Canal de Suez: um navio encalha e a economia mundial teme o afundamento…

Por Nicolas Gauthier

Por vezes há incidentes, aparentemente insignificantes, que falam muito sobre o que o mundo está a tornar-se. Um exemplo? O navio porta-contentores Ever Given, propriedade de um armador japonês cuja empresa está sediada em Taiwan, acaba de encalhar no Canal de Suez. Nada que, logicamente, possa fazer as manchetes. E no entanto…

Este monstro dos mares está a bloquear uma boa parte do comércio internacional, sabendo que o canal em questão, escavado em 1869 por Ferdinand de Lesseps – o que prova que os franceses não fizeram apenas coisas más em África -, assegura o trânsito de 12% do comércio mundial, ou seja, 19.000 navios por ano. E um único naufrágio cria um gigantesco engarrafamento de quase duzentos navios de tonelagem semelhante; irónico, não é?

Na Grécia antiga, uma das principais tentações que ameaçavam a humanidade era chamada “arrogância”, ou “excesso”. Diz-se que Zeus “começa a enlouquecer aqueles que ele deseja perder”. Alguns podem ver isto como um sinal, sabendo que nos últimos vinte anos, o tamanho destes navios porta-contentores mais do que triplicou, como foi relatado no Le Monde a 26 de março. Daí o tamanho gigantesco do Ever Given, que, com 400 metros de comprimento e 59 metros de largura, é o equivalente a quatro campos de futebol e atinge 60 metros, a altura de um edifício de vinte andares. Capaz de transportar 22.000 contentores, o mamute encalhado pesa quase 220.000 toneladas.

Escusado será dizer que seria impossível voltar a pôr uma tal máquina a flutuar enquanto se faz a pausa para um cigarro. Isto não impede Mohab Mamish, conselheiro especial em assuntos marítimos do marechal Abdel Fattah al-Sissi, o presidente egípcio, de mostrar o mais tocante optimismo, pois a operação não deve, segundo ele, exceder “48 a 72 horas no máximo”: “Tenho experiência de várias operações de salvamento deste tipo e, como antigo presidente da Autoridade do Canal de Suez, conheço cada centímetro da mesma.”

Fortuitamente, outros peritos, certamente menos sonhadores, os da empresa holandesa SMIT Salvage, encomendada pelos proprietários do barco em questão, dizem pela sua parte: “A operação pode levar dias, ou mesmo semanas. “Ao ritmo a que as coisas estão a acontecer por lá, os meses podem não ser pedir muito.

Enquanto se espera que os tanques dos navios porta-contentores sejam esvaziados, evitando assim um desastre ecológico, e que a sua carga seja descarregada para que possa finalmente ser rebocada para outros horizontes, o preço do petróleo acaba de subir acentuadamente. Já para não falar do pânico das empresas que trabalham em ‘just-in-time’, ou seja, sem ‘stocks’, e que agora temem pelos seus abastecimentos…

Mesmo que a comparação não seja razão, isto traz à mente o slogan uma vez atribuído aos construtores do Titanic: “Nem mesmo Deus o poderia afundar…”. O início do século passado anunciou a predominância de um génio humano que supostamente triunfaria sobre todos. Infelizmente, o gigante de ferro afundou-se em 1912 e a Europa com ela dois anos mais tarde. Hoje, é de novo a mesma história, com o fim desta última, previsto após a queda do Muro de Berlim, para dar lugar a uma globalização feliz, o apagamento da política antiquada e das religiões reveladas, em benefício exclusivo do consumismo generalizado.

E pensar que foi preciso uma simples jangada, mesmo de dimensões extraordinárias, para nos lembrar como as construções humanas são frágeis…

Fonte: Boulevard Voltaire

As ideias expressas no presente artigo / comentário / entrevista refletem as visões do/s seu/s autor/es, não correspondem necessariamente à linha editorial da GeoPol

Para mais conteúdos, siga-nos no Facebook, Twitter, Telegram e VK