Da geopolítica do petróleo para a do gás

A eclosão da guerra na Síria esteve directamente relacionada com a concorrência global pelos recursos energéticos, como bem explica este magistral artigo de 2012, da autoria do professor da Universidade de Damasco, presidente do Centro de Estudos Estratégicos e Documentação


Por Imad Fawzi Shueib

Neste momento em que se está assistindo ao colapso da zona do euro, e que uma grave crise económica levou os Estados Unidos a acumular uma dívida superior a 14,9 biliões de dólares ($14,9 trillion); no momento em que a influência americana declina em contraste com os países emergentes que conformam os BRICS, torna-se evidente que a chave para o êxito económico e o predomínio político reside principalmente no controle da energia do século XXI: o gás.

A Síria tornou-se alvo justamente por estar no meio do mais importante reservatório de gás do planeta. O petróleo foi a causa das guerras do século XX. Hoje estamos vivendo o surgimento de uma nova era: a era das guerras do gás.

Após a queda da União Soviética, ficou claro para os russos que a corrida armamentista havia lhes prejudicado em demasia, sobretudo no campo energético, onde faltou a energia necessária ao processo de modernização industrial do país. Os Estados Unidos, por outro lado, tinham conseguido desenvolver e impor, sem muitas dificuldades, a sua política internacional nesta área graças a sua presença por décadas nas áreas de petróleo. Os russos decidiram, em seguida, posicionar-se nas fontes de energia, tanto nas que produzem petróleo, como nas empresas de produção de gás. Considerando que, devido à sua distribuição internacional, o sector de petróleo não oferecia boas perspectivas, Moscovo apostou pelo gás, pela sua produção, transporte e sua comercialização em larga escala. Tudo começou em 1995, quando Vladimir Putin traçou a estratégia da Gazprom: partindo desde as áreas de produção de gás da Rússia até Azerbaijão, Turquemenistão, Irão (para comercialização), até o Médio Oriente. A verdade é que os projectos Nord Stream e South Stream demonstraram os esforços de Putin e seu governo em situar a Rússia na arena internacional na área energética, que já desempenha um papel importante na economia europeia, e que, durante as próximas décadas, dependerá do gás como alternativa ao petróleo, ou como complemento deste, quando deu prioridade ao gás, em detrimento do petróleo.

A partir desse contexto, era urgente para Washington implementar seu próprio projecto: Nabbuco, uma estratégia que concorria com a dos russos e que jogava para desempenhar um papel decisivo na determinação da política energética para os próximos 100 anos.

Facto é que o gás será a principal fonte de energia do século XXI, uma alternativa diante da redução das reservas mundiais de petróleo e, ao mesmo tempo, uma fonte de energia limpa. O controle das zonas gasíferas no mundo disputado entre as antigas potências e as emergentes é o elemento que dá origem a um conflito internacional com manifestações de carácter regional.

É evidente que a Rússia aprendeu com as lições do passado, pelo menos no que se refere àquilo que, do ponto de vista da economia contribuiu para o colapso da União Soviética, que foi precisamente a falta de controle dos recursos de energia indispensáveis para o desenvolvimento da estrutura industrial. A Rússia compreendeu que o gás está destinado a ser a fonte de energia do próximo século.

A historia da “partida de xadrez” do gás

Um primeiro olhar para o mapa do gás revela que este recurso está localizado nas seguintes regiões, o mapa diz respeito tanto à situação dos depósitos como ao acesso as áreas de consumo:

1. Rússia: Vyborg e Beregvya
2. Anexo à Rússia: Turquemenistão
3. Nos arredores mais ou menos imediatos da Rússia: Azerbaijão e Irão
4. Influência da Rússia: Geórgia
5. Mediterrâneo Oriental: Síria e Líbano
6. Qatar e Egipto

Moscovo trabalhou rapidamente sobre dois eixos: o primeiro foi a criação de um projecto sino-russo a longo prazo, com bases no crescimento económico do Bloco de Shangai; o segundo foi garantir o controle das reservas de gás. Com este desenho, foram assentadas as bases dos projectos Nord Stream e South Stream, que se confronta com o projecto americano Nabucco, apoiado pela União Europeia, com vistas ao gás do Mar Negro e do Azerbaijão. Uma corrida estratégica para o controle das reservas de gás estabeleceu-se entre os dois projectos distintos.

