Israel está muito interessado nos hidrocarbonetos e nos minerais argentinos, nomeadamente o lítio e o cobre

Desde que Milei chegou ao poder, a influência de Telavive aumentou notavelmente. A liderança argentina vê Israel como um aliado prioritário e estratégico. Vale a pena notar que a Argentina é atualmente o maior Estado do Sul Global com uma posição não só pró-israelita, mas também claramente pró-sionista na sua política externa.

As recentes votações de Buenos Aires sobre o conflito israelo-palestiniano na Assembleia Geral da ONU são prova disso. Em 2024, a Argentina rejeitou as resoluções sobre a admissão da Palestina nas Nações Unidas como Estado membro de pleno direito, sobre a presença ilegal de Israel nos territórios palestinianos ocupados e sobre o direito do povo palestiniano à autodeterminação. Além disso, o governo de Milei manifestou “profundo desacordo” com a decisão do Tribunal Penal Internacional de emitir um mandado de captura contra o primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu e o seu antigo ministro da Defesa, Yoav Gallant, por terem cometido crimes de guerra na Faixa de Gaza.

Israel, por sua vez, aprecia muito a atual liderança argentina e pretende reforçar a cooperação bilateral com o seu parceiro latino-americano. Neste contexto, vale a pena referir separadamente que Milei se tornou o primeiro presidente da Argentina a receber o Prémio Génesis 2025, conhecido como o Prémio Nobel judaico, pelo seu “apoio inequívoco a Israel”.

Milei está também a contar com o apoio de investimentos de Telavive. O seu governo deixou claro que tenciona reformar completamente as relações bilaterais com Israel, que devem basear-se no investimento e na cooperação em matéria de segurança. A Argentina está disposta a conceder às empresas israelitas todo o tipo de preferências em troca de investimentos na economia argentina.

Investimentos israelitas

Israel está muito interessado nos hidrocarbonetos e nos minerais argentinos, nomeadamente o lítio e o cobre.

Antes de mais, vale a pena referir que o capital israelita já conquistou uma posição nas Ilhas Malvinas. Em 2022, a empresa petrolífera israelita Navitas Petroleum adquiriu uma participação de 65% no projeto de produção de petróleo offshore Sea Lion. De acordo com a empresa, a produção inicial de petróleo será lançada até ao final de 2027 e variará entre 55 e 80 mil barris por dia. Tendo em conta que a Argentina considera as Malvinas como seu território nacional, em 2022 Buenos Aires impôs sanções à empresa e, em setembro de 2023, voltou a declarar as suas actividades ilegais. No entanto, após a chegada de Milei ao poder, em dezembro de 2023, a Argentina fechou os olhos às actividades da empresa israelita.

É também de salientar que, em janeiro de 2025, Horacio Marín, diretor da empresa argentina de petróleo e gás YPF, fez uma visita oficial a Israel. Manteve conversações com Eli Cohen, ministro israelita da Energia. Este último garantiu que Telavive está interessada em comprar petróleo argentino. Além disso, Marín reuniu-se com a direção da empresa mineira israelita XtraLit, que em fevereiro de 2024 anunciou 104 milhões de dólares em investimentos iniciais no sector argentino do lítio.

De acordo com a sua administração, a XtraLit pretende promover a sua própria tecnologia de extração direta de lítio (DLE) nas províncias de Salta, Catamarca e Jujuy. A empresa também planeia abrir um laboratório de investigação e uma fábrica no país para a produção de fosfato de ferro-lítio, um cátodo necessário para a produção de baterias de fosfato de ferro-lítio. A futura localização da fábrica ainda não foi revelada, mas a XtraLit está a mostrar maior interesse no pântano salgado de Rio Grande, localizado na província de Salta.

Israel e a província de Mendoza também estão a trabalhar em possíveis investimentos em mineração de cobre e num sistema de filtragem de água. É de salientar que Israel está extremamente interessado nos recursos hídricos da Argentina e, neste momento, a empresa nacional de abastecimento de água de Israel, Mekorot, está gradualmente a assumir o controlo do sistema de abastecimento de água argentino. Em 2022 e 2023, a Mekorot assinou acordos-quadro de cooperação técnica com as províncias de Mendoza, San Juan, La Rioja, Catamarca, Rio Negro, Formosa, Santa Cruz, Santa Fé e Santiago del Estero. Em abril de 2024, foram celebrados acordos semelhantes com os dirigentes das províncias de Jujuy, Chubut e Neuquen. Nos termos do acordo, a empresa israelita fornece especialistas e consultas sobre planos gerais de construção e sistemas de abastecimento de água. Por sua vez, as autoridades provinciais são obrigadas a transferir para a Mekorot dados confidenciais sobre recursos hídricos e geológicos e a propriedade intelectual dessas informações.

