Decreto de Guerra na Ucrânia e Estado de Emergência nos EUA

Os russos são os culpados!?


Por Rainer Rupp

Desde a inauguração de Jo Biden há quase 3 meses, os tons agudos, as diatribes e as ameaças contra a Rússia em declarações oficiais e o seu eco nos meios de comunicação social obedientes – tanto nos EUA como neste país [Alemanha] – têm aumentado constantemente. Depois, quando pensou que não podia ficar pior, veio o ultrajante e directo insulto de Biden ao presidente russo Vladimir Putin de que ele é um assassino, um “killer”.

E de repente, na terça-feira desta semana, a 13 de abril, chega um comunicado de imprensa da Casa Branca em Washington que Biden falou ao telefone com Putin e propôs uma cimeira em terreno neutro em Viena para restabelecer relações estratégicas estáveis e fiáveis entre os dois países. O conteúdo da conversa divulgada pela Casa Branca, sóbria e num tom diplomático construtivo, cobre os campos de interesses mútuos que precisam de ser acordados.

A declaração oficial publicada subsequentemente pelo Kremlin sobre as conversações entre os dois presidentes coincide em grande parte em conteúdo com a da Casa Branca, embora se acrescente que as conversações tiveram lugar por iniciativa de Biden.

Que diabos se está a passar aqui? Qual é a explicação para esta completa reviravolta, que vem como um raio do céu azul? Ou será possivelmente um truque americano?

Os nossos meios de comunicação de qualidade têm agora a difícil tarefa de encontrar um equilíbrio entre a constante difamação do Estado delinquente da Rússia com o seu terrível governo e o facto de o presidente dos EUA Biden precisar e até pedir aos russos que iniciem negociações com ele no interesse da segurança mútua e da segurança de todo o globo.

A transição irá retirar muito dos meios de comunicação social deste país em particular. Pois ainda na terça-feira, os seus avisos de nova agressão russa contra a Ucrânia estavam a chegar. A sul, na fronteira ocidental da Rússia, o Kremlin destacaria um exército invasor para um novo assalto contra a inocente Ucrânia. Não passou um dia sem que os hipócritas jornalistas dos meios de comunicação ocidentais mentirosos olhassem para a Rússia “com grande preocupação” e exigissem que Putin desescalasse a crise e retirasse as suas tropas da fronteira.

Contudo, a afirmação do Ocidente de que a Rússia acumulou uma força forte, altamente móvel e poderosa na Crimeia e ao longo da fronteira com o Donbass é verdadeira. Contra eles, as unidades fascistas ucranianas, juntamente com o resto do exército ucraniano em dificuldades, não teriam qualquer hipótese numa emergência. Será que os meios de comunicação social ocidentais estão certos nas suas reportagens da Ucrânia? – NÃO! Porque isso é apenas metade da verdade e, por omissão, torna-se uma mentira.

A nossa virtude de fingir que os políticos da NATO e os seus meios de comunicação social apenas nomeiam o efeito, ou seja, o destacamento russo, e não a causa da reacção russa. A causa, na realidade, é a declaração de guerra de facto da Ucrânia contra a Rússia há mais de três semanas. A causa inclui também o facto de, imediatamente após o decreto do presidente ucraniano Zelensky, o governo de Kiev ter iniciado um destacamento maciço de artilharia pesada e unidades blindadas para a fronteira com a Crimeia e a chamada “linha de contacto”.

É esta linha de contacto que separa as tropas das brigadas fascistas e o exército regular ucraniano dos defensores do Donbass ucraniano oriental. São, sobretudo, os fanáticos russofóbos das brigadas fascistas que desde então voltaram a assegurar o rápido aumento do número de violações do cessar-fogo com fogo de artilharia nas aldeias ucranianas orientais.

E quando o outro lado riposta e dispara do Donbass e há mortes entre os atacantes ucranianos, os políticos da NATO voltam a lamentar com uma cara preocupada as provocações russas em vez de trazerem à justiça os perpetradores desta crise do lado ucraniano. O Ocidente teria os meios para o fazer, porque toda a máfia belicista na Ucrânia está na goteira financeira dos EUA/NATO, incluindo a República Federal da Alemanha.

Quando os políticos e os meios de comunicação social escondem do povo, como no caso presente, ligações e causas importantes que são de importância decisiva para a avaliação de uma crise, e das quais mesmo a guerra ou a paz podem depender, então estas não são pecadilhos, mas sim mentiras incendiárias e altamente criminosas. Como veremos mais adiante, os nossos políticos e meios de comunicação social enganaram sem vergonha o povo alemão com exactamente tais mentiras também no presente caso, a fim de aquecer o ambiente e colocar o povo na Alemanha em posição contra os malvados russos.

Ao mesmo tempo, os nossos políticos, com as suas garantias de apoio ocidental à Ucrânia, deram luz verde ao regime de Kiev para uma nova guerra contra a população de língua russa no Donbass e na Crimeia. Sem a contra-marcha russa, esta guerra já teria começado há muito tempo. Uma breve análise das últimas quatro semanas de desenvolvimentos na Ucrânia ajuda a compreender melhor a situação actual.