Os projectos da Rússia

O projecto Nord Stream conecta directamente a Rússia com a Alemanha através do Mar Báltico, até Weinberg e Sassnitz, sem passar pela Bielorússia. O projecto South Stream começa na Rússia, atravessa o Mar Negro até a Bulgária e divide-se passando pela Grécia e pelo sul da Itália, por um lado, e pela Hungria e a Áustria, pelo outro lado.

O projecto dos Estados Unidos

O projecto Nabucco parte da Ásia Central e dos arredores do Mar Negro, passando através da Turquia – onde se situa a infra-estrutura de armazenamento – , atravessa a Bulgária, passa pela Roménia, Hungria e chega até a Áustria, de onde é direcionado para a República Checa, Croácia, Eslovénia e Itália. Originalmente, deveria passar pela Grécia, idéia que foi abandonada devido à pressão da Turquia.

Por suposição, o Nabucco deveria ser o concorrente dos projectos russos. O Nabucco estava previsto para 2014, mas diversos problemas técnicos provocaram seu adiamento até 2017 [acabou por ser abandonado]. A partir desse adiamento, o projecto russo começou a ganhar a batalha pelo gás, mas cada parte trata sempre de estender seu próprio projecto para novas áreas.

Isso tem haver, por um lado com o gás iraniano, que os Estados Unidos pretendia incorporar ao projecto Nabucco conectando-o ao ponto de armazenamento de Erzurum, na Turquia. E, também, com o gás vindo do Mediterrâneo Oriental, ou seja, Síria, Líbano e Israel.

Em julho de 2011, o Irão assinou vários acordos para o transporte do seu gás através do Iraque e da Síria. Por conseguinte, a Síria tornou-se o principal centro de armazenagem e de produção, vinculado, também, com as reservas do Líbano. Abriu-se assim um espaço geográfico, estratégico e energético completamente novo, que abarca Irão, Iraque, Síria e o Líbano.

Os obstáculos que esse novo projecto (Nabucco) enfrenta há mais de um ano, dão uma idéia do grau de intensidade na luta que o império está travando pelo controle da Síria e do Líbano. Ao mesmo tempo, esclarece o papel da França, que considera o Mediterrâneo Oriental sua própria zona de influência histórica, por conseguinte, destinada a satisfazer os interesses franceses, logo, isso justifica precisamente, recuperar o terreno perdido desde II Guerra Mundial. Noutras palavras, a França pretende desempenhar um papel importante no mundo do gás, para isto já adquiriu um tipo de “seguro saúde”, com a Líbia, agora pretende obter um “seguros de vida” que somente as riquezas da Síria e do Líbano podem propiciar. A Turquia, por seu lado, sente-se excluída desta guerra do gás devido ao atraso do projecto Nabucco e porque não tem nada a ver com os projectos South e Nord Stream. O gás do Mediterrâneo Oriental parece escapar-lhe inexoravelmente à medida que se afasta do projecto Nabucco.

O Eixo Moscovo-Berlim

Para realizar os dois projectos, Moscovo criou a empresa Gazprom em 1990. A Alemanha, ansiosa por se livrar de uma vez por todas das consequências da Segunda Guerra Mundial, preparou-se para se juntar aos dois projectos, tanto em termos de instalações e de revisão do gasoduto norte e as instalações de armazenamento do South Stream na sua área de influência, principalmente na Áustria.

A empresa Gazprom foi fundada com a colaboração de Hans-Joachim Gornig, um alemão conhecido em Moscovo, ex-vice presidente da companhia alemã de petróleo e gás industrial que supervisionou a construção da rede de gasodutos da RDA. Até outubro de 2011, o director da Gazprom foi Vladimir Kotenev, ex-embaixador russo na Alemanha. 

A Gazprom assinou diversas transações com empresas alemãs, em primeiro lugar com aquelas que cooperam com o projecto Nord Stream, como as gigantes E.ON, do sector de energia, e a BASF, do sector da indústria química. No caso da E.ON, existem cláusulas que garantem tarifas preferenciais quando há alta dos preços. Isso significa uma espécie de subsídio “político” da Rússia às empresas de energia alemãs. 

