A aliança do MI6, CIA e os banderistas

Thierry Meyssan

Thierry Meyssan

Editor-chefe Réseau Voltaire


Após ter mostrado que a guerra na Ucrânia foi preparada pelos straussianos e desencadeada, em 17 de fevereiro, pelo ataque de Kiev contra o Donbass, Thierry Meyssan volta à história secreta que liga os anglo-saxónicos aos banderistas desde a queda do Terceiro Reich


O apoio dos ocidentais ao nazismo (1933-1940)

O apoio maciço dos Estados Unidos e dos seus aliados aos banderistas ucranianos contra a Rússia é comparável ao apoio do mesmo campo no arranque da Alemanha hitleriana contra a URSS. Lembremos, de forma clara, que todos os estados ocidentais, sem excepção, acreditaram, num momento ou noutro, que os nazis eram a solução para a crise económica de 1929. Só eles pareciam propor uma alternativa credível ao capitalismo. É claro, quase todas essas pessoas mudaram de ideia quando o perigo nazi se voltou contra elas.

A título de exemplo, recordemos que o ministro francês dos Negócios Estrangeiros, Georges Bonnet, encantado pela política judaica do Reich, propôs ao seu homólogo alemão, Joachim von Ribbentrop, deportar os judeus franceses, polacos e alemães para uma longínqua colónia, Madagáscar [1]. O mesmo Georges Bonnet assinou com Joachim Ribbentrop, ministro dos Negócios Estrangeiros do Reich, a 6 de dezembro de 1938, o Compromisso franco-alemão de colaboração pacífica.

O primeiro-ministro britânico Neuville Chamberlain organizou os Acordos de Munique, em 30 de setembro de 1938, que liquidaram a Checoslováquia em proveito do Reich [2]. Enquanto o governador do Banco de Inglaterra, Montagu Norman, roubou 27 toneladas de ouro checoslovaco para ajudar ao reforço do exército nazi [3].

Ou, ainda, Prescot Bush, o pai do presidente George H. Bush e avô do presidente George W. Bush, o qual investiu em 1940 nas fábricas do campo de prisioneiros de Auschwitz (que só em 1942 se transformou num campo de extermínio) [4].

Após a queda do nazismo, estas pessoas não foram julgadas. Muito pelo contrário, foi feito um esforço para cerrar fileiras e esquecer estas traições. Tomemos cuidado para não reproduzir os mesmos erros!

O papel dos ucranianos durante a guerra fria

Durante a Segunda Guerra Mundial, o teórico do nazismo e ministro para o Leste (Ostminister), Alfred Rosenberg, confiou ao letão Gerhard von Mende a organização da união dos povos da URSS ao führer Adolf Hitler. Ao fazê-lo, ele concebeu um modelo de manipulação de minorias que foi retomado após a queda do III Reich, pela CIA. Com a ajuda do grande mufti de Jerusalém, Amin al-Husseini, von Mende criou escolas de mullahs em Göttingen e em Dresden, ordenou a nomeação de um grande mufti na Crimeia e alistou regimentos SS do Leste. Foi ele também o oficial que tomou conta do “nacionalista” ucraniano Stepan Bandera.

Em Washington, o presidente Truman e depois Eisenhower decidiram por ênfase numa guerra psicológica contra os soviéticos. A CIA criou pois o AmComLib (Comité Americano para a Libertação dos Povos da URSS) que geria a Rádio Liberté a partir de Munique. Ela reciclou Gerhard von Mende. Foi ele quem propôs estabelecer uma mesquita em Munique que, no fim, foi confiada a Said Ramadan (o genro do fundador da Irmandade, Hassan el-Banna) [5]. Foi também ele que resolveu os problemas de Stepan Bandera e o reciclou para o MI6 e para a CIA [6].

O antigo adjunto de Stepan Bandera e primeiro-ministro ucraniano imposto pelos nazis, Yaroslav Stetsko, fora, a instruções do III Reich, um dos fundadores do Bloco das Nações Anti-Bolcheviques (ABN) durante a Segunda Guerra Mundial. Durante a Guerra Fria, ele perpetuou o ABN desta vez para os Estados Unidos. A tal título, tornou-se um dos pilares da Liga Anti-comunista Mundial (WACL) criada pela CIA [7].

A sede do ABN foi instalada em Munique, de onde Stepan Bandera e Iaroslav Stetsko dirigiram operações de sabotagem na URSS. O presidente do ABN era o dinamarquês Ole Bjørn Kraft, antigo presidente do Conselho do Atlântico Norte (a autoridade civil que comanda as forças aliadas). Diversas operações foram planeadas em colaboração com a CIA e o MI6, quer dizer sob a supervisão de Frank Wisner (o avô por herança de Nicolas Sarkozy) e de Kim Philby. Mas este último traiu a Coroa e transmitiu informações ao KGB que as fez falhar [8].

