Um novo muro para uma nova guerra fria?

Andrew Korybko

O chefe da prestigiosa Conferência de Segurança de Munique alertou no final do mês passado contra os esforços para “construir um novo ‘muro’ entre a Rússia e o Ocidente” à luz do caso Navalny e os muitos outros desacordos entre os dois lados, e embora seja irreal esperar outra divisão física da Europa semelhante ao Muro de Berlim, não há como negar que os seus diferentes modelos de governo criaram uma forte divisão em todo o continente.

Bem-vindo à nova guerra fria

O mês passado provavelmente entrará na história como o momento em que a nova guerra fria se tornou impossível de negar. Os Estados Unidos vêm tentando reacender a sua unipolaridade decadente desde o início das suas campanhas de guerra híbrida de “contenção” contra a Rússia e a China em 2014, que só se intensificaram após a eleição de Trump. Os líderes dos três países dirigiram-se à Assembleia Geral da ONU por vídeo numa série de discursos nos quais se expôs as avaliações contraditórias desses dois lados sobre os assuntos globais contemporâneos e visões relacionadas do futuro. Os seus discursos principais foram precedidos pelo secretário-geral da ONU, Guterres, alertando ao mundo que “devemos fazer de tudo para evitar uma nova guerra fria”. Trump obviamente não o ouviu, e é por isso que o chefe da prestigiosa Conferência de Segurança de Munique (MSC) [Wolfgang Ischinger] seguiu o aviso daquele representante global com o seu próprio, no final daquela semana histórica, advertindo que “não servirá de nada se agora tentarmos construir um novo ‘muro’ entre a Rússia e o Ocidente por causa do caso Navalny e outros eventos tristes e terríveis”. São as suas palavras dramáticas que constituem a base do presente artigo.

A guerra híbrida dos EUA contra a Rússia

Existem muitos ângulos pelos quais a competição global em curso pode ser analisada, mas a perspectiva de um novo muro de algum tipo ou outro acompanhando a nova guerra fria na Europa está entre os mais intrigantes. O chefe da MSC presumivelmente não está sugerindo a criação de um Muro de Berlim do século 21, mas parece estar falando de forma mais geral sobre o seu medo de que as crescentes divisões entre a Rússia e o Ocidente logo se tornem irreversíveis e potencialmente até formalizadas como o novo status quo. Escrevi no mês passado que “A guerra híbrida dos EUA contra os alvos de energia russos na Alemanha, Bielorrússia e Bulgária”, apontando como até mesmo o sucesso parcial desta última campanha de “contenção” avançará muito o cenário de um “desacoplamento” provocado externamente entre a Rússia e o Ocidente. Isso, por sua vez, ajudaria a proteger os grandes interesses estratégicos americanos no continente. Essa “dissociação” reverteria o progresso que foi feito nas relações bilaterais desde o fim da velha guerra fria até a crise ucraniana. Levado ao extremo, o retorno espiritual do Muro de Berlim parece ser quase inevitável neste momento.

Diferenças governativas

É verdade que a fronteira entre os países da NATO e a CSTO da Rússia (que inclui a Bielorrússia, alvo da guerra híbrida) representa o equivalente militar moderno à “Cortina de Ferro”, mas a situação não é assim tão simples. Enquanto as divisões militares permanecem (embora se tenham empurrado muito mais para o leste nas últimas três décadas), as ideológicas e económicas são menos aparentes. A Rússia não se imputa mais ao comunismo, mas segue a sua própria variante nacional de democracia dentro de um sistema predominantemente capitalista, reduzindo assim as diferenças estruturais entre ela e os seus interlocutores ocidentais. Observadores inconscientes podem perguntar-se se há mesmo uma nova guerra fria a começar, ao considerar o quanto os dois lados têm em comum, mas isso ignora as suas visões do mundo contrapostas, que estão no cerne de suas suspeitas mútuas. A Rússia acredita fortemente na salvaguarda da sua soberania geopolítica e sociopolítica doméstica, portanto segue um caminho mais conservador, enquanto os países ocidentais se submetem principalmente à autoridade dos EUA e geralmente consideram as suas posições liberais em muitas questões sociais como universais.

