O mundo está a mudar e as nações ricas precisam de tomar consciência

Apenas há poucos anos teria sido impensável para a Arábia Saudita e o Irão se juntarem ao mesmo grupo que os BRICS, no entanto, aqui estamos nós

Por James ONeill


Uma das características notáveis dos últimos anos tem sido a crescente divisão entre as potências ricas do planeta e as restantes. O primeiro grupo é constituído principalmente pelas nações europeias, mais os Estados Unidos, Canadá, Austrália, Nova Zelândia e Japão. Tem tentado cada vez mais expandir a sua influência, mais obviamente na recente reunião da organização da NATO que procurou a participação do Japão, Austrália e Nova Zelândia.

O que realmente se destaca, contudo, é a crescente relutância do resto do mundo em se envolver nos jogos geopolíticos do grupo rico. Isto manifesta-se de várias formas. A primeira ilustração é a proposta de expansão do grupo BRICS. Este grupo de cinco nações, Brasil, China, Índia, Rússia e África do Sul compreende 40% da população mundial e 30% da sua produção económica.

Após anos de uma existência relativamente tranquila, demonstrou subitamente vontade de expandir a sua adesão com países tão diversos como a Argentina, México, Egipto, Arábia Saudita e Irão, entre outros, mostrando subitamente interesse em juntar-se ao grupo BRICS, para fazer o que actualmente se chama o conglomerado de nações BRICS+.

O que despertou este súbito interesse em juntar-se ao grupo BRICS? A resposta não é totalmente clara. Parte dela tem a ver com o facto de as nações em desenvolvimento do mundo estarem a ficar fartas da agressão e do manifesto interesse próprio do grupo rico, representado mais obviamente no apoio deste último à Ucrânia na actual guerra com a Rússia, mas também na atitude anti-iraniana de longa data, manifestada tanto nos Estados Unidos como em Israel, em relação a todas as coisas iranianas.

Que tanto a Arábia Saudita como o Irão estejam a tentar aderir aos BRICS é o desenvolvimento mais surpreendente. Os dois países nunca demonstraram o menor grau de simpatia um para com o outro, com base não só na sua adesão aos dois grandes grupos diferentes da fé islâmica, mas também na estreita cooperação histórica dos sauditas com os americanos.

A relação entre a Arábia Saudita e os Estados Unidos arrefeceu acentuadamente nos últimos anos, tendo o líder saudita recusado sequer atender as chamadas telefónicas do presidente dos Estados Unidos. Este último teve de engolir o seu orgulho e fez recentemente uma viagem ao reino saudita, sem dúvida numa tentativa de restaurar alguma da antiga adesão dos sauditas ao ponto de vista dos Estados Unidos. É pouco provável que este objectivo seja alcançado com os sauditas a mostrarem uma atitude diferente nos últimos anos, dos quais a frágil aproximação com o Irão é um dos sintomas mais óbvios. Apenas há poucos anos teria sido impensável para a Arábia Saudita e o Irão se juntarem ao mesmo grupo que os BRICS, no entanto, aqui estamos nós.

O segundo país de maior interesse nesta nova relutância em seguir os Estados Unidos, seja qual for o caminho escolhido, é a Índia. A Índia sempre apresentou um quadro curioso para o resto do mundo. É por exemplo um membro do chamado grupo de nações QUAD, juntamente com a Austrália Japão e os Estados Unidos. Este foi obviamente um agrupamento anti-China sem que os americanos tenham tentado esconder este elemento no agrupamento.

Sempre foi difícil conciliar a adesão da Índia ou tanto o Quad como os BRICS, uma vez que os dois grupos prosseguiam agendas manifestamente opostas. Além disso, a Índia tem prosseguido durante muitos anos uma política de cooperação e amizade com a Rússia. Isto manifesta-se de várias formas. Por exemplo, a Índia recusou-se a aderir à histeria anti-russa este ano por causa dos acontecimentos na Ucrânia.

Essa guerra é um exemplo perfeito de hipocrisia ocidental. Durante anos permaneceram em silêncio sobre o golpe flagrantemente fascista que teve lugar em 2014, quando os Estados Unidos inspiraram e financiaram o golpe contra o legítimo governo ucraniano. Permaneceram igualmente em silêncio quando os ucranianos atacaram o Donbass, matando pelo menos 14.000 dos seus cidadãos e forçando mais 1 milhão de pessoas ao exílio. Foi apenas em fevereiro deste ano quando os russos intervieram para impedir uma tomada de controlo hostil do Donbass que o Ocidente emergiu do seu sono para condenar as medidas russas para impedir essa tomada de controlo.

Dizem-nos que mais de 80.000 tropas ucranianas permanecem no Donbass. Nunca ocorre aos meios de comunicação ocidentais perguntar por que razão estão lá se as suas intenções nunca foram hostis. As suas acções demonstram claramente que as suas acções e intenções são hostis, baseadas em parte numa determinação de nunca permitir a independência de Donbass ou um maior grau de auto-governo, como claramente previsto nos acordos de Minsk de 2014 e 2015.

A Índia tem sido uma das muitas nações que se recusaram a condenar os russos pelo seu papel na guerra actual. A Índia, longe de condenar a Rússia, assinou recentemente um novo acordo que prevê a exportação de mercadorias russas para a Índia via Irão numa nova rota que contorna completamente o Canal de Suez.

Esse acordo russo inclui a importação de petróleo russo que os indianos recebem com um desconto substancial. Há relatos de que os indianos estão a vender esse petróleo e a fazer um bom lucro para si próprios no processo. Embora a relação da Índia com a Rússia se mantenha forte, os seus laços económicos com a China são mais intensos. Por exemplo, a Índia continua a ser um forte adversário da Iniciativa de Cinturão e Estradas da China e, em particular, vê a relação económica China – Paquistão de 60 mil milhões de dólares como uma ameaça.

Será interessante ver durante quanto tempo persiste a hostilidade indiana ao BRI, particularmente à luz da sua forte relação com a Rússia que, evidentemente, está intimamente ligada económica e politicamente à China. Dado que a esmagadora maioria dos vizinhos asiáticos da Índia são também membros do BRI, é um aspecto da política externa indiana que deve ser acompanhado de perto. A oposição ao BRI é essencialmente irracional e reflecte mais a incerteza política da Índia do que uma resposta económica racional.

Nos últimos meses, é também óbvio que o governo chinês tem feito um grande esforço para desanuviar as tensões remanescentes entre os dois governos. A Índia este ano irá provavelmente ultrapassar a China como a nação mais populosa do mundo. Isto terá certamente um efeito na projecção da Índia da sua imagem para o mundo. Se esse efeito será bom, como os sinais sugerem, será a grande questão nos próximos anos.

New Eastern Outlook

As ideias expressas no presente artigo / comentário / entrevista refletem as visões do/s seu/s autor/es, não correspondem necessariamente à linha editorial da GeoPol

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Autor

James ONeill

1 Comment

  1. Este texto é de grande importância para o esclarecimento do que é o G7, os seus interesses em relação ao resto do mundo. Entretanto, permito-me sugerir a sua condensação num pequeno texto sensibilizados de grande número de portugueses.

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