O Azerbaijão e os planos dos políticos israelitas

Viktor Mikhin
New Eastern Outlook

À medida que o conflito do Nagorno-Karabakh cresce rapidamente, o comércio de armas israelo-azeri está a florescer, e neste caso o governo de Netanyahu está a ser principalmente orientado por benefícios económicos, com cálculos políticos, ou melhor, erros de cálculo.

É de salientar que, actualmente, a economia israelita está a passar por grandes dificuldades devido à pandemia, basicamente como outros países. Restaurantes, cafés e fábricas estão temporariamente encerrados, e o número de turistas tem diminuído drasticamente. Nestas condições, o governo israelita está a tentar encontrar algumas fontes de assistência, mesmo temporárias, tanto para a economia como para a própria população. Para estes fins, está a acompanhar de perto as vendas de armas e sistemas de alta tecnologia.

Actualmente, no calor dos 31 graus do Aeroporto Ben Gurion, está tranquilo e calmo, sem o anterior rebuliço – os voos civis praticamente cessaram devido à pandemia desenfreada do Covid-19. Mas os voos de carga ao longo da rota para o Azerbaijão ainda levantaram voo recentemente, e estão carregados até ao limite da sua capacidade. O grande número de voos é uma consequência directa do recomeço das hostilidades entre a Arménia e o Azerbaijão sobre o disputado enclave do Nagorno-Karabakh. Pelo menos quatro aeronaves Il-76 operadas pela companhia aérea de carga azerbaijanesa Silk Way, que serve o Ministério da Defesa do Azerbaijão, aterraram e descolaram da Base da Força Aérea de Uvda, no sul de Israel: duas antes do início das hostilidades, e duas depois. De acordo com as regras de tráfego aéreo, este é o único aeroporto a partir do qual as aeronaves carregadas com explosivos são autorizadas a descolar.

A vigilância das descolagens e aterragens, bem como do tráfego aéreo em todo o Médio Oriente e para além da região, é algo feita tanto por profissionais como por amadores, pelo que as rotas de voo das quatro aeronaves foram documentadas por profissionais, e em vários websites públicos que acompanham a actividade do tráfego aéreo. Alguns destes aviões também voaram de Baku para Ancara, e para Istambul e de volta, em tempos recentes. Tudo isto fala da redistribuição de armas e equipamento militar, e portanto que Israel está envolvido no conflito militar no Nagorno-Karabakh – e tomou o partido de uma das partes beligerantes.

A 27 de Setembro recomeçaram os combates, com uma ofensiva surpresa conduzida pelos azeris ao longo de toda a frente. Muitas pessoas, tanto as de uniforme militar como as civis, foram mortas até agora. Ambos os lados estão a utilizar artilharia e tanques, e a realizar ataques aéreos (utilizando helicópteros e drones) a cidades e aldeias. As pessoas estão agora em abrigos ou caves; algumas já se deslocaram para locais mais seguros, enquanto outras ainda estão em vias de fugir.

É difícil tentar descrever correctamente – e objectivamente – o comportamento exibido pelas várias partes envolvidas nesta luta, e pelos seus aliados temporários e constantes. O facto é que: Turquia e Israel, que actualmente abrigam animosidade um para com o outro (Recep Tayyip Erdogan declarou recentemente, e com veemência, que Jerusalém pertence aos muçulmanos), estão ambos a dar apoio ao Azerbaijão, um país muçulmano xiita. Por outro lado, o Irão, de cuja população um terço é de origem azeri (incluindo o seu Líder Supremo, Ali Khamenei), apoia a Arménia cristã e, de acordo com alguns relatórios, está a entregar-lhe armamento. A Grécia, um aliado estratégico de Israel, e actualmente em conflito com a Turquia por disputas de gás no Mediterrâneo Oriental, apoia a Arménia.

Esta é, de facto, uma questão muito complexa e confusa.

