O destino da velha Constantinopla para a Europa?

António da Cunha Duarte Justo

António Justo

Teólogo e Pedagogo


Se a Europa não arredar caminho do comando de Washington, tudo leva a indicar que terá o mesmo fim que teve Constantinopla


Aquela estratégia, se por um lado contribui para afirmar a Europa ocidental e oriental ao Islão (império otomano), expressou-se também na reforma protestante (poder secular e religioso: formação dos estados laicos europeus) e manifesta-se na luta actual entre países de capitalismo liberal e de socialismo (mantem-se um fator comum: a luta ideológica da verdade como posse). O nacionalismo ucraniano, a hegemonia da Rússia e dos Estados Unidos ameaçam a formação de uniões que não favorecem o melhor desenvolvimento dos povos.

Os Estados Unidos, como força determinante, estão a perder a oportunidade de tomarem a iniciativa para um verdadeiro avanço da História universal e, por outro lado, a comprometer a Europa, tratada apenas como satélite. As potências perdem a ocasião de se porem a caminho na procura da verdade feita de compromissos tendo de abdicar, para isso, da pretensão de possuírem a verdade toda, não se dando conta que as próprias verdades se encontram confinadas à própria ideologia. (Seria chegado o tempo de se planear o desenvolvimento da História através da razão e não continuar a deixá-lo abandonado à força do mais forte). Acabámos de viver uma época em que os EUA foram uma bênção para a Europa, mas atualmente estamos a passar para a nova época em que os Estados Unidos se podem tornar num grande perigo. Uma Europa onde o pluralismo se afirmou, deveria ter uma palavra a dizer e afirmar que chegamos a um momento da história em que o unilateralismo está definitivamente ultrapassado e deve dar lugar a uma colaboração com as diferentes autonomias regionais que possibilite mundialmente multi-influências e pluri-dependências. Seria o momento de Europa acordar e atender ao aviso de Pascal Boniface, diretor do Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas (IRIS) afirma que os Estados Unidos constituem “um perigo estratégico para o planeta” (1).

Ao não quererem renunciar à sua hegemonia universal, os EUA provocam também eles (com o pretexto da Ucrânia) a divisão do mundo e impedem a formação de um “Ocidente” inteiro num mundo que não deveria ser repartido mas em que se reconheçam os seus centros de interesse que, como os sinais dos tempos e da História indicam,  o desenvolvimento do globo será no sentido da multipolaridade.

Por seu lado, a Europa, com a cumplicidade da Alemanha, perde a oportunidade de ser o fator de continuidade na mudança, ao não tomar iniciativa própria; ao identificar-se com a NATO americana, arrisca, com o andar da História, levar a Europa a tornar-se uma mera região americana na Eurásia. A nova guerra fria dos Estados Unidos, Rússia (e China), e o alinhamento apressado da EU na NATO, só vem emperrar o desenvolvimento da História, pois aposta numa cultura bélica e não numa cultura da convivência pacífica entre os povos, independentemente das suas ideologias. Estas serão moldadas pelo povo que, sendo paciente, aposta no tempo.

A Europa poderia contribuir para uma mudança de perspectiva global mais humana, se tivesse coragem para corrigir o domínio americano e, deste modo, contribuir para uma nova formatação de um mundo de conexões universais e para tal impedir ser reduzida, ela mesma,  apenas a um contexto sociopolítico e cultural limitado e, através da sua ausência política, contribuir para um alinhamento bipolar do mundo político e económico, em termos de luta.

Os Estados Unidos através do dólar, do FMI e das suas bases por todo o mundo, encontram-se ainda na forte posição de poderem esconjurar países necessitados que não se subjuguem às suas normas e o mesmo faz o seu satélite Bruxelas em relação aos seus membros da EU. Se a Europa não arredar caminho do comando de Washington, tudo leva a indicar que terá o mesmo fim que teve Constantinopla. É fatal verificar-se que uma Europa que foi berço de tantas subculturas se limite a ser agora reduzida à sua subcultura anglo-saxónica!

A EU, ao tornar-se seguidora dos interesses geoestratégicos e económicos dos EUA no conflito da Ucrânia, abandonou definitivamente a construção da “Casa Europeia”; o clímax do apartamento entre o Ocidente e o Leste europeus concretizou-se com o envolvimento da Alemanha na contenda entre EUA e Rússia, embora se encontrasse na situação privilegiada de poder tornar-se a melhor medianeira (este envolvimento da Alemanha irá provocar a sua progressiva irrelevância na Europa e no mundo). Por outro lado, a Europa, sem a Alemanha a impulsioná-la, não resistirá. O fatal da questão é que isto acontece num momento da História em que hegemonia e declínio dos Estados Unidos se juntam (nem a Europa se encontra geopoliticamente à devida altura, nem os EUA encontram lucidez suficiente para reconhecer a sua oportunidade global única de conseguirem ver a América com os olhos do mundo! Neste contexto, torna-se muito oportuna a análise de Michael Hudson (2) quando compara a luta de hegemonia papal na Idade Média com a luta dos EUA pela hegemonia hoje!

O povo não decide, o povo sofre as consequências mas a sua paciência que aposta no tempo cria a esperança que alimenta o melhor na construção de um mundo melhor! Entretanto, a má regência provoca a polarização das populações em dois acampamentos como se vê já nos Estados Unidos, no Brasil e no processo de polarização em via na Europa.

Sem estorvar a liberdade, vamos todos fomentar a harmonia! Não chega colocar a esperança na vitória do mais forte!

Fazer depender a relação dos povos das suas ideologias só favorece as elites.


Notas

(1) Pascal Boniface, Diretor do Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas (IRIS): Artigo

(2) “Do mesmo modo, os diplomatas americanos reivindicam hoje o direito de nomear quem deve ser reconhecido como chefe de Estado de uma nação. Em 1953, derrubaram o líder eleito do Irão e substituíram-no pela ditadura militar do Xá. Este princípio dá aos diplomatas americanos o direito de patrocinar “revoluções coloridas” para mudança de regime, tais como o seu patrocínio de ditaduras militares latino-americanas, criando oligarquias de clientes para servir os interesses empresariais e financeiros dos EUA. O golpe de 2014 na Ucrânia é apenas o último exercício deste direito dos EUA de nomear e depor líderes. Mais recentemente, os diplomatas americanos nomearam Juan Guaidó como chefe de Estado da Venezuela em vez do seu presidente eleito, e entregaram-lhe as reservas de ouro daquele país. O presidente Biden insistiu que a Rússia deve retirar Putin e colocar no seu lugar um líder mais pró-EUA” Artigo de Michael Hudson.


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