A Grã-Bretanha está a começar o seu próprio jogo na Ásia Central

Por Vladimir Odintsov

Para a Grã-Bretanha, como para outros atlantistas, a Ásia Central tem sido desde há muito uma área de interesse fundamental. Em certa medida, isto deve-se às significativas reservas minerais da região, bem como à sua localização estratégica como ponte entre a Europa e o Sudeste Asiático. É por isso que nos últimos anos o Ocidente tem estado particularmente activo na tentativa de impedir a restauração da presença estratégica da Rússia aqui, utilizando esta importante base para exercer pressão não só sobre Moscovo, mas também sobre Pequim.

A saída da Grã-Bretanha da União Europeia iniciou uma revisão adicional das prioridades políticas e diplomáticas de Londres, de acordo com as direcções anteriormente anunciadas e as tendências existentes no sentido de uma mudança da agenda política global para a Ásia. E neste contexto, Londres espera prestar particular atenção ao reforço da sua posição na Ásia Central.

A Grã-Bretanha começou a desenvolver o seu próprio programa de cooperação com os países da Ásia Central há muito tempo. Há dez anos, o Parlamento britânico criou um grupo sobre a região, composto por mais de vinte membros da Câmara dos Lordes e da Câmara dos Comuns, e a sua estratégia baseava-se no reforço da cooperação económica e político-militar com os países da Ásia Central. Segundo Lord Sheikh, membro do grupo da Ásia Central, um empresário britânico e membro do Partido Conservador no Parlamento do Reino Unido, “chegará o momento em que a crise terminará e as vastas quantidades de recursos energéticos que a maioria dos estados da Ásia Central possuem serão certamente solicitadas”.

Como declarado em Londres, o conceito da União Europeia na Ásia Central, adoptado em 2007 e depois repetidamente revisto, não satisfaz plenamente os interesses de muitos países da UE, incluindo a Grã-Bretanha. Por conseguinte, Londres prefere seguir o seu próprio programa de trabalho na região, com especial ênfase no desenvolvimento de relações e cooperação com estados individuais da Ásia Central. Tanto mais que a Grã-Bretanha tem vindo a desenvolver há muito tempo a cooperação com o Cazaquistão, um líder regional de facto em cujo sector do petróleo e gás a British Petroleum (BP) e a British Gas (BG) operam. A Grã-Bretanha também tem estado a analisar a energia hidroeléctrica no Quirguistão, tendo mesmo discutido a questão do fornecimento de equipamento para as centrais hidroeléctricas do Quirguistão.

Por conseguinte, não é surpreendente que o Cazaquistão, em cujo sector de petróleo e gás Londres está a fazer investimentos multi-milionários, esteja ainda em primeiro lugar para a Grã-Bretanha. Há também interesse no Turquemenistão, onde a empresa britânica Gaffney, Cline & Associates auditou o campo sul de Iolotan-Osman e confirmou a presença de reservas de hidrocarbonetos sólidos no país.

O interesse de Londres na região deve-se sem dúvida ao aspecto militar-político associado à operação anti-terrorista no Afeganistão. E a Grã-Bretanha, que se tornou o principal aliado dos EUA nas campanhas militares no Iraque e no Afeganistão, precisa do apoio da retaguarda dos países da região. Por conseguinte, houve um sério interesse no Uzbequistão, um país chave na região, que já tinha estado envolvido mais de uma vez como país de trânsito na campanha afegã.

Aproveitando a sua considerável experiência imperial na utilização de contradições étnicas para expandir a sua influência em vários estados asiáticos, esta área de trabalho na Ásia Central está sob o controlo especial da Grã-Bretanha. Especialmente porque para a Ásia Central, o Vale de Fergana, e especialmente as áreas fronteiriças dos estados vizinhos, é uma fonte potencial de instabilidade étnica.

