Uma NATO sul-americana?


Com a subida ao poder do presidente Bolsonaro no Brasil, fala-se frequentemente da concessão de bases militares ao exército dos Estados Unidos no solo do país sul-americano, e de uma possível concertação entre os dois estados em matéria de guerra e assuntos estratégicos. O sonho de uma América Latina unida, que foi interpretado no início do século XXI sobretudo a nível económico, graças a instituições como o MERCOSUL, tem, no entanto, fortes implicações políticas. A fractura que parece abrir-se na América Latina entre tendências integradoras muito diferentes, como na função de uma autonomia em relação à América do Norte, como com ela, é susceptível de redesenhar o cenário político para os anos vindouros. O principal vector de uma possível integração pan-americana com os Estados Unidos parece ser, portanto, uma integração estratégica e militar. Não há dúvida, no entanto, que quaisquer que sejam os desenvolvimentos futuros, de uma forma ou de outra, concentrar-se-ão no desenvolvimento de uma dimensão supranacional.

Como sabemos, o Brasil tem sido sempre um dos países líderes no processo de integração política e unificação da América Latina. A sua história, a sua extensão e a sua capacidade económica são uma das razões pelas quais tem sido sempre um elemento muito importante dentro do cenário regional. O seu efeito, neste sentido, é também evidenciado pela existência no século XIX do Império do Brasil, que então incluía também o Uruguai. A natureza do Brasil, que cobre uma grande parte do continente, é a de um grande Estado – não por acaso federal – projectado como todos os grandes estados contemporâneos para o futuro de grandes agregações políticas e espaciais. Hoje, estados deste tipo são os EUA, a República Popular da China e a Rússia, demonstrando a importância das dimensões geográficas neste contexto histórico particular, no qual a globalização dos bens, finanças e movimentos humanos põe à prova a soberania dos pequenos países.

A América Latina sempre teve como objectivo implícito a unificação. Este foi o “grande sonho” de Simón Bolívar, o resultado necessário do processo de libertação do continente da presença colonial europeia. O mito do Bolivarianismo alimentou durante muito tempo as narrativas políticas dos países latino-americanos, e ainda hoje permanece inalterado no seu significado simbólico proeminente. Até à data, é a Venezuela governada pelo Partido Socialista Unido a fazer dela uma bandeira política, a mesma Venezuela que Bolívar pôde considerar “um quartel”. Especificamente, a frase atribuída a el libertador Bolívar foi que “o Equador é um convento, a Colômbia é uma universidade e a Venezuela é um quartel”. Esta frase, que reflectia a dimensão de unidade que o comandante do processo de libertação imaginou para a América Latina, sublinha também outro ponto fundamental relativo à importância de dominar grandes espaços geopolíticos. Ou seja, a diversificação dos papéis atribuídos às regiões controladas, para a manutenção da autarquia de um super-Estado.

Claro que, para garantir uma vasta unidade territorial, se esta não tiver sido conquistada a ferro e fogo, é necessária pelo menos uma certa coesão de intenções conferida pela proximidade ideológica. Esta proximidade ideológica foi dada, durante um certo período de tempo, por um grande projecto político, lançado em 2004, que representou uma orientação muito importante para o planeamento político concertado sul-americano. Trata-se aqui da UNASUL, a organização intergovernamental nascida de doze nações sul-americanas, que se juntou ao já existente MERCOSUL, o mercado comum da América Latina.

A visão de Jair Bolsonaro neste sentido parece mais realista do que a dos países que simplesmente querem aderir em nome do “mercado livre”. Se este projecto fosse continuado, poderia certamente garantir a base para uma reformulação de algumas das regras fundamentais do MERCOSUL, e certamente, gerar uma mudança de peso específico dos actores regionais dentro deste grupo. No entanto, é importante compreender como a hipótese de colaboração de Bolsonaro com a NATO, seja qual for a sua capacidade, dará certamente mais peso ao seu país do que a outros na América Latina, precisamente na função do papel de preeminência geográfica que o Brasil sempre desempenha. Esta decisão, que Bolsonaro abraça conscientemente na intenção de garantir a primazia do Brasil, é, no entanto, tomada na perspectiva específica da necessidade integradora. Uma necessidade que, mesmo que se queira falar em termos de mero interesse nacional, representa para o Brasil saídas imediatas nos mercados internos da região, a possibilidade de obter fornecimentos favoráveis com base no princípio da vantagem comparativa, e o reconhecimento indiscutível de um primado político. Para os Estados Unidos, por outro lado, tudo isto implica não só assegurar, num mundo em rápida mudança, bens muito importantes, mas também barricar-se novamente atrás do Oceano Atlântico, e desta vez também atrás do Pacífico, num renascimento para o século XXI da Doutrina Monroe.

Esta época é ambivalente para os Estados-nação: por um lado, são largamente privados das suas atribuições fundamentais por massas de poder cada vez maiores. Por outro – se conseguirem jogar bem as suas cartas – são capazes de tirar partido desses grandes conflitos entre poderes para obterem benefícios que poderão manter durante um período incerto. Neste caso, no entanto, trocam algumas pequenas vantagens imediatas com um planeamento a longo prazo, que considera uma visão completa do futuro e uma selecção ponderada de alianças. Este, porém, é o caso do Brasil, que como proponente de uma integração federativa, prosseguiu para o diálogo Sul-Sul. Tentou tirar partido de outros actores regionais graças à cooperação com os Estados Unidos.

Em qualquer caso, a integração continua a ser o futuro, tendo em conta todos os determinantes em jogo na fase actual da história da economia e das estruturas de produção, bem como da sociedade e do progresso técnico. Basta compreender, neste momento, que visão integradora – e que grupo político e de interesse que a apoia – prevalecerá no Brasil e na América Latina.

◼ Traduzido de RIAC

As ideias expressas no presente artigo / comentário / entrevista refletem as visões do/s seu/s autor/es, não correspondem necessariamente à linha editorial da GeoPol

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