A guerra no nosso tempo

Willy Wimmer

Ex-membro do Bundestag


É o 24º dia de um mês. A 24 de Março de 1999, a guerra de agressão da NATO contra a cidade de Belgrado e a República Federal da Jugoslávia, que estava em paz, começou. A OSCE vinha relatando há dias que tudo estava calmo no Kosovo. Estes relatórios foram partilhados pelas fontes noticiosas alemãs. Nos últimos meses, a NATO, com a liderança americana à cabeça, tem vindo a trabalhar consistentemente para este dia de ataque. Os acordos entre os EUA e o governo de Belgrado, que foram concebidos para uma resolução pacífica do conflito, foram de tal forma torcidos para a tomada de decisões na NATO que também eles não se opuseram a uma guerra contra a Jugoslávia. Com a guerra contra a Jugoslávia, a ordem internacional de paz, que se tinha manifestado na Carta das Nações Unidas como resultado de duas guerras militares, deveria ser estabelecida ao mesmo tempo. Em total desrespeito pela Carta das Nações Unidas e pela proibição da violência e da guerra nela estabelecida, os EUA e os seus aliados atacaram. A era da lei global americana da selva foi inaugurada com a utilização de bombardeiros alemães contra a Jugoslávia.

O primeiro tiro da guerra da Federação Russa contra a Ucrânia, que é contrária ao direito internacional, foi disparado, por assim dizer, a 24 de Março de 1999, na guerra da NATO contra a Jugoslávia. Na altura, os EUA não aceitaram apenas o desaparecimento do direito internacional para alcançar os seus objectivos na Europa. Desde então, a sua interpretação jurídica foi determinada pelo facto de, com a guerra de agressão contra a Jugoslávia contrária ao direito internacional, não só ter destruído o direito internacional que estava em vigor até então com o monopólio da ONU sobre o uso da força. A Conferência de Bratislava em Abril de 2000, organizada pelo chefe do Departamento de Estado americano, deixou claro que a guerra contra a Jugoslávia tinha criado um precedente. Desde então, qualquer Estado que quisesse tomar medidas como a dos EUA contra a Jugoslávia poderia invocar este precedente. A caixa de Pandora foi assim aberta e nenhum governo federal em Bona/Berlim tentou, desde então, voltar atrás no que diz respeito à destruição do direito internacional.

Todos os que queriam estar envolvidos na vida política alemã na altura conhecem o incentivo para esta guerra de 75 dias contra a Jugoslávia. O principal objectivo era conduzir a Federação Russa do Adriático para o Oriente. A Rússia não deve poder continuar a exercer qualquer influência sobre os seus parceiros tradicionais em torno do Adriático. A conferência de Bratislava, no entanto, deixou claro um objectivo de maior alcance. De acordo com as ideias do governo americano, apresentadas em Bratislava, tudo deveria ser feito nos anos seguintes para realizar dois objectivos no sul da Europa. Um erro americano da Segunda Guerra Mundial devia ser corrigido. Nessa altura, tinha sido negligenciada a colocação de tropas terrestres americanas nos Balcãs. Isto deve ser rectificado o mais depressa possível. Mas não se trata apenas de empurrar a influência da Rússia de volta para a zona a leste do Mar Negro. A própria Rússia deveria ser expulsa da Europa. Para tal, foi necessário construir uma nova muralha entre o Mar Báltico e o Mar Negro. A oeste deste muro estava o território americano. A leste, poderia haver a Rússia ou outros estados. Em qualquer caso, esta área já não é vizinha das áreas controladas pelos americanos a oeste desta nova muralha transcontinental. O discurso do presidente da Federação Russa Putin, na sessão plenária do Bundestag alemão em 2001, foi, consciente ou inconscientemente, a contra-proposta russa para os planos que se tornaram públicos a partir de Bratislava. A Rússia, disse ele, estava a estender a mão aos seus vizinhos ocidentais. Muito dentro do espírito da “casa comum europeia” que tinha causado euforia na Europa uma década antes.

