Choque no Cáucaso

Daniele Perra
Eurasia – Rivista di Studi Geopolitici

A “dinastia presidencial” Aliyev no Azerbaijão é bem conhecida no “Ocidente”. Ilham Aliyev, actual presidente do Azerbaijão, no poder desde 2003, é um daqueles “ditadores” que, ao contrário de Lukashenko na Bielorrússia, todos gostam. Tanto é que, em 2013, as eleições presidenciais do país do Cáucaso foram apresentadas pelas ONGs e organizações internacionais responsáveis por observar o processo eleitoral como livre e justo, quando, na realidade, foram marcadas por fraudes, intimidações e violência de vários tipos.

Pró-Ocidente e amigo de Israel, Aliyev também tem conseguido manter boas relações com a Rússia, independentemente da concorrência no mercado de energia. Na verdade, o Azerbaijão, após o conflito entre a Rússia e a Geórgia, e apesar da inimizade (ou pelo menos da falta de confiança mútua) que caracteriza as relações entre Baku e Teerão, continua sendo fundamental nos planos geopolíticos de Moscovo para a possível criação de um corredor estratégico Norte-Sul.

O historiador Aldo Ferrari, especialista em língua e literatura arménias, costuma se referir a dois blocos de alianças que distinguem a região do Cáucaso e que, de alguma forma, superam as afiliações sectárias ao se referir mais a uma dinâmica puramente geoestratégica: uma aliança “horizontal” consistindo de Turquia, Geórgia e Azerbaijão (com aprovação ocidental); uma aliança “vertical” formada pela Rússia, Arménia e Irão (embora o líder supremo Ali Khamenei nunca tenha deixado de criticar a conduta arménia para com a população muçulmana do Nagorno-Karabakh).

Agora, num momento de transição para uma ordem global multipolar e profundas convulsões geopolíticas, uma vez que os sistemas de alianças graníticas se tornam pelo menos mais fluidos e o trabalho de agentes e grupos não convencionais torna-se fundamental para salvaguardar os interesses de um ou de outro campo.

Em 2018, um personagem que já havia sido falado nas páginas da revista Eurasia chegou ao poder na Arménia, de forma bastante ambígua: Nikol Pashinyan. Ex-diretor do jornal liberal Haykakan Zhamanak (The Times of Armenia), Pashinyan no passado apoiou muitas vezes teses políticas em franco contraste com a adesão do país à União da Eurásia e é um dos representantes dessa política de “via dupla” (também implementado pelo seu antecessor Sargsyan) que caracterizou as relações internacionais arménias desde o momento da independência da pequena república do Cáucaso até hoje. Esta política é essencialmente baseada em não prejudicar tanto a relação com a Rússia (fiador da segurança arménia e dona da base militar de Gyumri), e aquela relação com o “Ocidente” (especialmente com a França e os Estados Unidos, onde vive a maior parte de sua diáspora) o que permitiu uma penetração massiva de organizações não governamentais dentro do país, com o corolário usual de tentativas de “revoluções coloridas” (o caso mais sensacional continua sendo o do movimento de protesto conhecido como Electric Yerevan).

Não é de se estranhar que este movimento (nascido como um protesto contra o monopólio no mercado nacional de energia de uma empresa controlada pelo ex-gigante russo RAO UES) tenha começado após a adesão à União Económica da Eurásia em 2015 (considerada uma derrota diplomática para embaixada dos EUA em Yerevan). E não é surpreendente que, na época, o fracasso do protesto tenha desencadeado, mesmo naquela ocasião, a escalada do confronto em Nagorno-Karabakh e a violência dentro da própria Arménia, onde um quartel militar em Yerevan foi sitiado por militantes do grupo de oposição Parlamento Constituinte.

Este grupo, ligado ao senhor da guerra e veterano do Nagorno-Karabakh Jirair Sefilian, mais tarde juntou-se ao movimento da Nova Arménia de Rafi Hovannisian (ex-ministro das Relações Exteriores da Arménia, nascido nos Estados Unidos e em excelentes relações com a embaixada dos EUA) que, com o Partido Nacional Arménio de Levon Ter Petrosyan (candidato à presidência da República em 2008 e apoiado, na época, por Pashinyan), havia formado a alma do Electric Yerevan.