Moscovo aproveitou a liberalização dos mercados europeus do gás para forçá-los a desconectar as rede de distribuição das instalações de produção. Superados os confrontos antigos entre a Rússia e Berlim, abriu-se uma fase de cooperação económica baseada em facilitar a enorme dívida que pesava sobre os ombros da Alemanha, de uma Europa excessivamente endividada pelo domínio americano. Trata-se de uma Alemanha que considera que o espaço germânico (Alemanha, Áustria, República Checa e Suíça) está destinado a converter-se no centro da Europa, sem ter de suportar as consequências do envelhecimento de todo o continente, ou da queda de outra superpotência. 

As iniciativas alemãs da Gazprom, empresa conjunta (joint venture) da Wingas com a Wintershall, uma subsidiária da BASF, é a maior produtora de petróleo e gás da Alemanha e controla 18% do mercado de gás. A Gazprom outorgou aos seus principais parceiros alemãs a participação nos seus activos russos, nunca visto anteriormente. Assim, a BASF e E.ON controlam cada uma cerca de um quarto dos campos de gás de Lujno-Rousskoie, que alimentarão em grande parte o circuito Nord Stream. Não será coincidência se a equivalente alemã da Gazprom, chamada de Gazprom Germania chegar a ser proprietária de 40% da Austrian Centrex Co., empresa austríaca especializada em armazenamento de gás e se destina a ampliar-se até ao Chipre. 

Esta expansão não é certamente do agrado da Turquia, país ansioso pela sua participação no projecto Nabucco. A participação que consistiria em armazenar, comercializar e transportar um volume de gás que chegaria a 31.000 milhões de metros cúbicos de gás por ano, cifra que poderia crescer para 40.000 milhões ao ano, um projecto que faz com que Ancara seja cada vez mais dependente das decisões Washington e da NATO, sobretudo tendo em conta as várias recusas aos seus pedidos de adesão à União Europeia. 

Os vínculos estratégicos determinados pelo gás são cada vez mais decisivos na arena política: o lobby de Moscovo junto ao Partido Social Democrata (SPD) alemão, na Renânia do Norte-Vestfália, onde há uma importante base industrial, centro do conglomerado alemão RWE, fornecedor de eletricidade e onde se situa uma subsidiária da E.ON.

Hans-Joseph Fell, responsável pela política de energia dos Verdes, reconheceu a existência dessa influência. Segundo ele, as 4 empresas alemãs vinculadas à Rússia têm um papel importante na definição da política energética alemã. Estas empresas contam com a Comissão de Relações Económicas da Europa Oriental, – isto é, com empresas que mantêm contatos económicos muito próximos com a Rússia e com os países do antigo bloco soviético – Comissão que dispõe, por sua vez, de uma rede muito complexa de influências sobre os ministros e a opinião pública. Na Alemanha, a discrição é a regra no que diz respeito à crescente influência da Rússia, com base no princípio de que é altamente necessário melhorar a “segurança energética” na Europa.

É interessante notar que a Alemanha considera que a política da União Europeia destinada a resolver a crise do euro pode prejudicar os investimentos germano-russos. Esta razão, entre outras, explica a relutância da Alemanha para o resgate do euro, moeda muito sobrecarregada pelas dívidas da Europa, apesar do bloco germânico poder suportar essas dívidas. Além disso, sempre que os demais países europeus se opõem à sua política com a Rússia, a Alemanha declara que os planos utópicos da Europa não são viáveis e que, inclusive, poderiam levar a Rússia a vender o seu gás na Ásia, o que colocaria em risco a segurança energética da Europa. 

Este casamento por interesses entre germânicos e os russos está enraizado no legado da Guerra Fria: três milhões de russos vivem actualmente na Alemanha, representando a maior comunidade estrangeira desse país, depois da comunidade turca. Putin também era favorável à utilização da rede de responsáveis da RDA, que favoreceu os interesses das empresas russas na Alemanha, sem mencionar o recrutamento de ex-agentes da Stassi, como directores de pessoal e finanças da Gazprom Germania, assim como o director financeiro do consórcio Nord Stream, Warnig Matthias, quem, segundo o Wall Street Journal, ajudou Putin a recrutar espiões em Dresden, na época em que o próprio Putin era agente do KGB. É certo, no entanto, que o uso que a Rússia tem dado às suas antigas relações não tem sido prejudicial para a Alemanha, uma vez que os interesses de ambas as partes têm sido beneficiados sem favoritismo para qualquer lado.

