É claro que uma vez mais o governo alemão age de acordo com as linhas definidas pelo consenso de Washington, porquanto a revista em causa era claramente pela paz entre a Alemanha e a Rússia
No dia 16 de Julho, Jürgen Elsässer (67) acordou de sobressalto às 5:30 da manhã, abriu a porta de casa ainda em robe, e diante si encontravam-se dezenas de agentes da polícia, alguns de cara tapada, fortemente armados, numa imagem surreal, própria de qualquer Estado autoritário. Mas era em Brandemburgo, nos arredores de Berlim, na Alemanha do tragicómico governo Scholz, também conhecido como coligação do “Semáforo”.
A polícia ia fazer uma rusga à sua casa, enquanto mais de 200 agentes federais e do estado de Brandemburgo eram destacados para efetuar mais buscas em oito outras casas e escritórios na região. Outras rusgas foram feitas nos estados da Saxónia, Hesse e Saxónia-Anhalt, ordenadas pela ministra do Interior, Nancy Faeser (SPD), que mandara fechar por decreto a revista Compact como “associação”, quando legalmente se tratava de uma editora. Também proibiu qualquer atividade da empresa audiovisual que produzia os conteúdos da Compact, tal como as suas contas do Youtube, Facebook e Instagram.
A ministra justificava mais tarde que a Compact “incita ao ódio contra os judeus, contra pessoas com um historial de migração e contra a nossa democracia parlamentar de uma forma indescritível”. De acordo com o ministério, a base legal é a lei das associações, segundo a qual as organizações que são dirigidas contra a ordem básica livre e democrática também podem ser proibidas.
“A proibição mostra que também estamos a tomar medidas contra os incendiários intelectuais que alimentam um clima de ódio e violência contra os refugiados e migrantes e que querem ultrapassar o nosso Estado democrático”, explicou a ministra. “A nossa mensagem é muito clara: não permitiremos que a etnia defina quem pertence à Alemanha e quem não pertence. O nosso Estado de direito protege todos aqueles que são hostilizados devido à sua fé, à sua origem, à cor da sua pele ou mesmo à sua posição democrática.”
Já em 2022, o BND considerou que a Compact, “enquanto empresa multimédia, veicula na sociedade posições antidemocráticas e contra a dignidade humana”, estando desde então classificada como de extrema-direita pelo Gabinete de Proteção da Constituição e debaixo de suspeita.
Entrevistado por jornalistas durante as buscas da polícia na casa em que vive com a sua esposa e sócia na empresa, Elsässer disse que “em 14 anos de existência não houve uma só acusação penal contra a sua revista”, pelo que lhe estranhava o anúncio da ministra. Disse também que estava em contacto com o seu advogado para proceder à defesa dos seus direitos e em jeito de brincadeira, imitou Donald Trump com o punho erguido, e disse que estava “preparado para a luta”.
Reações mistas na imprensa
Enquanto os jornalistas dos grandes meios se recusam a dar a este episódio a devida importância, outros viram a inusitada decisão do governo como um sinal de alerta claro. Divididas as opiniões entre os media estabelecidos e o pouco jornalismo que ainda luta por informar, a internet fervilhava com o acontecimento. A etiqueta #Compact foi o tema principal do Twitter alemão durante todo o dia, e alemães e estrangeiros tornaram viral a perseguição de meios de comunicação pelo governo Scholz. A Alemanha está debaixo do olho da opinião pública internacional pelos piores motivos.
Elsässer queixa-se que esta é a “a maior agressão à liberdade de imprensa na Alemanha desde 1962, aquando do escândalo da revista Spiegel”. Naquela altura descobriu-se que o governo de Adenauer quis silenciar por meios ilegais vários jornalistas por razões políticas. Descoberta a infração, o ministro Defesa, Franz Josef Strauß e dois secretários de Estado tiveram que se demitir. No entanto, nem então se proibiu um meio de comunicação incómodo, tal como agora, com o seu caso. Elsässer diz que só na RDA e durante o nacional-socialismo se viram coisas assim.