A guerra contra a Jugoslávia devia servir um outro objectivo ao mesmo tempo. As forças armadas alemãs, que tiveram de assinar a rendição incondicional a 8/9 de Maio de 1945 e cuja auto-imagem histórica como componente da ordem do Estado tinha sofrido desde então danos irreparáveis, deveriam ser envolvidas no que a NATO considerava uma operação militar bem sucedida. Nada bate a autoconfiança militar, foi a avaliação em Bona, na altura. Isto não se encontra nos ficheiros.

Agora, na guerra da Federação Russa contra a Ucrânia, foi a 24 de Fevereiro quando as armas falaram. Nos meios de comunicação social, tudo tinha sido preparado desde pouco antes do Natal de 2021 com relatos de concentrações de tropas russas na fronteira russo-ucraniana. Mas a atenção deveria ter sido prestada mais cedo. Por exemplo, no relato de uma declaração do presidente americano, Sr. Joe Biden, sobre o seu colega russo, o presidente Putin. Nos meses que se seguiram, só podia sorrir com dificuldade à declaração do presidente Biden de que ele, Putin, era um “assassino”. Mas o que é dito é dito. O presidente Biden cortou propositadamente e sem hesitação a toalha de mesa entre os EUA e a Rússia pouco depois de tomar posse. No entanto, não se ficou por aí, pois, entre outras coisas, a visita da sub-secretária de Estado americana, Nuland, a Moscovo no início de Outubro de 2021 e as suas conversações com alguns interlocutores russos de alto nível deveriam deixar claro. O presidente russo Putin deixou claro num discurso antes da guerra contra a Ucrânia que os EUA tinham negado à Federação Russa o direito a um Estado independente. Diz-se que a visita da Sra. Nuland desempenhou um papel decisivo neste processo. O desenvolvimento desde então, infelizmente, é bem conhecido.

É a ligação dos actuais acontecimentos, que fazem parte da guerra contra a Ucrânia, com a guerra contra a Jugoslávia, que torna a dimensão clara. O que está a ser lutado no território da Ucrânia e em detrimento do povo da Ucrânia é representativo da luta da Federação Russa pela sua existência independente e da vontade dos EUA de empurrá-la para fora da Europa.

É a NATO que há muito tempo tenta utilizar a Ucrânia como ponta de lança contra a Rússia, especialmente porque já não esconde até que ponto se transformou de uma aliança de defesa de acordo com a Carta das Nações Unidas numa formação ofensiva que opera a nível mundial através da guerra contra a Jugoslávia.

Será que Moscovo teve de fechar os olhos a isto? Ou ao facto de as armas alemãs nas mãos dos batalhões nazis em acção contra os soldados russos na Rússia trazerem de imediato recordações de 1941. Este é provavelmente o cálculo daqueles que não querem acabar imediatamente com a guerra, mas que querem dar um contributo decisivo para o envenenamento das relações entre a Rússia e a Alemanha durante um período de tempo imprevisível.

Tudo o que tem sido feito pelo Ocidente desde que a Federação Russa atacou a Ucrânia em violação do direito internacional apenas resiste ao julgamento sobre se alguma acção é dirigida para pôr fim à guerra, resolver as diferenças bem conhecidas entre a Rússia e os EUA, retirar as tropas russas e reparar os extensos danos?

As medidas tomadas até agora pelo Ocidente dão todas a impressão de que a dimensão das sanções visa também tornar Bratislava uma realidade na Europa. Mesmo que não se deva comparar coisas diferentes, é necessário apontar uma causa fundamental da guerra mundial na Ásia e a acção dos EUA contra o Japão. Mesmo a tempo do início da guerra contra a Ucrânia, o filme sobre a Batalha de Midway foi exibido na televisão alemã pela primeira vez dias antes. O filme começou com o pensamento do Almirante japonês Yamamoto sobre o que estava a chegar à cabeça entre os EUA e o Japão antes do ataque japonês ao Pearl Harbour. Estas foram, como viria a acontecer alguns dias mais tarde, as palavras para começar a guerra no meio da Europa. Era difícil ver isto de outra forma.

Isto inclui a impressão dada pela sessão especial do Bundestag alemão no domingo, 27 de Fevereiro de 2022. A espinha dorsal política e a percepção dos interesses alemães tinham sido perdidos e abandonados nas horas anteriores.

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