Um dos colaboradores de Yaroslav Stetsko, Lev Dobriansky, tornou-se embaixador dos EUA nas Bahamas, enquanto a sua filha Paula Dobriansky foi sub-secretária de Estado para a Democracia (sic) na Administração George W. Bush. Foi a Srª Dobriansky que financiou, durante dez anos, estudos históricos visando fazer esquecer que o Holodomor, a grande fome que atingiu a Ucrânia em 1932-33, devastou igualmente a Rússia e o Cazaquistão, e em fazer crer que ela havia sido decidida por Stalin para eliminar o povo ucraniano. Este mito foi manipulado pelos banderistas para fazer crer num ódio secular doss russos contra os ucranianos. O Parlamento europeu avalizou-o em 2008 [9]. A seguir, Paula Dobriansky exerceu altas funções na agência Reuters e trabalha actualmente no Atlantic Council. Era ela a vice-presidente da NED durante o putsch do Maidan.

O presidente Ronald Reagan e o seu vice-presidente George H. Bush recebem os banderistas, incluindo Iaroslav Stetsko, em 1983 na Casa Branca [10].

Bandera foi assassinado pelo KGB em 1955. Stetsko morreu em 1986. Os dois homens estão enterrados no cemitério alemão de Walffriedhof de Munique.

O apoio dos anglo-saxónicos aos jihadistas

Em 1979, o presidente norte-americano, Jimmy Carter, autorizou a “Operação Ciclone”. Tratava-se de enviar jihadistas árabes, membros da confraria dos Irmãos Muçulmanos para o Afeganistão a fim de lutar contra o governo comunista. Foi nessa altura que esta pequena organização terrorista se transformou num verdadeiro exército [11]. De uma coisa levando a outra, passou-se das guerras do Afeganistão às da Jugoslávia e da Chechénia, para acabar no Daesh (EI) no Iraque e na Síria [12].

Durante quarenta anos, todos os estados membros da NATO foram instados a fornecer « asilo político aos jiadistas “perseguidos” pelas ditaduras árabes. Pelo menos 17 estados aliados participaram na Operação Timber Sycamore de aprovisionamento em armas, no valor de milhares de milhões de dólares, aos jihadistas [13]. Até ao dia em que eles ameaçaram os Ocidentais. Tome-se cuidado para não reproduzir os mesmos erros!

O apoio ocidental aos banderistas, aos ustashas croatas e aos neo-nazis bálticos

Durante a Guerra Fria, antigos especialistas da repressão nazi foram integrados pelos Estados Unidos no seu dispositivo anti-soviético. Por exemplo, lembremos o “carniceiro de Lyon”, Klaus Barbie, tornado chefe da repressão na Bolívia ou de Alois Bruner, tornado conselheiro especial do presidente sírio (antes do Baas) depois de ter exterminado judeus na Áustria, na Grécia e na França. Ora, parecia que isso tinha cessado com a dissolução da URSS.

No entanto, milícias banderistas, ustachas e nazis emergiram no espaço público com a dissolução do Pacto de Varsóvia e as independências dos estados anteriormente soviéticos. Elas obtiveram o apoio dos anglo-saxónicos em nome da colaboração dos seus pais durante a Guerra Fria. A título de exemplo recordemos:

Na Bulgária, uma manifestação anual em memória do general Hristo Lukov realiza-se em Sófia desde há uma quinzena de anos [14].

Na Estónia, começaram em 2009 pelo retorno das cinzas do coronel das SS Alfons Rebane (o ‘Rommel estónio’), depois por colocar uma placa comemorativa [15], sempre com o forte apoio do Presidente Toomas Hendrik Ilves (ele próprio funcionário dos EUA). O ministro da Defesa, Urmas Reinsalu, visitou a ilha de Saaremaa, em 2012, para participar numa cerimónia da Aliança dos Combatentes pela Liberdade da Estónia (colaboracionistas nazis) e felicitar antigos SS por terem “libertado a pátria” [16].

Na Letónia, o presidente Vaira Vīķe-Freiberga (1999-2007) afirmou que os “SS eram heróis da luta anti-soviética”. Mandou modificar os manuais escolares de história e autorizou manifestações em comemoração destes “heróis”. A Letónia, na qual um quarto da população é russa, proibiu a utilização do russo nas escolas secundárias. Além disso, junto com a Estónia, construiu em 2018 um muro na fronteira com a Rússia [17].

Na Bolívia, o MI6 apoiou-se na comunidade ustasha croata para derrubar o presidente Evo Morales, em 2019 [18].