Outra questão que deve preocupar o governo israelita, e todos os outros neste país, é que Israel – o Estado para um povo que testemunhou a morte de seis milhões de pessoas durante o Holocausto – se recusa a reconhecer o genocídio arménio cometido pelo Império Otomano durante a Primeira Guerra Mundial. Os serviços secretos da Mossad e da Turquia colaboraram entre si, e a indústria de defesa de Israel vendeu secretamente milhares de milhões de dólares de armas à Turquia. Numa irónica reviravolta do destino, os sistemas que Israel vendeu aos turcos incluíam drones e tecnologia que ajudaram a Turquia a construir o mesmo tipo de indústria. Os drones Bayraktar turcos operam agora nos campos de batalha do Nagorno-Karabakh, bem como no Iraque, Síria, e Líbia. A Turquia, que no passado declarou uma política de conflito zero em relação aos seus vizinhos, está actualmente em conflito com todos eles, ou pelo menos está a participar em guerras que os envolvem.

O desmantelamento da aliança estratégica entre a Turquia e Israel é um processo sistemático e propositado, e foi iniciado por Erdogan há uma década e meia atrás. Contudo, Telavive não utilizou este processo como uma oportunidade para cumprir o seu dever histórico, ou seguir a sua consciência e os seus valores, relativamente ao genocídio arménio. A razão para tal é o próprio Azerbaijão. Ao mesmo tempo que Erdogan começou a distanciar-se de Israel, o Azerbaijão e Israel começaram a aproximar-se. Logo se tornou claro que os dois países tinham formado uma espécie de aliança estratégica – uma centrada na hostilidade mútua em relação ao Irão. Há quatro anos, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu fez uma visita urgente a Baku, durante a qual o presidente do Azerbaijão, Ilham Aliyev, anunciou que tinha assinado uma série de contratos para a compra de armas israelitas no valor de 5 mil milhões de dólares. Assim, deixou sair o gato do saco, e disse a todo o mundo a verdade sobre as relações entre os dois países.

Depois disso, de acordo com fontes estrangeiras, a Mossad criou uma estação no Azerbaijão que serve como “os seus olhos, ouvidos, e uma base de apoio” para vigiar o Irão. De acordo com estes relatórios, o Azerbaijão preparou um aeródromo que ajudaria Israel se este atacasse o Irão. Outros relatórios afirmam que um arquivo da indústria nuclear iraniana, roubado por agentes da Mossad em Teerão há dois anos e meio, foi contrabandeado para Israel através do Azerbaijão. Segundo alguns relatórios, a indústria aeroespacial israelita sob a forma de Elbit, Rafael, e outras empresas mais pequenas, vende quase tudo a Baku. Isto inclui artilharia, mísseis, embarcações navais, equipamento de reconhecimento, e um grande número de veículos aéreos não tripulados. Quase todas as empresas israelitas que fabricam drones, incluindo os de assalto ou de autodestruição (“kamikaze”), venderam os seus produtos ao exército do Azerbaijão. De acordo com declarações anteriores de oficiais arménios, alguns destes drones, incluindo os fabricados pela Aeronautics Ltd., foram abatidos durante incidentes ao longo da fronteira com o Azerbaijão. Os dados mais recentes sugerem que os sistemas de defesa aérea arménios, incluindo o sistema russo S-300, foram destruídos por drones Harop Kamikaze israelitas, os quais têm como alvo o sinal quando o radar é ligado.

Em várias ocasiões, políticos arménios, incluindo a liderança de topo, expressaram a sua preocupação com a contínua venda de armas israelitas ao Azerbaijão. O anterior presidente da Arménia, Armen Sarkissian, chamou o presidente israelita Reuven Rivlin a este respeito, expressando a sua preocupação com a continuação da venda de armas israelitas ao Azerbaijão. Reuven Rivlin foi demagógico na forma como manifestou o seu pesar, e observou que Israel mantém relações de longa data com o Azerbaijão, acrescentando que a sua cooperação “não é dirigida contra qualquer outro país”. É verdade que ele esqueceu a velha verdade de que se houver uma arma, mais cedo ou mais tarde começará a disparar e a matar pessoas. Neste caso, o presidente israelita não estava interessado no facto de que o seu país, embora alegadamente defendesse activamente a causa da paz, está a minar essa paz noutra parte do mundo. Deveria repetir-se que o princípio de que “Estou apenas a forçar a cerca” é pouco provável que seja indolor para os israelitas.

