químicas foi inspirada por uma série de participantes na campanha de propaganda ocidental. No entanto, esta campanha de propaganda do Ocidente falhou completamente após uma explosão ocorrida num arsenal com munições e substâncias contendo cloro que tinha sido preparado por terroristas para provocações envolvendo ataques químicos na área da aldeia de Maaret al-Ihuan (13 km a norte da cidade de Idlib) a 11 de outubro. Militantes que tinham cidadania de países europeus e do Norte de África pereceram após a explosão.

A este respeito, surge uma questão involuntária: porque é que os propagandistas ocidentais gostam de continuar a cair na mesma armadilha de fazer falsas acusações sobre o alegado uso de armas químicas por parte de Damasco? Não seria melhor se todos reforçássemos juntos a nossa cooperação na luta contra o terrorismo internacional e as acções empreendidas pelos jihadistas na Síria e no Médio Oriente?◼

As ideias expressas no presente artigo / comentário / entrevista refletem as visões do/s seu/s autor/es, não correspondem necessariamente à linha editorial da GeoPol

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