O primeiro-ministro arménio, de facto, desde o momento em que chegou ao poder na sequência da chamada “revolução de veludo”, apesar dos esforços russos, não trabalhou de forma alguma para uma solução para o conflito com o Azerbaijão, ainda demonstrando uma vez mais a sua ambiguidade substancial. Por um lado, ele convidou Baku a dirigir negociações com Stepanakert (o que é “diplomaticamente” impossível, visto que o Azerbaijão não reconhece a República de Artsakh); por outro, entrou em conflito directo com os líderes políticos de Stepanakert ainda ligados a Serzh Sargsyan.

Portanto, não se pode excluir completamente que: a) A falta de propensão de Pashinyan para o diálogo levou o Azerbaijão (recentemente protagonista de uma verdadeira corrida armamentista) a buscar uma solução não pacífica para o conflito, também em impulso externo; b) que o próprio Pashinyan não é alheio a esse “impulso externo” na região, dado o seu passado.

Nesse ponto, tudo o que resta é perguntar: cui prodest?

Somente no dia 8 de setembro, após alguns anos de interrupção devido ao conflito na Síria, foi realizada a Sexta Reunião de Alto Nível para a Cooperação entre o Irão e a Turquia. O principal objetivo do encontro foi fortalecer a cooperação entre os dois países nas áreas de segurança e comércio. Como é bem sabido, o Irão e a Turquia também realizaram recentemente operações militares conjuntas no norte do Iraque contra grupos terroristas curdos. E a cooperação entre os dois países opõe-se tanto aos chamados “Acordos de Abraão” entre Israel e algumas monarquias do Golfo, quanto como um veículo para fomentar novos vínculos entre os movimentos de resistência contra a ocupação sionista da Palestina, sempre postas à prova no conflito da Síria.

O ressurgimento do conflito em Nagorno-Karabakh é, sem dúvida, útil para garantir que esse vínculo não alcance novas etapas que possam comprometer seriamente o papel regional de Israel e dos Estados Unidos, potências que operam com sabedoria, inclusive por meio dos seus agentes nos países da região, para sabotar qualquer potencial de integração e sinergia da Eurásia pela raiz.

Mas sofrer as maiores consequências seria o difícil equilíbrio construído entre a Turquia e a Rússia em diferentes cenários de conflitos, da Síria à Líbia, que limitou e tornou menos eficaz o papel do “Ocidente” no mesmo.

Amarrada por um pacto militar com a Arménia, a Rússia, em caso de intervenção directa no conflito, veria rapidamente os seus planos geopolíticos para o Azerbaijão se deteriorarem com a possibilidade não remota de ver Baku cair ainda mais nas mãos do “Ocidente” e talvez até uma presença da NATO no Mar Cáspio. Ao mesmo tempo, uma atitude conciliatória demais poderia oferecer a Pashinyan uma vantagem para seguir a sua política de substancial ambiguidade anti-russa.

Erdogan, por sua vez, apoiando o Azerbaijão, pode mais uma vez levar adiante sua visão panturânica que lhe permitiu superar a crise de consenso interno, devido a uma situação económica não propriamente rosa. Além disso, tem a possibilidade de tirar das suas fronteiras (como já fez na Líbia) outros militantes islâmicos que permitiu a entrada na Síria nos últimos anos.

No entanto, abrir outra frente de conflito mais ou menos directo com a Rússia vai contra os interesses geopolíticos objetivos da Turquia, cujo papel não pode mais limitar-se a uma forma de sub-imperialismo, sob supervisão directa norte-americana, e da qual é vítima e carrasco. Ancara não pode correr o risco de ver comprometida a sua cooperação económica e energética com a Rússia num momento de relações bastante complexas também com a União Europeia.

O que é evidente em qualquer caso é o facto de que o ressurgimento do conflito em Nagorno-Karabakh estar totalmente incluído na categoria de fórmulas de guerras híbridas e assimétricas para destruir todas as fórmulas de cooperação eurasiana pela raiz. Na verdade, qualquer conflito potencial em grande escala na região sempre beneficia as potências estranhas.◼

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