Entrevista ao embaixador russo em Berlim

Berlim, 22 de setembro de 2020

Entrevista concedida pelo embaixador russo na Alemanha, Sergei Jurjewitsch Netschajew ao diário Berliner Zeitung

BZ: Senhor Embaixador, como é que a Rússia pretende investigar o envenenamento do político russo da oposição Alexej Navalny descoberto por um laboratório do Bundeswehr?

SJN: Contamos com os nossos parceiros alemães e com a cooperação das autoridades responsáveis pela aplicação da lei em ambos os países. O Gabinete do Procurador-Geral da Rússia enviou dois pedidos de assistência jurídica mútua ao Gabinete Federal de Justiça e pediu, entre outras coisas, que nos fornecesse as amostras biométricas que o laboratório Bundeswehr examinou. Os colegas alemães afirmam que descobriram uma toxina. Os médicos em Omsk que trataram de Navalny após a aterragem de emergência não encontraram nada. A Alemanha entretanto já enviou amostras para laboratórios na França, Suécia e da OPAQ. Portanto, esperamos obter as amostras também. Isso corresponde a todos os acordos internacionais. Estamos surpresos por encontrar tanta resistência.

BZ – Na Alemanha, é dito que as autoridades russas deveriam investigar na Rússia, onde o agente químico teria sido usado.

SJN – Precisamos pelo menos de amostras para poder iniciar investigações criminais. De acordo com nossa lei, não podemos investigar sem evidências de um crime.

Você não pode investigar de qualquer maneira, há pelo menos uma suspeita?

As nossas autoridades já iniciaram investigações preliminares. Eles examinaram vários objectos e falaram com funcionários do hotel, hospital e aeroporto. Mas só podemos realmente determinar quando haja uma indicação concreta de uma suspeita. Esta é uma regra de lei que deve ser aplicada em todos os países – incluindo nós.

BZ – Agora, novas especulações surgiram de que Navalny poderia ter sido envenenado no seu quarto de hotel.

SJN – Supostamente, foram pessoas próximas ao Sr. Navalny que encontraram e recolheram algumas garrafas de água vazias no seu quarto de hotel. Acho tudo um pouco estranho. Que tipo de garrafas se tratavam? Por que não foram removidos pelos suspeitos autores ou funcionários do hotel? Que autor de crime deixa garrafas com neurotoxinas abandonadas, assim sem mais? Por que é que o quarto do hotel não foi limpo durante horas depois que o Sr. Navalny saiu? Quando se trata de uma substância extremamente tóxica como o infame Novitschok, por que é que nada aconteceu aos companheiros do Sr. Navalny, quando eles entraram em contacto directo com a substância? Por que todos no hotel estão sãos e salvos? Como é que o suposto veneno saiu do país? 

BZ – A Rússia quer resolver o caso? Seria supostamente do interesse do governo condenar os perpetradores.

SJN – Levamos o caso absolutamente a sério. Os nossos investigadores e médicos desejam um procedimento adequado e clareza no caso Navalny e, portanto, contam com a cooperação estreita com a Alemanha.

BZ – Isso parece não estar a ser fácil…

SJN – A Câmara Nacional de Médicos russa enviou um pedido à Associação de Médicos alemã, com a solicitação de unir forças e formar um consilium. Isso foi recusado. As respostas aos nossos pedidos de assistência jurídica mútua estão atrasadas. Por enquanto do lado alemão, não estão dispostos a cooperar.

BZ – Você está em contacto com o Sr. Navalny?

SJN – Em primeiro lugar, desejamos as melhoras ao Sr. Navalny e uma recuperação rápida. Nós pedimos oficialmente para o Sr. Navalny ter licença de cuidado consular. As nossas autoridades consulares, em conformidade com a Convenção de Viena, têm o direito a visitá-lo. Ele é um cidadão russo e quer voltar para a Rússia. Este pedido até ao momento, também não foi respondido.

BZ – O caso fez altas ondas internacionalmente.

SJN – O que não podemos aceitar de forma alguma é a conclusão final de que o governo russo tem algo a ver com o caso. Não podemos aceitar ultimatos e ameaças com sanções. Lamento a histeria anti-russa que é artificialmente deflagrada neste contexto. A propósito, as sanções nunca foram usadas para resolver um problema. Nós contamos com o trabalho conjunto e a cooperação objectiva com nossos colegas alemães.

BZ – O que é que você quer fazer em relação às suspeitas?

SJN – O mais importante para nós é o esclarecimento. Para tal precisamos do apoio da Alemanha, porque sem evidências concretas, das quais muito se fala, mas pouco se mostra, não podemos fazer muito neste momento. Muito menos com as suposições de que o governo russo primeiro envenenou Navalny com Novitschok, depois salvou sua vida e finalmente abriu caminho para Berlim.

BZ – Poderiam os investigadores criminais alemães agir?