O projecto Nord Stream, a principal ligação entre a Rússia e a Alemanha, foi inaugurado recentemente com um condutor que custou 4,700 milhões de euros. Apesar deste condutor ligar a Rússia com a Alemanha, dado o reconhecimento dos europeus do facto de este projecto garantir a segurança energética da Europa, França e Holanda foram forçados a declarar que era de facto um “projecto europeu”. É importante mencionar, nesse sentido que Rainer Lindner, director-executivo do Comité das Relações Económicas da Europa de Leste declarou, com toda a seriedade do mundo que se tratava realmente de “um projecto europeu e não de um projecto alemão e que [o projecto] não encerraria a Alemanha em maior dependência da Rússia”. Esta declaração ressalta a inquietação provocada pelo aumento da influência russa na Alemanha. A verdade é que o projecto Nord Stream é, pela sua estrutura, moscovita e não europeu. 

Os russos podem paralisar à sua vontade a distribuição de energia na Polónia e em vários países, isso sem falar que terão todas as condições de vender o gás para a melhor a oferta. No entanto, a Alemanha é de muita importância para a estratégia da Rússia, como plataforma que necessita para desenvolver sua estratégia continental, especialmente considerando que a Gazprom Germania participa de 25 projectos cruzados, em países como a Grã-Bretanha, Itália, Turquia, Hungria, entre outros. Isto leva-nos a crer que a Gazprom está prestes a se tornar, em pouco tempo, uma das maiores empresas do mundo, se não se tornar a mais importante.

Os gasodutos Nord Stream, South Stream e Nabucco

Os dirigentes da Gazprom não só desenvolveram o seu projecto, como também conseguiram conter o projecto Nabucco. A Gazprom detém 30% do projecto envolvendo a construção de uma segunda linha condutora de gás para o leste, seguindo aproximadamente a mesma rota prevista do projecto Nabucco. Os próprios partidários dessa segunda conduta confessam que se trata de um projecto “político” destinado a proporcionar uma demonstração de força ao travar e até mesmo bloquear o projecto Nabucco. Moscovo esforçou-se inclusive por comprar gás na Ásia central e no Mar Cáspio para enterrar este projecto e ridicularizar Washington politica, económica e estrategicamente.

A Gazprom está explorando instalações vinculadas ao gás na Áustria, ou seja, no entorno estratégico da Alemanha, além de alugar instalações na Grã-Bretanha e na França. São, no entanto, as importantes estruturas de armazenamento na Áustria, que serão usadas para redesenhar o mapa energético de Europa, já que irão prover a Eslovénia, a Eslováquia, a Croácia, a Hungria, a Itália e a Alemanha. A essas instalações deve ser adicionado o centro de armazenamento que a Gazprom está construindo com a cooperação da Alemanha, capacitando desta forma a exportação de gás para os principais centros de consumo na Europa Ocidental.

A Gazprom criou uma instalação comum de armazenamento com Sérvia para fornecer gás à Bósnia-Herzegovina e à própria Sérvia. Também em curso, a realização de estudos de viabilidade sobre métodos de armazenamento semelhantes na República Checa, Roménia, Bélgica, Grã-Bretanha, Eslováquia, Turquia, Grécia e, inclusive, na França. 

A Gazprom reforça a posição de Moscovo, fornecedor de 41% do gás consumido na Europa. Isto representa uma mudança substancial nas relações entre o Oriente e o Ocidente, a curto, médio e longo prazo. Também indica um declínio da influência norte-americana, representada pelos escudos antimísseis, e verifica-se o estabelecimento de uma nova organização internacional cujo pilar fundamental será a gás. Tudo isso explica a intensificação da luta pelo gás, desde a costa oriental do Mediterrâneo até o Médio Oriente.