A 24 de março deste ano, sob pressão de fascistas e ultras de direita, o Presidente ucraniano Zelensky assinou por decreto uma declaração de guerra de facto contra a Rússia.

O Decreto do Presidente da Ucrânia №117/2021 “Sobre a Estratégia de Desocupação e Reintegração do Território Provisoriamente Ocupado da República Autónoma da Crimeia e da Cidade de Sevastopol” estipula (1) que a reconquista da Crimeia à Rússia é agora a política oficial de Kiev. Ao fazê-lo, de acordo com o decreto, “a Ucrânia reserva-se o direito de utilizar todos os meios”, embora “meios diplomáticos” sejam supostamente “a dar preferência”. Mas, como o resto do decreto, isso é apenas fachada.

De facto, o decreto №117/2021 atirou pela janela o único formato diplomático para estabelecer a paz na região, nomeadamente o “Acordo de Minsk”. Este acordo exige, por exemplo, que o regime de Kiev inicie negociações com os anti-fascistas da Ucrânia oriental sobre um estatuto autónomo para o Donbass como parte de uma Ucrânia unida, o que nunca tinha acontecido até agora. E agora não há nada no decreto de Zelensky e nas suas disposições de aplicação de Minsk anexas. De facto, o acordo de Minsk não é mencionado em lado nenhum.

Em vez disso, tudo no decreto tem como objectivo recapturar a Crimea e o Donbass, o que, dadas as realidades no terreno, significaria uma guerra sem fim em pequena escala. E para isso, os belicistas dos EUA têm estado a preparar os seus amigos que odeiam a Rússia na Ucrânia, inclusive com conselheiros militares dos EUA, com entregas de novas armas, tais como drones, sistemas electrónicos para apontar fogo de artilharia, sistemas anti-tanque, e sistemas de defesa aérea portáteis (MANPADS).

Para os defensores das pretensões hegemónicas dos EUA em Washington, uma guerra interminável em pequena escala na fronteira sudoeste da Rússia, sem arriscar as suas próprias baixas, teria apenas vantagens, uma vez que:

– a NATO, cada vez mais atormentada por forças centrífugas, aproximar-se-ia novamente sob a liderança dos EUA,

– a UE imporia sanções ainda mais duras à Rússia.

– a ligação final do gasoduto North Stream II à Alemanha não seria completada.

– E Washington teria a capacidade de intensificar ou reduzir o conflito na Ucrânia à vontade, dependendo do comportamento de Moscovo em outras áreas.

Portanto, uma nova guerra na Ucrânia seria bálsamo para as almas dos falcões americanos, severamente tensas pela ascensão da China.

Entretanto, porém, os belicistas EUA/NATO podem dizer adeus ao seu sonho húmido de uma guerra sem fim em pequena escala ucraniana contra a Rússia. Pois o Kremlin não só acumulou uma força extraordinariamente impressionante nas suas fronteiras com a Ucrânia, como também deixou claro que está preparado para a utilizar se Kiev começar de facto uma nova guerra.

O facto de o novo secretário de Defesa dos EUA Lloyd Austin – anteriormente membro da direcção e lobista do Pentágono para o fabricante de mísseis Raytheon – ter chamado Zelensky no início de abril para lhe prometer “apoio inabalável dos EUA à soberania da Ucrânia”, apesar do seu novo decreto de guerra, pode também ter tido muito a ver com a acutilância da reacção da Rússia. Pois Moscovo interpretou correctamente esta acção no sentido de que Zelensky não teria concordado com o destacamento maciço de tropas do exército ucraniano para a linha de contacto e para a fronteira com a Crimeia sem a aprovação americana ou mesmo sem encorajamento.

A Rússia, também, tem as suas “linhas vermelhas”. O Ocidente conhece bem a Ucrânia. Além disso, o Ocidente sabe que Putin está preparado para agir militarmente se as linhas vermelhas russas forem atravessadas. Já o demonstrou duas vezes: em 2008, após o ataque georgiano às forças de manutenção da paz russas destacadas para proteger a fronteira da Ossétia do Sul, em conformidade com a OSCE. E a segunda vez no apoio aos defensores anti-fascistas no Donbass contra as brigadas fascistas do regime golpista de Kiev pela graça dos EUA. E no entanto, contra o seu melhor juízo, os belicistas ocidentais estão mais uma vez a brincar com o fogo. E no processo parecem prontos a combater os russos até ao último soldado do exército ucraniano, desde que não haja baixas americanas. Só que desta vez Putin aumentou de tal forma a fasquia que os belicistas dos EUA/NATO estão agora a sair em massa.