Seria difícil prever que Telavive, que sempre condenou o lançamento de mísseis contra civis pelo Hezbollah e pelo Hamas, venha agora a mudar os seus métodos. Outro país poderia talvez suspender os seus carregamentos, nem que fosse apenas temporariamente. No que diz respeito a qualquer coisa relacionada com a venda de armas, a hipocrisia dos governos israelitas ao longo dos anos não é novidade. O actual silêncio mantido pelo seu governo sobre esta questão fala muito, mas simplesmente não compreende um facto simples: se, num dado momento no futuro, os israelitas começarem a falar de qualquer entrega alegadamente ilegal de armas aos palestinianos, ser-lhes-á simplesmente recordado o comportamento demonstrado por Telavive, que forneceu activamente armas ao Azerbaijão, acrescentando assim uma generosa porção de combustível ao fogo do conflito militar. Só existe uma verdade, se é que existe mesmo uma.

É interessante a forma como as pessoas percebem este problema em Israel. A maioria da população é bastante céptica, e acredita que graças à melhoria acentuada das relações entre Israel e alguns países do Golfo, já não precisa de uma aliança “petróleo por armas” com Baku. Por razões morais e estratégicas, Israel deveria agora dar uma olhadela à Arménia. As relações israelo-azeris, – dizem os meios de comunicação social israelitas – têm sido sempre baseadas em transacções e não apenas em termos do acordo “petróleo por armas”. O Azerbaijão encara o aprofundamento dos seus laços com Israel como tentando agradar Washington, como recentemente confirmado pelo embaixador do Azerbaijão nos Estados Unidos. Baku procura envolver grupos da comunidade judaica nos Estados Unidos neste esquema, posicionando-se como um campeão do “diálogo inter-religioso”.

Mas o estreitamento dos laços com Israel, escreve o jornal israelita Haaretz, não impediu Baku de estabelecer excelentes relações não só com a Turquia, mas também com o implacável inimigo de Israel, o Irão. Os dois países aprofundaram as suas relações nos últimos anos, com Hassan Rouhani a estabelecer uma relação mais substancial com o Azerbaijão, uma das suas principais prioridades. Na realidade, o Azerbaijão tem vindo a cooperar com o Irão há muitos anos, desde a venda de uma participação de 10% num dos maiores oleodutos do país até ao envio de milhões de dólares para empresas estatais iranianas num grande escândalo de branqueamento de capitais (que recentemente envolveu a IAI, um importante actor da indústria aeroespacial israelita). Além disso, apesar dos seus esforços para desenvolver relações com Israel, Baku tem-se recusado constantemente a estabelecer relações diplomáticas de pleno direito com este país, e a abrir uma embaixada, devido à pressão do Irão, da Organização de Cooperação Islâmica, e da Turquia. Apesar de tentar apaziguar constantemente o regime no Irão, o Azerbaijão continua a procurar afastar tanto Israel como o Ocidente da Arménia.

Ao analisar todos estes factos, uma conclusão óbvia oferece-se a si própria. Sim, namoriscar com o Azerbaijão e fornecer-lhe armas de ponta durante uma certa fase, muito curta, pode ajudar economicamente o actual governo de Benjamin Netanyahu, mas a longo prazo esta área de enfoque só irá turvar a capacidade de explicar correctamente a política israelita a vários políticos. E é improvável que isto ajude a fazer avançar a política israelita na cena mundial, inclusive no que diz respeito a várias facetas que envolvem como resolver o seu problema palestiniano de longa data.◼

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