Nabucco e Turquia em dificuldades 

Era de supor que o Nabucco transportaria gás até a Áustria através de 3.900 km do território turco e que estava projectado para fornecer anualmente, para os mercados europeus, 31.000 milhões de m3 de gás natural provenientes do Médio Oriente e da bacia do Cáspio. A difícil situação da coligação NATO-EUA-França para eliminar os obstáculos aos seus interesses em matéria de abastecimento de gás no Médio Oriente, principalmente na Síria e no Líbano, reside na necessidade de assegurar a estabilidade e o consentimento do entorno quando se fala de infra-estruturas e investimentos que requerem a indústria do gás. A resposta Síria foi assinar contrato que autoriza a passagem do gás iraniano no seu território, passando através do Iraque. A batalha é, portanto, centrada em torno do gás sírio e libanês. Alimentará ele o Nabucco ou o South Stream?

O consórcio Nabucco é composto por várias empresas: a alemã REW, a austríaca OML, a turca Botas, a búlgara Energy Holding Company e a romena Transgaz. Há 5 Anos [2007], os custos iniciais foram estimados eram de 11.200 milhões de dólares, mas até o ano 2017 poderia chegar a 21.400 milhões. Isso levanta inúmeras questões à sua viabilidade económica, já que a Gazprom tem contratos com vários países que deveriam alimentar o Nabucco, que já não pode contar com os excedentes do Turquemenistão, sobretudo após as tentativas sem sucesso para capturar o gás iraniano. Esse último factor é um dos segredos que são desconhecidos sobre a batalha pelo Irão, país que ultrapassou a linha vermelha no seu desafio aos Estados Unidos e Europa ao escolher o Iraque e a Síria como rotas para o trajecto de uma parte do seu gás.

Assim, a maior esperança do Nabucco é o abastecimento com o gás do Azerbaijão e o reserva de Shah Deniz, convertida em quase a única fonte de aprovisionamento de um projecto que parece ter fracassado sem ter começado. Isso é o que se segue, por um lado, da aceleração da assinatura de contractos que Moscovo concluiu para a compra de fontes inicialmente destinadas ao Nabucco e das dificuldades surgidas, por outro lado, ao tratar de impor mudanças geopolíticas no Irão, Síria e Líbano. E tudo isto ocorre num momento em que a Turquia reclama sua participação no projecto, quer seja mediante um contrato com o Azerbaijão para a compra de 6.000 milhões de m³ de gás em 2017, ou através da anexação da Síria e do Líbano, com a esperança de impedir o trânsito do petróleo iraniano ou receber uma parte da riqueza gasífera do Líbano e da Síria. Parece que a possibilidade de ter um lugar na nova ordem mundial exige prestar certa quantidade de serviços, que vão do apoio militar, até servir de base ao dispositivo estratégico do escudo anti-mísseis.

Talvez a principal ameaça para o Nabucco seja a tentativa russa de fazê-lo fracassar através da negociação de contratos mais vantajosos a favor da Gazprom para o Nord Stream e South Stream, que invalidaria os esforços dos Estados Unidos e da Europa, diminuiria a influência de ambos e perturbaria a política energética dessas concorrentes no Irão e/ou no Mediterrâneo. Além disso, a Gazprom poderia tornar-se um dos investidores ou operadores mais importantes das novas reservas de gás na Síria e no Líbano. Não por acaso, a 16 de agosto de 2011, o ministro do Petróleo da Síria anunciou a descoberta de um poço de gás em Qara, perto de Homs, cuja capacidade seria de 400.000 m³ por dia (146 milhões de m³ por ano), para já não mencionar a importância do gás existente na sua costa mediterrânica.

Os projectos Nord Stream e South Stream, por conseguinte, reduziram a influência política dos Estados Unidos, que agora parecem ter ficado para trás. Os sintomas de hostilidade entre os estados europeus e a Rússia foram atenuados, mas a Polónia e os Estados Unidos não parecem dispostos a renunciar. No final de outubro de 2011, estes dois países anunciaram a alteração de sua política de energia como consequência da descoberta de reservas europeias de carvão que deveriam diminuir a dependência em relação à Rússia e ao Médio Oriente. Parece ser uma meta ambiciosa, mas só possível a longo prazo devido a inúmeras etapas previas exigidas para a comercialização já que se trata de um tipo de carvão encontrados em rochas sedimentares a milhares de metros abaixo da terra, que requer o uso de técnicas hidráulicas de fractura e alta pressão para libertar o gás e sem falar ou considerar os riscos para o ambiente.