No dia 18 de novembro de 2020, a 3ª Comissão da Assembleia Geral das Nações Unidas adoptou uma Resolução sobre a ” Luta contra a glorificação do nazismo, do neo-nazismo e de outras práticas que contribuem para alimentar as formas contemporâneas de racismo, de discriminação racial, de xenofobia e de intolerância que lhe estão associadas” (Nações Unidas A/C.3/75/L.49). Todos os membros da ONU votaram a favor, apenas os Estados Unidos e a Ucrânia votaram contra. Todos os membros da NATO e da União Europeia se abstiveram.

As mesmas causas produzem os mesmos efeitos

Em 8 de maio de 2007, em Ternopol (ocidente da Ucrânia), grupúsculos nazis e islamistas criaram uma “Frente Anti-Imperialista” a fim de lutar em conjunto contra a Rússia. Participaram organizações da Lituânia, Polónia, Ucrânia e da Rússia, entre as quais separatistas islamistas da Crimeia, Adigueia, Daguestão, Inguchétia, Cabardino-Balcária, Carachai-Cherquéssia, Ossétia, Chechénia. Não podendo lá aparecer por causa de sanções internacionais, Dokka Umarov, o emir da Ichkeria (Chechénia) considerado pelas Nações Unidas como membro da al-Qaeda, mandou ler a sua contribuição. A Frente é presidida por Dmytro Yarosh, que foi bater-se na Chechénia. Junto com Andriy Biletsky, o “Führer Branco”, ele criou o Sector Direito (Pravyie Sektor) que fez a revolução do EuroMaidan, e depois o Batalhão Azov. A partir de 2 de novembro de 2021, tornou-se conselheiro do comandante-chefe das Forças Armadas Ucranianas, o general Valerii Zaluzhnyi.

A seguir à dissolução da URSS, a Ucrânia reavivou os seus velhos demónios. Os manuais escolares de história foram modificados. As crianças aprendem na escola, desde há trinta anos, que o seu país só se tornou independente graças aos nazis e que eles não têm genes comuns com os russos, essa raça inferior. Todos os anos, dezenas de milhar de crianças e de adolescentes frequentam os “campos de férias” banderistas, tal como faziam a Juventude Hitleriana. Aí, eles gritam o seu slogan “Glória à Ucrânia!”. Estes jovens, raparigas e rapazes, encontram hoje em dia asilo na União Europeia. Amanhã, tal como os seus aliados, a Irmandade Muçulmana, alguns deles irão nela cometer atentados.

Desde logo, os banderistas recrutam cadetes na Alemanha, no Canadá, na França, na Polónia, no Reino Unido e nos Estados Unidos e agora oficiais nas academias militares destes países. Para isso, criaram, em 2019, uma ordem secreta Centuria, que difunde a sua ideologia. Esta ordem opõe-se aos processos democráticos e ao sufrágio universal. Os seus membros recitam a “Oração dos nacionalistas ucranianos”, redigida por Josef Mashchak durante o período entre as duas guerras. Eles arvoram a Cruz do Sol dinamarquesa e multiplicam as referências à Ordem de Thule de que os mais altos dignitários nazis faziam parte. Os exércitos ocidentais não tomaram esta ameaça a sério. Esta ideologia, tal como a da Irmandade Muçulmana no Médio-Oriente, expande-se como um rastilho pólvora.

A besta imunda já cá está, no meio de nós.

Como se pode ser tão cego ?


Serie da Ucrânia de Thierry Meyssan

Todos os artigos sobre o tema Ucrânia da Rede Voltaire:

1. A Rússia quer obrigar os EUA a respeitar a Carta das Nações Unidas 
2. Washington prossegue o plano da RAND no Cazaquistão, a seguir na Transnístria
3. Washington recusa ouvir a Rússia e a China
4. Washington e Londres, atingidos de surdez
5. Washington e Londres tentam preservar a sua dominação sobre a Europa
6. Duas interpretações do processo ucraniano
7. Washington canta vitória, enquanto seus aliados se retiram
8. A Rússia declara guerra aos Straussianos
9. Um bando de drogados e de neo-nazis
10. Israel aturdido pelos neo-nazis ucranianos
11. Ucrânia : a grande manipulação
12. A Nova Ordem Mundial que preparam a pretexto da guerra na Ucrânia
13. A propaganda de guerra muda de forma
14. A aliança do MI6, a CIA e os banderistas
15. O fim do domínio ocidental
16. Ucrânia: a Segunda Guerra mundial continua
17. Washington quer prolongar a guerra para recuperar o estatuto de super-potência
18. O Canadá e os banderistas
19. Preparam uma nova guerra para o após derrota face à Rússia
20. Os programas militares ucranianos secretos
21. Ucrânia: enganos, arrogância e incompreensão
22. A Polónia e a Ucrânia
23. A ideologia dos banderistas
24. Afundando a paz na Europa
25. A agonia do Ocidente


Imagem de capa por spoilt.exile sob licença CC BY-SA 2.0


Este artigo foi foi originalmente publicado na Rede Voltaire

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