O fim da “Grande Convergência”

A razão pela qual o degelo nas relações russo-ocidentais não conseguiu alcançar a “Grande Convergência” que Gorbachev originalmente esperava, foi porque os EUA queriam impor a sua vontade à Rússia, tratando-a apenas como mais um Estado vassalo que seria forçado a seguir o seu exemplo no exterior e aceitar mandatos sociais extremamente liberais em casa, em vez de respeitá-la como um parceiro igual. No entanto, essa política foi de facto surpreendentemente bem-sucedida durante toda a década de 1990 sob Yeltsin, mas a sua falha fatal foi ir longe demais, rápido demais, ao tentar dissolver a Federação Russa por meio do apoio americano a grupos separatistas-terroristas chechenos. Isso inadvertidamente provocou uma reacção muito patriótica dos membros responsáveis do exército, inteligência e burocracias diplomáticas da Rússia (“Estado profundo”) que trabalharam juntos para garantir a sobrevivência da sua pátria em face àquela crise existencial. O resultado final foi que Putin sucedeu Yeltsin e, subsequentemente, começou a salvar sistematicamente a Rússia. Isso assumiu a forma de estabilização da situação de segurança em casa, paralelamente à reafirmação da Rússia no cenário mundial.

O “modelo russo”

Putin, porém, sempre foi um liberal no sentido tradicional (não pós-moderno). Ele nunca perdeu o seu apreço pela civilização Ocidental e sinceramente queria completar a esperada “Grande Convergência” de Gorbachev, embora apenas em termos iguais e não como um vassalo dos Estados Unidos. Lamentavelmente, os muitos ramos de oliveira do líder russo foram esbofeteados por uma América furiosa que temia a influência que um poderoso Estado “moderadamente liberal” poderia ter sobre os seus súbditos hiper-liberais. Todos os esforços de Putin para levar a “Grande Convergência” ao seu próximo passo lógico de uma “Europa de Lisboa a Vladivostok” falharam por este motivo, após o que uma intensa campanha de guerra de informação foi travada para retratar a Rússia como um “Estado radical de direita”, embora nunca tenha sido nada de parecido. Esse modus operandi tinha como objectivo evitar que as massas doutrinadas da Europa aprovassem que uma alternativa “moderada” existe, pela qual preservariam a sua soberania doméstica e internacional, apesar de permanecerem comprometidos com os valores liberais tradicionais, assim como o “modelo russo” do qual Putin foi pioneiro. Compreensivelmente, isso representaria uma séria ameaça aos interesses estratégicos americanos, daí a sua campanha contra.

A ascensão do rival russo na América

Com o passar do tempo, o “modelo russo” foi parcialmente replicado nalguns dos países da Europa Central, como a Polónia e até mesmo dentro dos próprios EUA, por meio da eleição de Trump, embora isso não fosse devido a nenhuma chamada “intromissão russa”, mas sim ao resultado natural da interacção ideológica entre liberais radicais e “moderados”. Acontece que a Rússia foi o primeiro país a implementar esse modelo não por causa de algo exclusivamente “russo” na sua sociedade, mas simplesmente como o plano de sobrevivência mais pragmático, considerando as circunstâncias extremamente difíceis da década de 1990 e os limites decorrentes da capacidade de manobra estratégica do país durante esse tempo. Foi considerado pelos membros patrióticos do “Estado profundo” da Rússia como muito arriscado reverter a direcção das reformas pós-soviéticas, daí a razão pela qual a decisão parece ter sido tomada para continuar com eles, embora fazendo tudo ao seu alcance para recuperar o controle sobre esses processos dos senhores supremos ocidentais da Rússia para proteger os interesses geopolíticos nacionais e socio-políticos domésticos. Essa luta fez com que a Rússia se tornasse um pólo de influência alternativo (no sentido governativp) dentro do “Grande Ocidente”, rivalizando com os EUA.