Portanto, uma das principais ferramentas para consolidar e expandir a sua influência nesta região, a Grã-Bretanha optou por utilizar activamente a extensa rede de organizações não governamentais (ONGs) que criou e implantou na Ásia Central. Por exemplo, desde 2015, as actividades das ONGs no Quirguistão e Tajiquistão têm sido coordenadas por agências britânicas, especialmente o Departamento Britânico para o Desenvolvimento Internacional (DFID) e os serviços secretos britânicos. Por conseguinte, não é surpreendente que os observadores já tenham notado as actividades de tais ONGs britânicas como o programa de Boa Governação e Reforço da Administração Pública (GGPAS), que foi financiado pelo DFID e pela USAID, filiados nos serviços de inteligência dos EUA, nos recentes eventos de protesto no Quirguistão. Os seus principais “parceiros” foram organizações governamentais chave e o Conselho Supremo da República do Quirguistão.

A fim de exercer influência ideológica sobre a população da Ásia Central em benefício de Londres, a Grã-Bretanha utiliza activamente ONGs que trabalham no campo da educação. Um desses projectos é, em particular, a Universidade da Ásia Central, implementada pela Fundação Agha Khan (com sede em Londres), que tem filiais no Cazaquistão (Tekeli), Tajiquistão (Khorog), e Quirguistão (Naryn). Sabe-se, contudo, que o próprio líder espiritual Ismaili, Agha Khan IV, representa uma família com antigos laços com os serviços secretos britânicos e é um agente activo da política britânica. A Fundação Agha Khan já foi implicada em muitos países asiáticos e africanos na preparação para conflitos étnicos e no estabelecimento de campos de refugiados. O tio de Agha Khan, o príncipe Sadruddin Agha Khan (1933-2003), sob a cobertura da Fundação, conduziu uma série de operações particularmente sensíveis e secretas no estrangeiro, procurando mantê-las escondidas de olhos curiosos, de modo a não prejudicar a reputação de Agha Khan nos círculos internacionais.

Uma dessas operações encobertas, conduzida por agências de inteligência americanas e britânicas com a ajuda do príncipe Sadruddin no final dos anos 80 e início dos anos 90, chamava-se Salam. Foi oficialmente apresentada como uma “acção humanitária” destinada ao repatriamento de refugiados afegãos após a retirada das tropas soviéticas do Afeganistão. Contudo, na realidade, sob o disfarce de programas humanitários controlados pelo príncipe Sadruddin, o treino militar e subversivo e o fornecimento clandestino de armas foram levados a cabo nas proximidades dos campos de refugiados afegãos na fronteira afegã-paquistanesa. Pouco antes disso, o príncipe Sadruddin tinha desempenhado um papel importante noutra operação secreta especial dos serviços secretos, denominada “Iran-Contras”, relacionada com a venda secreta de armas ao Irão (a administração Reagan-Bush utilizou os fundos deste acordo, irresponsáveis para o Congresso dos EUA, para financiar as actividades dos “contras” nicaraguenses e dos mujahedines afegãos).

Igualmente importante para a utilização britânica de ONGs na Ásia Central é a “investigação social”, que de facto monitoriza cuidadosamente os sentimentos da população da região, o envolvimento da influência islâmica radical, especialmente no contexto das relações inter-étnicas e inter-elites em países específicos, e a influência da Rússia e da China na região. Um exemplo notável disto são as actividades da ONG britânica International Alert, que tem estado activa no Quirguistão e Tajiquistão desde 2014.

Outra ONG, The Search For Common Ground (SFCG), financiada pelo Ministério da Defesa e Ministério dos Negócios Estrangeiros britânico, declara um projecto de Search for Common Ground para supostamente prevenir o extremismo violento no Quirguistão e Tajiquistão, mas na realidade está também empenhada em acompanhar de perto a situação nestes países em benefício dos serviços secretos norte-americanos e britânicos.

Seguindo a sua antiga política colonial imperial, a Grã-Bretanha participa activamente na estratégia do “Ocidente colectivo” de dividir os povos da Ásia segundo linhas étnicas e etno-religiosas, jogando a carta inter-étnica na região da Ásia Central, no seu interesse. A realização disto, incluindo os recentes acontecimentos no Quirguistão, e a oposição a tal subversão por parte da Grã-Bretanha já está a desenvolver-se em muitos estados da região e só se intensificará.

Fonte: New Eastern Outlook

As ideias expressas no presente artigo / comentário / entrevista refletem as visões do/s seu/s autor/es, não correspondem necessariamente à linha editorial da GeoPol

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