A metamorfose de Elsässer, atual porta-bandeira da «nova direita» alemã
Jürgen Elsässer é um ativista político de longa data. Com estudos em História e uma curta carreira de professor, começou no movimento anti-alemão da extrema-esquerda ainda nos anos 70, escreveu livros de forte teor anti-nacional, passou pela redação de várias publicações da esquerda, como o Junge Welt, Neues Deutschland, colaborou com Der Freitag e o Jüdische Allgemeine e foi chefe de redação da revista Konkret, até que após divergências com outros elementos, fundou a revista Compact em 2010, com a ideia de juntar o melhor da esquerda e da direita numa frente transversal (“Querfront”), com base na soberania nacional, o mundo multipolar e a rejeição do UE e da NATO.
Em 2017, com as demonstrações contra a política imigratória de portas abertas de Merkel, junta-se ao líder da AfD da Turíngia, Björn Höcke, considerado um ultra quase neo-nazi, e a Martin Sellner, líder do Movimento Identitário da Áustria. Desde então a revista tornou-se na maior referência da chamada “nova direita” e Elsässer como uma das figuras centrais do espectro nacionalista alemão.
A sua proposta e percurso político são controversos e muito heterodoxos. Apela claramente à “remigração” dos estrangeiros extra-europeus, faz reivindicações de territórios polacos, alinhou com elementos abertamente islamofóbicos, como Michael Stürzenberger ou o movimento PEGIDA, jogou na berma, mas sempre dentro das regas do jogo. Pelo menos até hoje.
Elsässer é um tipo experiente, com uma enorme cultura e um grande palmarés de artigos e de livros escritos, onde foi mudando de ideias, ou pelo menos de aparência. Ele diz que não mudou nada, que se mantém na mesma posição política de há 40 anos.
Trabalhou para o grupo parlamentar do Die Linke como membro da comissão de inquérito do BND no Bundestag. É perspicaz em temas geopolíticos. Em 2012 foi recebido pelo então presidente Mahmoud Ahmedinejad em Teerão, juntamente a uma comitiva alemã. Sobre aquela viagem ao Irão disse ter gostado de tudo, sentido somente falta de uma boa cerveja gelada, como bom alemão que diz ser. Recentemente aliou-se a Maximilian Krah, o cabeça-de-lista europeu da AfD que advoga por uma Alemanha que garanta o estatuto de polo no mundo multipolar que já nasceu e está a dar os primeiros passos.
Uma revista de qualidade
A revista Compact era o elemento central da rede que incluía os canais audiovisuais, a organização de eventos, conferências, a edição e venda de livros e a Compact TV, com o seu canal do Youtube, recentemente chegou a ter um milhão de visualizações por dia.
Ao longo dos anos poderia dizer-se que a revista foi pendendo para a direita. Em 2014 dedicava uma capa a Netanyahu, na qual acusava-o de estar a perpetrar um “Genocídio em Gaza”, depois mudou o foco para a crítica à imigração, em especial de origem islâmica. Mais tarde lia-se artigos também contra o Hamas. Com a pandemia, posicionou-se claramente contra o governo, a indústria farmacêutica e a acusação de conspiração de guerra biológica por parte dos grandes poderes ocidentais.
Com a entrada da Rússia na Ucrânia, defendeu o diálogo com Moscovo e a retoma da energia russa. Foi dos poucos meios a fazer uma exaustiva reportagem sobre os atentados ao Nord Stream, ao qual dedicou um número quase inteiro. Na sua edição de dezembro de 2023, detalha como uma poderosíssima seita sionista de alcance mundial presente no atual governo de Israel, planeia uma guerra escatológica de final dos tempos, com consequências catastróficas para todo o mundo.
A ausência da Compact já se vinha fazendo sentir desde a chegada do governo do “Semáforo”. Fortes pressões sobre as distribuidoras foram fazendo desaparecer a revista dos escaparates das bombas de gasolina, dos supermercados, dos quiosques, das livrarias. Aos poucos, estava ficando confinada aos subscritores. Era das poucas revistas onde se podia ler bons artigos de cariz geopolítico.
O tufão alemão
O ministro do Interior do estado de Brandemburgo, Michael Stübgen (CDU) congratulou-se com a medida do governo federal. Stübgen acusou a revista de disseminar propaganda de guerra russa e teorias da conspiração contra a ordem democrática”. Afirmou ainda que “esta plataforma de inimigos da democracia tem um único objetivo, que é a destruição da nossa sociedade liberal”.
