O regresso de Portugal ao mappa mundi

Um relatório da Geopolitical Intelligence Services (GIS) publicado na segunda-feira outorga a Portugal um papel crucial nas Novas Rotas da Seda entre a China, a Europa e a África.

Um diagonóstico esperançador, que nos recoloca no mapa, certamente com um papel diferente, mas talvez com maior influência que nunca no contexto europeu. Seria até caso para dizer que foi preciso virem os chineses, para dar-nos o papel de relevância no velho continente que os europeus nunca reconheceram.

Sim, porque Portugal goza de uma situação geográfica e de um status histórico únicos para a nova configuração geopolítica que aí vem, isto tem que ser aproveitado.

A crise de 2008

No rescaldo da crise de 2008 e com a instabilidade na zona euro, as agências britânicas e norte-americanas que atribuem qualificações aos países como se de mercadoria se tratassem, não duvidaram jogar Portugal literalmente para o lixo, afugentando o interesse dos grandes investimentos, que o país tanto necessitava.

Ninguém quis apostar num país empobrecido, marginal e com uma economia irrelevante. É assim como nos vêem os nossos velhos aliados britânicos e muitos sectores empresariais do mercado comum. Os nossos colegas norte-americanos nem sabem onde ficamos no mapa.

As razões pelas quais o país chegou a uma situação tão precária e vulnerável deve o leitor recordar-se melhor que eu, que já não vivo em Portugal há mais de 20 anos. Mas recordo-me perfeitamente da promiscuidade entre empresariado e política, da nefasta influência dos partidos, autênticos trampolins de carreiras para incompetente obedientes, entre outros factores que não vale a pena agora mencionar.

Enfim, a “pipa de massa” que os europeus do norte nos tinham emprestado nos idos anos da louca cavacada tinha se esfumado. E com isso, Portugal entrava numa fase crítica. Ficou alguma infraestrutura (que precisa de continuas manutenções) e foi-se também indústria e outros sectores estratégicos, que na ingénua ideia de que na ordem natural do liberalismo económico, a “mão invisível” tudo solucionaria.

Foi neste quadro que a memória só conhecia de antes da entrada na CEE, que Portugal faliu em 2011, tornando-se de novo uma presa fácil do FMI e as suas receitas ainda mais privatizadoras.

Foi nesse momento em que a Europa nos virou as costas e exigiu o maior sacrifício que temos memória, que a China viu Portugal precisamente como uma porta de entrada numa Europa cuja maioria dos países eram muito relutantes em abrir as suas economias aos investimentos de Pequim.

Segundo documento da GIS, Portugal está no núcleo da estratégia da China (“Portugal stands at the heart of China’s strategy“) como porta de entrada na Europa.

Ao invés dos nossos congéneres europeus, os chineses, extremamente oportunos, ficaram de “olhos em bico” – passe a redundância – com um mercado tão subaproveitado e com enorme potencial.

Portugal tornava-se no parceiro atraente, velho conhecido e confiável que a China não desaproveitou, apesar do risco (afinal de contas éramos “lixo” para a Moody’s, a Fitch e a S&P).

A entrada do dragão

Com a entrada dos chineses, voltaram os grandes investimentos e a China impulsionou a economia nacional para níveis anteriores à crise em sectores como a energia, a imobiliária, transportes, seguradoras, banca, etc.

Portugal ficou desta forma entre os 10 principais destinos de investimento chinês na Europa na última década, e em termos per capita em quinto, à frente de mercados como a Alemanha, Reino Unido, Espanha ou Itália.

O softpower português

A China sabe tão bem como nós, que Portugal é muito mais que a estreita franja costeira ocidental da Europa. No plano das Novas Rotas da Seda chinês, a África joga um papel importante no futuro das relações comerciais do país asiático.

A China parece ser plenamente consciente daquilo que no artigo se refere como um nada desdenhável “Portugal’s soft power” entre os demais oito países lusófonos. O Fórum de Macau, com sede naquela região autónoma chinesa de herança portuguesa aparece neste sentido em 2003 e encarrega-se de formular planos de acção e coordenação nos campos da cooperação intergovernamental e empresarial, comércio, investimento, entre outros.

É neste contexto que os chineses querem garantir as rotas marítimas ao longo das costas de África, com apoio de portos de países lusófonos. A África continuará a ser um gigantesco mercado em crescimento, que diversificará as suas economia nas próximas décadas.

A vertente atlântica

A localização atlântica do nosso país, no meio de uma encruzilhada de várias rotas marítimas importantes, foi outro dos atractivos que desde a visita de Xi Jinping a Lisboa em 2018 os dois países têm trabalhado. Para a China isto representa uma extensão da sua Belt and Road Initiative.

Para nós pode representar um papel importante, pois sendo o porto de águas profundas mais ocidental da Europa, Sines deve tornar-se no hub de conexão por excelência entre as rotas marítimas (Américas e África ocidental) com as futuras vias ferroviárias e rodoviárias com a Europa central.

Açores e Madeira

O relatório atribui também um papel importante aos arquipélagos dos Açores e da Madeira e à ZEE portuguesa, que sendo actualmente a terceira maior da UE, e com a possibilidade da sua próxima extensão, pode representar uma oportunidade para fazer das ilhas atlânticas postos de abastecimento de gás natural liquefeito (GNL), um mercado emergente, que será cada vez mais importante para a indústria naval. O porto da Praia da Vitória, na Terceira, é o exemplo daquilo que poderia ser convertido numa grande estação de GNL entre a Europa e as Américas.

Também Cabo Verde é tido em conta, como outro grande trunfo, citando a presença da Galp e a sua participação na local Enacol.

O peso da História

Entre as nações ocidentais, Portugal tem uma das relações mais antigas com a China, cinco séculos é uma relação de maturidade que oferece confiança mútua.

Porém não sejamos tão ingénuos para pensar que o investimento chinês não é livre de risco, eles têm os seus próprios objectivos. No entanto talvez seja útil recordar os idos anos da troika e da austeridade para entender o papel fundamental da aposta chinesa na nossa recuperação económica e reindustrialização, em contraste com a falta de interesse e de confiança dos investidores europeus e americanos na época.

O efeito da pandemia

Com a actual pandemia e a disputa comercial entre os EUA e a China, Washington tenta agora redifinir as relações internacionais de forma desesperada e difusa, recorrendo amiúde a ameaças e interferências que não são saudáveis.

Interferências externas

Nesse sentido, o embaixador George Glass, disse que Lisboa teria que escolher entre os seus “aliados” e a China, deixando claro que os EUA teriam dificuldade em confiar num aliado que permitisse aos chineses administrar activos estratégicos do país.

Um interlocutor que desconfia, que pressiona e ameaça não é um aliado confiável e quebrada a confiança, nada volta a ser como antes. Aliados são aqueles que têm a firmeza de arriscar e apostar em nós, quando mais precisamos.

Talvez fosse bom recordar ao Sr. Glass que Portugal já fazia negócios com a China, quando na América do norte a sua população vivia calma e tranquilamente, muito antes de chegarem renegados e proscritos de diversa procedência, ávidos de lhes roubar as terras pela lei do fogo.

Da perspectiva portuguesa, é importante sabermos diversificar as opções e escolher os parceiros dentro dos interesses nacionais a longo-prazo, tendo claro que no nosso território quem manda somos nós e que as regras se definem em Lisboa, quer seja com Bruxelas, Berlim, Washington ou Pequim.◼

> Relatório da Geopolitical Intelligence Services

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