Outro mandato de Guterres significa exploração da causa palestiniana

Por Ramona Wadi

Para Guterres, que muito provavelmente irá liderar a ONU por mais cinco anos, o compromisso de dois Estados continua a ser a única via, embora seja uma via que visa a perda palestiniana, resultando na apropriação territorial de Israel

O secretário-geral da ONU António Guterres foi seleccionado pelo Conselho de Segurança para outro mandato para dirigir a instituição. Guterres, sob o lema “Não há Plano B”, que ganhou impulso para a expansão colonial de Israel, aguardará agora a aprovação formal da Assembleia Geral da ONU para retomar o seu papel.

A declaração de visão de Guterres – uma visão geral do que deve ser o papel da ONU nos próximos cinco anos – ilustra como a instituição existe para servir-se a si própria, em vez de abordar as injustiças globais entrincheiradas. A pandemia de coronavírus, que é um dos principais argumentos de Guterres na sua declaração, é um exemplo de como a ONU se agarra às questões mais visíveis, ao mesmo tempo que normaliza décadas de outras situações que são varridas para fora da vista com planos como os Objectivos de Desenvolvimento Sustentável, por exemplo – um conjunto de metas e objectivos que não levam em consideração diferentes cenários políticos e consequências.

A Palestina é um exemplo. Ao longo do mandato de Guterres, a expansão colonial de Israel usurpou mais território palestiniano, com a ajuda das concessões da Administração Trump. Em vez de se opor aos EUA, numa altura em que aparentemente se estava a desviar do consenso estabelecido, Guterres ergueu a sua retórica contra possíveis alternativas ao compromisso de dois Estados, sabendo muito bem que os paradigmas estabelecidos internacionalmente contribuíram para a anexação de facto do território palestiniano.

Os Acordos de Abraão também demonstraram a diplomacia pró-Israel de Guterres, elogiando hipocritamente a iniciativa como criando “uma oportunidade para os líderes israelitas e palestinianos se empenharem de novo em negociações significativas, que realizarão uma solução de dois Estados em conformidade com as resoluções relevantes da ONU, o direito internacional e os acordos bilaterais”.

Da mesma forma que a ONU desviou a atenção do colonialismo, Guterres não está a planear poupar esforços sobre as possibilidades de descolonização. A nível internacional, a Palestina já não é vista como território colonizado e o paradigma humanitário, que serviu as intenções da ONU, tornou-se outro meio de usurpação da liberdade do povo palestiniano.

Sob Guterres, a ONU não demonstrou qualquer apoio às investigações do Tribunal Penal Internacional sobre crimes de guerra cometidos no território palestiniano ocupado. A subsequente discórdia entre duas entidades – uma alegadamente baseada em direitos e a outra preocupada com a responsabilidade criminal – resultou numa situação em que a ONU continua a promover a narrativa de segurança de Israel e a minimizar as provas de crimes de guerra, apesar das amplas provas de que Israel agiu contra o direito internacional de formas que constituem crimes de guerra. A expansão dos colonatos é um exemplo que o TPI irá investigar. O TPI, com todas as suas falhas e atrasos burocráticos, conseguiu derrubar a ilusão de que Israel está a agir por preocupações de segurança, estipulando que foram de facto cometidos crimes de guerra.

O que podem os palestinianos esperar de outro mandato de Guterres? Em termos de COVID-19, Guterres advertiu contra o “business as usual”, prevendo “um futuro distópico em que os direitos e os valores sejam ainda mais corroídos enquanto a probabilidade de riscos catastróficos aumenta”. No entanto, os palestinianos têm sido coagidos a uma atitude de “business as usual” que favorece a expansão colonial israelita, e têm vivido catástrofes durante décadas, ao ponto de as Nações Unidas já terem declarado Gaza como inabitável em 2020, enquanto se abstiveram de responsabilizar Israel pela recente destruição após o bombardeamento do enclave em maio deste ano.

Enquanto Guterres confiava no seu “não há Plano B” para silenciar as exigências palestinianas, a anexação de facto de Israel ao território palestiniano não encontrou resistência internacional, apesar da implicação de crimes de guerra. Para Guterres, que muito provavelmente irá liderar a instituição corrupta por mais cinco anos, o compromisso de dois Estados continua a ser a única via, embora seja uma via que tem como consequência a perda palestiniana, resultando na apropriação territorial de Israel. No futuro imediato, a única trajectória que parece certa para a Palestina é que Guterres conservará o legado do abandono dos palestinianos, e isso será feito em nome dos direitos humanos e do humanitarismo.

Fonte: Strategic Culture

Foto de capa: US Mission Geneva, sob licença CC BY-ND 2.0

As ideias expressas no presente artigo / comentário / entrevista refletem as visões do/s seu/s autor/es, não correspondem necessariamente à linha editorial da GeoPol

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