Num comentário nas redes sociais, o historiador Hermann Ploppa, identificado com a ala esquerda e ligado ao famoso portal de política alternativo Apolut, confessa que
A Compact não é do meu agrado. Muita coisa é simplesmente nojenta. Mas não há violação da legalidade. Também é claro que a proibição da Compact é a fanfarra de abertura para suprimir os media incómodos. É por isso que não devemos ficar de braços cruzados. NÓS SOMOS OS PRÓXIMOS.
No espectro partidário, somente a AfD criticou a proibição da revista. Os líderes do partido, Tino Chrupalla e Alice Weidel, anunciaram conjuntamente, na terça-feira, que se tratava de um “sério golpe na liberdade de imprensa”. “A proibição de um órgão de comunicação significa a negação do discurso e da diversidade de opiniões”. Segundo o partido da extrema-direita, a ministra Interior está a abusar dos seus poderes para “suprimir a informação crítica”.
A BSW, de Sahra Wagenknecht não se pronunciou sobre a proibição da Compact até ao momento da redação deste artigo. Wagenknecht foi capa da revista em mais de uma ocasião. No seu número de dezembro de 2022, era descrita como “A melhor chanceler: Uma candidata para a esquerda e a direita”. A relação entre Elsässer e Wagenknecht vem desde os anos 90. Em 1996, um ainda comunista Elsässer entrevistava a sua camarada Wagenknecht, muito antes de se tornar num dos principais ideólogos da nova “Querfront” (frente transversal) entre a “esquerda do trabalho e a direita dos valores”, empreendimento para o qual apelou várias vezes à participação de Wagenknecht nos últimos tempos.
A entrevista a Zakharova
Se a perseguição à revista Compact não veio sem aviso prévio, coincidiu pelo menos com a entrevista (em russo dobrada para alemão) à porta-voz do ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Maria Zakharova, dois dias antes, conduzida pelo correspondente da Compact em Moscovo, Hansjörg Müller, e transmitida no site e no canal do Youtube.
Com centenas de milhar de visitas no primeiro dia no portal e mais de 250.000 no Youtube naquela entrevista de uma hora e vinte, Zakharova deixou o governo do “Semáforo” no ridículo. Teceu fortes críticas à política de Scholz, Baerbock e às sanções, que não só destroem as relações entre Berlim e Moscovo, como lesam os próprios interesses da Alemanha, tudo a mando de “interesses terceiros”.
A porta-voz russa aludiu também ao problema da imigração na Alemanha, que segundo ela tem origens geopolíticas, onde Berlim se presta a um papel subserviente das “operações norte-americanas e britânicas no Médio Oriente e sul de África”, que causam o caos migratório que paga a Europa.
Também falou das obrigações da Alemanha sobre o Tratado 2+4 de 1999, do papel pouco claro das autoridades germânicas no caso do alegado envenenamento de Navalny em 2020, da pandemia, das vacinas e da abolição anunciada da moeda-papel na Europa, da Reserva Federal, da destruição dos Nord Stream, entre muitos outros temas. Em suma, uma entrevista fascinante, de aconselhável visualização e muito incómoda para as elites liberais ocidentais, alemãs em particular.
É claro que uma vez mais o governo alemão age de acordo com as linhas definidas pelo consenso de Washington, porquanto a revista em causa era claramente pela paz entre a Alemanha e a Rússia. Que isso não agrade a muito boa gente, não faz dela um meio ilegal. A decisão da ministra Faeser é arbitrária e abre um precedente grave, que prenuncia dias difíceis para a livre informação na Alemanha e Europa. Por não ter encontrado nenhuma ilegalidade, o governo alemão teve de se socorrer de dois parágrafos de uma lei sobre associações, para ilegalizar uma editora, porque lhe era incómoda. Tudo isto dá que pensar.
Peça traduzida do inglês para GeoPol desde New Eastern Outlook
As ideias expressas no presente artigo / comentário / entrevista refletem as visões do/s seu/s autor/es, não correspondem necessariamente à linha editorial da GeoPol
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