Hillary & Trump: a mesma estratégia anti-russa, diferentes tácticas de guerra internas

Com essa ideia em mente, a nova guerra fria era inevitável à posteriori. Se Hillary tivesse sido eleita, a narrativa de guerra teria se concentrado mais nos diferentes “valores” da Rússia, procurando apresentar o seu alvo como uma “ameaça ao (hiper-liberal) modo de vida ocidental”. Uma vez que a América de Trump, curiosamente, partilha muitos dos mesmos valores que a Rússia contemporânea, no entanto, o foco está nas diferenças geopolíticas. Do prisma da teoria das Relações Internacionais, o ângulo de ataque de Hillary contra a Rússia teria sido mais liberal, ao passo que o de Trump é mais realista. De qualquer forma, os dois líderes americanos (teóricos no primeiro sentido e reais no segundo) têm todos os motivos para temer a Rússia, uma vez que ela desafia o domínio unipolar dos EUA na Europa. Hillary gostaria de retratar a Rússia como estando fora da “família ocidental das nações”, embora Trump não o possa fazer de forma convincente, dadas as suas provocações muito mais notórias contra a China obviamente não ocidental, porque aí ele está basicamente a competir com a Rússia pela liderança do modelo liberal “moderado” da civilização Ocidental, logo aceitando as suas semelhanças estruturais, mas ao invés disso superestimando as suas diferenças geopolíticas.

Impacto irreversível da Rússia pós-soviética na civilização Ocidental

Levando tudo isto em consideração, é compreensível que os EUA queiram construir um “novo muro” na Europa, “desacoplando” da Rússia os seus súbditos cativos da NATO, por meio de uma série de guerras híbridas, apesar do facto do génio estar fora da garrafa que alguns países da Europa Central, como a Polónia e até mesmo os próprios Estados Unidos sob Trump, já terem implementado elementos do “modelo russo”. Isso significa que, embora a separação física da Rússia e da Europa ao longo das linhas militares, geopolíticas e, em breve, até talvez económico-energéticas seja praticamente um facto consumado neste momento, a influência ideológico-estrutural que emana de Moscovo é impossível de “conter”. Nenhuma “parede” reverterá o impacto que o “modelo russo” tem tido no curso da civilização Ocidental, embora deva ser lembrado que o referido modelo não faz parte de nenhum “plano de xadrez astuto de 5 dimensões”, mas foi sim uma táctica de sobrevivência improvisada, que foi desencadeada em resposta à agressão do soft power unipolar-universalista americano na Rússia pós-soviética. Não é distintamente “russo”, e é por isso que a elite hiper-liberal ocidental o teme tanto, já que sabe muito bem que pode enraizar-se nos seus países também, assim como na Polónia e nos Estados Unidos.

Pensamentos finais

A mente ocidental típica está condicionada a pensar em termos de modelos, especialmente históricos, e é por isso que imagina que a nova guerra fria será muito semelhante à velha guerra fria, simplesmente por causa do efeito que a programação neurolinguística tem sobre o seu processo de pensamento. Isso explica porque é que o chefe da MSC alertou contra a criação de um “novo muro” entre a Rússia e o Ocidente, embora esse cenário não seja realista. Nenhuma barreira física como o Muro de Berlim jamais será erguida novamente, e mesmo que as falhas geopolíticas, militares e talvez até mesmo em breve económico-energéticas se formalizem por meio do sucesso iminente da estratégia de “dissociação” dos EUA, isso não tocará a raiz da nova guerra fria, que reside no modelo “moderadamente liberal” de soberania da Rússia em contraste com o (ex?) modelo de Estado de vassalagem hiper-liberal universalista dos Estados Unidos. Essa diferença é a principal responsável por todas as outras dimensões da competição, uma vez que colocou a Rússia na trajectória de apoiar uma ordem mundial multipolar, em vez da desejada ordem mundial unipolar dos EUA.◼

As ideias expressas no presente artigo / comentário / entrevista refletem as visões do/s seu/s autor/es, não correspondem necessariamente à linha editorial da GeoPol

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