Alain de Benoist: “Emmanuel Macron está iludido sobre o separatismo islâmico!”

Entrevista realizada por Nicolas Gauthier
Boulevard Voltaire

Com o seu discurso em Les Mureaux, e a sua intenção de expor a luta contra o “separatismo islâmico”, Emmanuel Macron parece ter descoberto realidades que não via anteriormente. Isso joga a seu favor? Podemos dizer que ele está assumindo o controle?

Macron tem muitos defeitos, mas não é um idiota total. Certamente há muitas coisas que ele percebeu desde o início do seu mandato e, acima de tudo, mediu as expectativas do público sobre determinados assuntos. Dito isto, não acredito por um momento que as suas declarações de Les Mureaux lhe permitirão recuperar o controle. Inicialmente, já existe um problema de vocabulário. A palavra “separatismo” geralmente é sinónimo de “independência”. No entanto, os islamistas não querem separar-se territorialmente da França. O que eles querem é estabelecer uma contra-sociedade que esteja de acordo com suas crenças e seus costumes, e estendê-la o máximo possível, o que não é a mesma coisa. Não nos esqueçamos de que na França é o Estado que é laico, não a sociedade. O islamismo visa a sociedade civil para estabelecer a hegemonia cultural. É tanto menos difícil atingi-lo quanto o Estado liberal faz do secularismo um princípio de despolarização, o que significa que as autoridades públicas se encontram impotentes contra a influência metapolítica. Durante muito tempo acreditou-se que a integração era apenas uma questão política, económica e social. Esquecemos o paradigma civilizacional.

Macron não tem a mesma atitude em relação a todos os separatismos. Ele condena o separatismo da Córsega ou o separatismo catalão, mas aceita submeter as demandas dos separatistas kanak a um referendo. Ele até encoraja o separatismo em Hong Kong ou no Nagorno-Karabakh. Na França, ao falar de “separatismo”, ele está de facto a referir-se ao “comunitarismo” – “afiliações de comunidades militantes”, como dizia Luc Ferry quando era Ministro da Educação Nacional – um termo não menos ambíguo. Mas como ele também deseja “construir um Islão iluminista no nosso país” (a esperança ajuda a viver), ele tem o cuidado de não atacar o islamismo de nenhuma forma. Macron diz que o seu projecto “visa fazer a ligação entre a insegurança ligada ao terrorismo e a insegurança da vida quotidiana”. Mas essa “insegurança diária, está ligada a quê?”. O Chefe de Estado nem sequer pronunciou a palavra “imigração”, demonstrando que não tem intenção de abordar as raízes do que está denunciando. Se o fizesse, ele sabe muito bem que enfrentaria imediatamente um veto dos juízes constitucionais e do Tribunal Europeu dos Direitos do Homem.

O cientista político Frédéric Saint Clair diz muito correctamente que “o papel da República não é distinguir o bom Islão do mau Islão, ou facilitar o surgimento de um Islão iluminista. Cabe aos muçulmanos fazer isso, se quiserem. A República deve definir o quadro político e cultural da nação”. É bastante duvidoso que isso seja alcançado promovendo o ensino do árabe nas classes jovens, atacando indiscriminadamente escolas não contratadas (católicas incluídas), ou questionando as prerrogativas familiares de educação em casa. É igualmente embaraçoso atacar aqueles que pensam que existem leis “superiores às da República”: para os cristãos, que colocam a “lei natural” acima da lei civil, o aborto não pode ser legítimo apenas porque se tornou legal. Por enquanto, estamos só lidando com os efeitos do anúncio. Haverá algumas medidas mais restritivas tomadas aqui e ali. Mas não iremos mais longe.

Macron também parece perceber que a França está gravemente ausente no cenário internacional. Na Europa, não tem praticamente nada além de coleccionar fracassos? É por isso que ele está tentando “salvar o Líbano”, sem mencionar o seu apoio aos oponentes de Lukashenko, o presidente da Bielorrússia?

Aqui, é a ingenuidade do Chefe de Estado que parece espantosa. Veja o exemplo do Líbano, que hoje realmente está no limite. O Líbano é um belo país, com o qual a França há muito mantém laços privilegiados. Mas é também um país que, quase desde o seu nascimento em 1920, foi dividido entre clãs rivais, todos (com a notável excepção do Hezbollah) objectivamente governados por traficantes ou mafiosos. Imaginar que vamos colocar tudo isso em ordem incitando ingenuamente os libaneses a adoptar boas regras de “governança” ao estilo ocidental equivale a não apenas humilhá-los publicamente, o que nunca é recomendado no Médio Oriente, mas também para dar aos interessados um comportamento racional que está nas antípodas das regras que regem naquele país as relações religiosas, sociais e políticas das famílias e dos clãs.

A França está igualmente desamparada diante da Turquia de Erdogan, que brinca às touradas no Mediterrâneo, intervém militarmente na Líbia, luta contra os curdos na Síria, viola a soberania terrestre e marítima da Grécia e do Chipre. Tanto mais que não pode contar nem com a diplomacia europeia, que sempre sempre foi inexistente, nem com a Alemanha, refém da sua minoria turca, nem com a NATO, de quem a Turquia é um membro. Mais uma vez, diante do nacionalismo islâmico turco, o Estado francês é reduzido à pura agitação.

Na verdade, Macron não está familiarizado com nenhuma das principais questões internacionais nas quais está tentando intrometer-se, para restaurar a sua imagem. O contraste é gritante com Putin. A Rússia já está desempenhando um papel decisivo que conhecemos no Médio Oriente. É sob a sua égide que o futuro de Lukashenko será determinado. E também é por iniciativa de Putin que há alguma chance de que o Azerbaijão (agora apoiado pela Turquia e por Israel) e a Arménia cheguem a algum modus vivendi. Macron tem o seu futuro atrás de si.◼