A participação da China

A cooperação sino-russa no campo energético é o motor da parceria estratégica entre os dois gigantes. De acordo com especialistas, constitui inclusive a “base” do duplo veto em defesa da Síria no Conselho de Segurança.

Esta operação não tem que a ver unicamente com o abastecimento da China em condições preferenciais. A China participa directamente na distribuição de gás, através da aquisição de activos e de instalações, bem como em um projecto de controle conjunto das redes de distribuição. Paralelamente, Moscovo mostra sua flexibilidade nos preços do gás, desde que tenha acesso ao ambicionado mercado interno chinês. Se tem garantido, portanto, que os peritos russos e chineses trabalhem juntos nos seguintes campos: 

  • Coordenação de estratégias energéticas
  • Previsão e prospecção
  • Desenvolvimento dos mercados
  • Eficiência energética
  • Fontes alternativas de energia

Outros interesses estratégicos comuns estão relacionados com os riscos que representa o projecto americano de ‘escudo antimísseis’. Washington tem envolvido não apenas o Japão e Coreia do Sul, mas no início de setembro de 2011, convidou também a Índia a aderir ao projecto. Isto traz como consequência que as preocupações de ambos os países se cruzam no momento em que Washington trata de reactivar sua estratégia na Ásia central ou em seja, na Rota da Seda.

Essa estratégia é a mesma que George Bush tinha empreendido (o projecto da Grande Ásia Central) com vistas a contrariar, com a colaboração da Turquia, a influência da Rússia e da China, resolver a situação no Afeganistão até 2014 e impor a força militar da NATO em toda região. O Uzbequistão já sinalizou que poderia acomodar a NATO, e Vladimir Putin tem avaliado que o que poderia fazer fracassar as investidas do ocidente e impedir que os Estados Unidos prejudique a Rússia seria a expansão do espaço Rússia-Cazaquistão- Bielorrússia, em cooperação com Pequim.

O panorama dos mecanismos da actual luta internacional à ideia do processo existente de formação de uma nova ordem internacional, com base na luta pela supremacia militar e cujo elemento central é a energia, com o gás em primeiro lugar.

O gás da Síria

Quando Israel empreendeu a extração de petróleo e gás a partir de 2009, ficou claro que a bacia do Mediterrâneo havia-se somado ao jogo e que haveria duas possibilidades: ou a Síria seria alvo de um ataque; ou toda a região viveria em paz, pois supõe que o século XXI seja o século da energia limpa.

De acordo com o Washington Institute for Near East Policy (WINEP, think-tank da AIPAC), a bacia do Mediterrâneo contém as maiores reservas de gás e é, precisamente, na Síria onde se localizam as mais importantes. Este mesmo Instituto também emitiu a hipótese de que a batalha entre a Turquia e Chipre se intensificará porque a Turquia não pode aceitar a perda do projecto Nabucco (apesar do contrato assinado com Moscovo em dezembro de 2011 para o transporte de grande parte do gás de South Stream através da Turquia).

A revelação do segredo do gás sírio dá uma ideia da importância do que está realmente em jogo. Quem tenha o controle da Síria poderá controlar o Médio Oriente. E a partir da Síria, portão da Ásia, terá em suas mãos a chave da Rússia e, também da China, através da Nova Rota da Seda, e assim poderá dominar o mundo neste século, já que é o século do gás.

É esta a razão pela qual os signatários do acordo de Damasco, que permite que o gás iraniano passe pelo Iraque e chegue ao Mediterrâneo, criando um novo espaço geopolítico e cortando a linha vital do projecto Nabucco, declararam na época que “A Síria é a chave da nova era“.

Imagem de capa por World Bank Photo Collection sob licença CC BY-NC-ND 2.0

As ideias expressas no presente artigo / comentário / entrevista refletem as visões do/s seu/s autor/es, não correspondem necessariamente à linha editorial da GeoPol

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