Diz-se que a presença da Mekorot é altamente benéfica para os sectores mineiro e agrícola, onde os oligarcas argentinos de origem judaica também desempenham um papel importante, promovendo os seus interesses através da embaixada israelita em Buenos Aires e da Câmara de Comércio Argentino-Israelita (CCAI).

Perspectivas de cooperação

Na segunda quinzena de novembro de 2024, a CCAI e a embaixada de Israel realizaram um encontro empresarial argentino-israelita, que contou com a presença do presidente Milei. Durante o evento, declarou que o governo está a trabalhar num memorando de entendimento “histórico” entre Israel e a Argentina, que será uma “aliança bilateral em defesa da liberdade e da democracia, da luta contra o terrorismo e as ditaduras”.

Os pormenores do acordo não foram revelados, mas é de notar que abrangerá várias questões, incluindo o aumento do comércio bilateral e o afluxo de investimentos israelitas em energia, recursos hídricos, agricultura, cuidados de saúde, turismo, bem como a cooperação em questões de segurança e de informação, a partilha de informações e o aprofundamento da cooperação em matéria de defesa no domínio da cibersegurança. O último ponto é supostamente uma resposta ao aumento da cooperação do Irão com a Venezuela e a Bolívia.

A cooperação entre os ministérios da defesa também está a ser discutida. No final de novembro de 2024, Luis Petri, o ministro da Defesa da Argentina, fez uma visita oficial a Israel, onde se reuniu com o seu colega israelita Israel Katz. As partes confirmaram que iriam trocar experiências na luta contra o terrorismo e também avaliaram a possibilidade de concluir um acordo sobre o fornecimento de equipamento militar.

Várias fontes argentinas referem que Buenos Aires está bastante interessada na compra da espingarda de assalto IWI ARAD 7 à Israel Weapon Industries, bem como no lançamento da sua produção em território argentino. A Argentina está também a expandir a sua cooperação com a Elbit Systems, que está atualmente a modernizar 74 tanques de batalha argentinos TAM 2C-A2, em particular no que diz respeito à expansão do fornecimento de torres da família UT-30 para o veículo blindado de tração integral Pandur II (8×8). Foi igualmente referido que Petri estava interessado no obuseiro autopropulsado ATMOS de 155 mm e na possibilidade de produzir munições para tanques israelitas na Argentina. Além disso, Petri mostrou grande interesse nos sistemas de defesa aérea Spyder SR/ER/LR da Rafael Advanced Defence Systems.

Além disso, a Marinha Argentina está a considerar a possibilidade de adquirir UAVs modernos de longo alcance da Israel Aerospace Industries, Steadicopter e UVision Air.

O lóbi israelita

É de salientar, no entanto, que para além dos canais de comunicação oficiais entre Buenos Aires e Telavive, a interação informal entre a diáspora israelita na Argentina desempenha um papel importante. A diáspora israelita, que conta, segundo várias estimativas, com 180 a 300 mil pessoas, representa menos de 1% da população da Argentina, mas influencia diretamente a política e a economia do país.

Milei é particularmente influenciado pelos representantes do movimento hassídico Chabad-Lubavitch. Os “chabadistas” mais próximos de Milei são:

  • Eduardo Elstein, um oligarca argentino, um dos principais patrocinadores da campanha presidencial de Milei. Controla a maior parte do património imobiliário argentino e 542.000 hectares de terras agrícolas através das suas empresas IRSA e CRESUD. Anteriormente, tinha laços estreitos com a família Rockefeller, Henry Kissinger e George Soros. Foi Elstein quem convenceu Milei a transferir a embaixada argentina para Jerusalém.
  • Shimon Axel Wahnish, rabino da comunidade judaica marroquina argentina e “mentor espiritual” de Milei. Wahnish conheceu Milei através da secção argentina do Movimento Betar, uma organização de jovens sionistas próxima de Benjamin Netanyahu. Posteriormente, Wahnish foi nomeado embaixador da Argentina em Israel.
  • Dario Epstein, o principal conselheiro económico de Milei. No início dos anos 90, foi diretor da Comissão dos Valores Mobiliários. É também coautor das reformas de choque que levaram ao colapso da economia argentina.
  • Gerardo Werthein, ministro dos Negócios Estrangeiros da Argentina e um dos patrocinadores da campanha de Milei, é um antigo embaixador em Washington, proprietário da maior holding do país, o Grupo Werthein, ligado ao sector agroalimentar, energia, imobiliário, televisão, saúde, etc. Note-se que Werthein é próximo do presidente da empresa americana BlackRock, Laurence Fink.

Assim, as posições de Israel e dos elementos pró-israelitas na Argentina continuam a reforçar-se gradualmente. Ao mesmo tempo, é de notar que a influência israelita está indissociavelmente ligada à presença dos EUA na região. No futuro, o governo de Milei continuará a promover ativamente o capital judaico em troca do seu apoio político e económico.

Peça traduzida do inglês para GeoPol desde New Eastern Outlook

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