Presidente do Kosovo finalmente perante o TPI

Antoine de Lacoste
Boulevard Voltaire

A agressão da NATO contra a Sérvia em 1999 é provavelmente o pior crime dessa organização. Desencadeada por iniciativa dos Estados Unidos, com o apoio entusiástico da França, Alemanha e Grã-Bretanha, a intervenção resultou em 78 dias de bombardeamentos que mataram milhares de civis e muito pouco pessoal militar! Aqueles que acompanharam ao vivo esta gloriosa expedição recordarão a sombria contagem diária de danos aéreos relatada pelo porta-voz da NATO, Jamie Shea, que invariavelmente concluía as suas observações com o seu cínico comentário de que “também houve danos colaterais”.

Seguiu-se a expulsão do exército sérvio do seu próprio território, a província do Kosovo. Predominantemente povoada por albaneses, rebatizados de kosovares, por esse facto viveu durante quase dez anos com um estatuto autónomo sob a protecção do exército americano, que construiu uma das suas maiores bases no mundo. É claro que o Kosovo proclamou então a sua independência em 2008, ao contrário de tudo o que foi dito na altura, mas estamos habituados a isso. Passemos adiante o êxodo de milhares de sérvios forçados a fugir do seu próprio país.

Para justificar o ataque, precedeu uma formidável campanha de desinformação. O conceito de armas de destruição maciça ainda não tinha sido inventado, mas os massacres imaginários foram habilmente encenados, com expressões de genocídio ou limpeza étnica a serem utilizadas de forma branda, é claro. O ponto alto da história foi a invenção de um vasto plano para a deportação dos “kosovares” revelado por Joschka Fisher, ministro ecologista dos Negócios Estrangeiros da Alemanha. Este plano, chamado “Ferradura”, era falso, mas justificava a intervenção. Um excelente artigo no Le Monde Diplomatique de abril de 2019 detalha tudo isto sob o título: “A maior mentira do fim do século XX”. Não se poderia dizer melhor.

Os nossos corajosos guerreiros da NATO inauguraram assim a intervenção humanitária, uma ideia conveniente que pode ser utilizada com a frequência que for necessária. Mas é uma pena que não tenham abordado outra questão humanitária, a do destino dos prisioneiros sérvios, civis e militares, mas ainda jovens, que desapareceram para sempre.

Muito em breve, surgiu um rumor de tráfico de órgãos. Por trás dela, a sombra do UÇK, este movimento paramilitar albanês, liderado por Hashim Thaçi. Os seus abusos foram regularmente denunciados por Belgrado, mas como se pode acreditar num sérvio?

Felizmente, foram realizadas investigações sérias, nomeadamente pelo jornalista Pierre Péan (Kosovo, uma guerra “justa” para um Estado mafioso) ou pelo diplomata Dick Marty, encomendado pelo Conselho da Europa (Uma certa ideia de justiça). Não deixam margem para dúvidas sobre a realidade do tráfico de órgãos. Questionado sobre este assunto, Bernard Kouchner, nomeado em 1999 como representante especial das Nações Unidas no Kosovo, desatou a rir em voz alta perante as câmaras. A cena ainda é visível na Internet.

Tudo isto não impediu Thaçi de se tornar presidente do Kosovo em 2016 e de ser o verdadeiro chefe desde 1999, sob a tutela americana.

Desta vez o laço apertou-se e os seus velhos amigos deixaram-no ir. Pois foi sob pressão dos aliados ocidentais do Kosovo que o Tribunal Especial da Haia ordenou a prisão de Thaçi e de três antigos líderes do UÇK. Devem ser responsabilizados não só pelo crime de tráfico de órgãos, mas também pela tortura, perseguição, detenção arbitrária, tratamento cruel e desaparecimento forçado. É realmente uma boa ideia ter ajudado estas boas pessoas…

Thaçi, está claro, demitiu-se no início de novembro, depois de ter sido acusado e rendido à Justiça. Ele dorme, hoje, na prisão da Haia, como Milošević vinte anos antes. Meditará sobre a fiabilidade do seu aliado americano, mas consolar-se-á dizendo que o trabalho foi feito.

As ideias expressas no presente artigo / comentário / entrevista refletem as visões do/s seu/s autor/es, não correspondem necessariamente à linha editorial da GeoPol

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