A guerra híbrida dos EUA contra a energia russa

Andrew Korybko

A mais nova frente da nova guerra fria
A nova guerra fria está esquentando na Europa, depois de que os EUA intensificassem a sua guerra híbrida contra os interesses russos nos últimos dois meses. Este conflito por procuração está sendo travado simultaneamente na Alemanha, Bielorrússia e Bulgária, todos eles países de trânsito importantes para as exportações de energia russa para o continente, o que lhe permite manter pelo menos ali alguma influência mesmo durante os piores momentos. Os Estados Unidos, entretanto desejam avançar muito no cenário de uma “desvinculação” provocada externamente entre Moscovo e os aliados transatlânticos de Washington, que permitiria aos Estados Unidos reafirmar ali a sua hegemonia unipolar, mesmo que essa campanha tenha apenas um sucesso parcial. Este artigo tem como objectivo explorar os amplos contornos da estratégia contemporânea da guerra híbrida dos EUA sobre a energia russa na Europa, apontando como os eventos recentes nos três estados de trânsito mencionados anteriormente são todos parte desse plano maior.

Alemanha
De norte a sul, o primeiro e maior desses alvos é a Alemanha, que hoje trata do blogger anti-corrupção russo Navalny. O autor previu com precisão no final de agosto que “intensa pressão pode ser colocada sobre as autoridades por políticos domésticos e os seus patronos americanos para politizar a etapa final da construção do Nord Stream 2, potencialmente atrasando-o como ‘punição a Putin’”, que é exactamente o que acontecendo, depois de que Berlim sinalizasse que poderia repensar o seu compromisso com este projecto energético. Os Estados Unidos não são os únicos culpados, entretanto, já que a Alemanha em última análise assume a responsabilidade pelas suas declarações provocativas nesse sentido. Dmitri Trenin, diretor do Carnegie Moscow Center, publicou um artigo também provocativo intitulado “Relações russo-alemãs: Regresso ao Futuro”, sobre como as relações bilaterais irão mudar drasticamente após este incidente. É conciso e vale a pena ler para quem se interessa pelo assunto.

Bielorrússia
O próximo alvo da guerra híbrida é a Bielorrússia, que o autor já acompanha há meia década. Depois de não conseguir convencer Lukashenko a romper os laços com a Rússia após o incidente do Wagner Group neste verão, uma revolução colorida foi planeada para derrubá-lo, para que os seus substitutos pudessem transformar o país noutra Ucrânia no que se refere a manter como reféns as exportações de energia russas para a Europa. O objectivo final é aumentar os custos dos recursos russos para que os próprios dos EUA se tornem mais comparativamente mais competitivos. Em última análise está planeado que os oleodutos russos sejam eliminados no pior cenário, embora isso aconteça gradualmente, já que a Europa não pode substituir imediatamente essas importações por americanas e outras. “Perder” a Bielorrússia, seja por conta própria ou em conjunto com o Nord Stream 2, representaria um duro golpe para os interesses geopolíticos da Rússia. Países como a Alemanha não teriam necessidade de manter relações cordiais com ela, facilitando uma possível “desvinculação”.

Bulgária
É aí que a Bulgária pode tornar-se na proverbial “cereja do topo do bolo”. O TurkStream deverá transitar por este país balcânico a caminho da Europa, mas os últimos protestos anti-governamentais ameaçam derrubar o governo, levando a temores de que a sua substituição possa politizar ou suspender este projecto. Os oleodutos TANAP do Azerbaijão e GRISCY do Mediterrâneo Oriental podem ajudar o sudeste da Europa a compensar a perda de recursos russos, embora este último ainda tenha de ser construído e esteja de momento apenas em fase de planeamento. No entanto, eliminar o TurkStream da equação da energia (ou pelo menos prejudicar o projecto antes de substituí-lo/descartá-lo) seria um golpe mortal para a já muito limitada influência da Rússia nos Balcãs. A Rússia seria então praticamente empurrada para fora da região, tornando-se nada mais do que uma distante memória histórico-cultural com quase nenhuma influência política remanescente, por assim dizer.

Guerra económica
O objectivo geral de conectar essas três frentes da guerra híbrida não é apenas enfraquecer os interesses de energia da Rússia, mas substituir o seu papel actual por concorrentes americanos e outros concorrentes industriais. A “Iniciativa dos Três Mares”, apoiada pelos EUA e liderada pela Polónia, está competindo para se tornar num actor sério no espaço estratégico da Europa Central e Oriental e pode realizar muitas das suas ambições por meio da construção de novos terminais de gás natural liquefeito e petróleo para facilitar os planos da América. Além disso, aumentar artificialmente os custos das importações de energia da Rússia por meios políticos relacionados a essas guerras híbridas também poderia reduzir a receita da Rússia com essas fontes, que actualmente representam 40% de seu orçamento. Considerando que a Rússia está no meio de uma transição económica sistémica, distante da sua desproporcional dependência orçamental na energia, isso poderia atingir Moscovo onde mais lhe dói, neste momento sensível.◼

As ideias expressas no presente artigo / comentário / entrevista refletem as visões do/s seu/s autor/es, não correspondem necessariamente à linha editorial da GeoPol

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