Zelensky e as suas tropas encontram-se subitamente sozinhos, enfrentando uma esmagadora superioridade russa em qualidade e quantidade. Continua-se a ouvir do Ocidente promessas inabaláveis de solidariedade com a “integridade territorial” da Ucrânia, mas os soldados da NATO que Kiev esperava como reforços e “obstáculos” para os russos não se concretizaram. Ao mesmo tempo, a liderança do exército ucraniano sabe que o moral das tropas é baixo. Quase ninguém que não seja das áreas tribais fascistas da Ucrânia ocidental quer lutar contra os seus irmãos russos.

Ao mesmo tempo, o ministro dos Negócios Estrangeiros russo Serguei Lavrov deixou claro que se a Ucrânia iniciar uma nova guerra, prometeu o fim da “Ucrânia como Estado”. Dado que Moscovo é grave e não teme novas sanções ocidentais, a desilusão instalou-se nas capitais ocidentais.

No entanto, a declaração insana de Manfred Weber, o eurodeputado da CSU, que ameaçou Moscovo com o suicídio da Alemanha se houvesse uma nova guerra na Ucrânia, pertence mais ao departamento de curiosidades. Pois Weber ameaçou Moscovo de parar todas as importações de energia da Rússia.

É como jogar póquer, o Ocidente há muito que finge ter as melhores cartas na Ucrânia. Mas na ronda actual, Moscovo duplicou a aposta e o Ocidente está a fugir do nível de sorteio para ver as cartas do seu adversário. O recuo dos americanos, no entanto, não é uma expressão das suas convicções em tempo de paz; pelo contrário, eles chegaram a compreender que numa emergência – para a qual parecem estar preparados – a Rússia tem as melhores cartas.

Neste contexto, podemos ver o telefonema de Biden com Putin, a sua proposta para uma cimeira nos dois sentidos, e o seu desejo expresso de relações resilientes e estáveis com a Rússia como uma tentativa de sair do dilema EUA-Ucrânia, tanto em termos de política interna como externa, ao mesmo tempo que salva a face. Além disso, a abertura de Biden a uma reunião com Moscovo também pode ter algo a ver com a crescente consciência em Washington de que é uma loucura geoestratégica confrontar a igualdade nuclear da Rússia na Europa e na Ásia com a superpotência económica China, ao mesmo tempo e, para piorar a situação, conduzir os dois países a uma parceria cada vez mais estreita.

De acordo com uma declaração emitida dia 15 de abril pelo porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, no entanto, tal cimeira não terá lugar num futuro próximo. Devido ao grande número de questões, disse ele, é necessário muito tempo de preparação. Se a cimeira proposta por Biden irá ou não realizar-se, disse ele, depende também do comportamento futuro dos Estados Unidos. Em qualquer caso, Peskov disse, Moscovo “não permitirá que a América fale com a Rússia a partir de uma posição de força”. Ambas as nações devem negociar com base na igualdade, disse ele. As sanções contra a Rússia, contudo, não estariam de acordo com esse espírito. Mas isso seria o presidente Putin a decidir por si próprio.

Um pouco mais tarde nessa mesma quinta-feira, o presidente Biden expulsou dez diplomatas russos e impôs novas sanções a mais de 30 indivíduos e organizações russas. Anteriormente, assinou um decreto declarando o Estado de Emergência Nacional e a Lei dos Poderes Económicos de Emergência Internacional (International Emergency Economic Powers Act). A razão, mais uma vez, é a Rússia.

Biden dotou-se de amplos poderes de decisão militares e económicos com o seu decreto de emergência. Entre as justificações que citou estavam “actividades cibernéticas maliciosas contra os Estados Unidos e seus aliados” e a promoção da “corrupção transnacional […] para influenciar governos estrangeiros” e “minar a realização de eleições livres e democráticas e instituições democráticas nos Estados Unidos e seus aliados e parceiros”.

Faz-nos realmente pensar que tipo de erva é que eles fumam na Casa Branca? Será que perderam totalmente o juízo? Ou será que os dois opostos – nomeadamente a abertura de uma cimeira com Putin e, dois dias depois, o novo ataque público contra os malvados russos – fazem parte de uma e mesma estratégia? Esta última poderia, de facto, ser reconciliada se se assumir que, dada a iminente perda de prestígio dos EUA na Ucrânia, Biden precisa de se afundar duramente na Rússia por razões políticas internas. Afinal, essa é a única forma de se tornar menos vulnerável se quiser realmente negociar uma relação estável com Putin.

No entanto, declarar Estado de Emergência nacional é um acto bastante extremo de grande urgência. Esta urgência não parece estar presente nos erros atribuídos à Rússia, mesmo que fossem uma realidade, e é por isso que o estado de emergência não parece apropriado. É possível que o decreto de emergência de Biden esconda razões internas completamente diferentes e urgentes que nada têm a ver com a Rússia, mas que a Rússia, como o suspeito habitual, fornece o pretexto.

Mas talvez também porque, de acordo com relatórios recentes dos EUA, uma estirpe de bactérias comedoras de cérebros está a propagar-se exponencialmente na Casa Branca em Washington.

As ideias expressas no presente artigo / comentário / entrevista refletem as visões do/s seu/s autor/es, não correspondem necessariamente à linha editorial da GeoPol

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