SJN – Essa cooperação propusemos nós também. O Novichok é um produto químico altamente perigoso e precisamos de total clareza no que diz respeito a factos e evidências concretas. Actualmente muita coisa nos lembra o chamado caso Skripal. Naquele caso, a “evidência” britânica afinal não foi apresentada a ninguém. Ruidosas afirmações e suposições. Os britânicos são conhecidos por terem simpatia por romances policiais – Arthur Conan Doyle, Agatha Christie, etc. Na Alemanha tudo é um pouco mais sóbrio. É por isso que ainda esperamos conversações directas e cooperação positiva com autoridades federais e estaduais.

BZ – Você também pode obter as amostras da OPAQ ou dos suecos ou franceses?

SJN – O OPAQ é certamente uma possibilidade. Não descarto que também peçamos amostras a Paris e Estocolmo. Mas Berlim seria o caminho directo.

BZ – Por que existem actualmente estas tensões entre a Alemanha e a Rússia?

SJN – Boas relações com a Alemanha sempre foram uma prioridade para a Rússia. Já alcançamos muito no período do pós-guerra. Basta pensar: 27 milhões de pessoas da União Soviética sacrificaram as suas vidas pela vitória sobre o nacional-socialismo. No entanto, depois da Segunda Guerra Mundial, houve uma reconciliação entre nossos dois povos. Isso não foi fácil, porque muitas pessoas morreram na Rússia, muitas cidades e vilas foram destruídas. Mas demos este passo importante em direcção à reaproximação. A história das relações bilaterais estende-se desde os Tratados de Moscovo até a Ata Final de Helsínquia em 1975. Estamos no limiar da celebração da unidade e lembramos as negociações do Tratado Dois-Mais-Quatro. A União Soviética estava pronta a aceitar a unidade alemã e deu uma contribuição decisiva para isso. Os laços políticos, económicos e culturais entre a Alemanha e a Rússia ainda são fortes o suficiente hoje e devemos fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para evitar que se desgastem.

BZ – Mas por que existe tanta tensão então?

SJN – Será que o bom relacionamento russo-alemão incomoda alguém?

BZ – Os críticos da Rússia, tanto na Europa de leste, como na Alemanha e nos EUA, dizem que a reaproximação não é bem-vinda. Aí sólidos interesses económicos também desempenham um papel: a Polónia quer se tornar um centro de energia para a própria Europa e, portanto, é contra o Nord Stream 2.

SJN – Não quero entrar em detalhes aqui sobre a relação russo-poloca. Mas é claro que lamentamos a política anti-russa que o governo de Varsóvia está actualmente adoptando. Infelizmente, um reflexo anti-russo é muito comum entre a elite polaca.

Já o Nord Stream 2 é um projecto económico internacional. Está em conformidade com as normas europeias e recebeu todas as licenças necessárias. Corresponde aos interesses da Alemanha e ajuda a tornar a sua produção internacionalmente mais competitiva e a satisfazer as suas necessidades energéticas no contexto da eliminação progressiva da energia nuclear e do carvão. Nenhum centro industrial pode ser totalmente abastecido apenas com energias renováveis. Claro, a Alemanha e a UE podem determinar a    sua própria segurança energética. Não se deve aceitar que senadores norte-americanos enviem cartas ameaçadoras a empresas e autoridades europeias. O governo federal até agora manteve-se fiel ao projecto e esperamos que assim continue.

BZ – As sanções são eficazes, no entanto, porque todas as empresas que fazem negócios em dólares podem ser visadas pelas autoridades americanas.

SJN – As tentativas de chantagem não devem ser toleradas nunca nas relações internacionais. Nós pensamos, tal como outros países, como os BRICS, em fazer negócios em moedas locais. Eu sei que isso está sendo considerado na Europa também.

BZ – O ressentimento anti-russo realmente afectou a população de língua russa que vive na Alemanha?

SJN – Até o momento, não temos conhecimento de nenhum incidente particularmente sensível. Se algum se tornar conhecido por nós, iremos investigá-lo. Estamos satisfeitos que as pessoas que imigraram dos Estados da ex-União Soviética tenham se integrado tão bem. Praticamente todos são bilíngues. Amam a cultura alemã e ainda mantêm as suas tradições russas. Esta comunidade é de grande importância para o entendimento germano-russo. A boa convivência mostra também que a reconciliação germano-russa é de importância estratégica não só para a Alemanha, mas para toda a Europa.

BZ – Já se passaram 30 anos desde que o exército da União Soviética se retirou do território da ex-RDA. Isso aconteceu sem um único incidente. Na Áustria, as pessoas ainda são gratas aos russos pela retirada pacífica e voluntária das tropas. Na Alemanha, isso parece ter sido um tanto esquecido.

SJN – Mais de 500 mil soldados soviéticos estavam estacionados no território da RDA. O exército foi o grupo mais forte na fronteira do Bloco de Leste durante a Guerra Fria. No dia 1 de setembro de 1994, assisti à cerimónia de formatura de despedida no Gendarmenmarkt [em Berlim]. No entanto, eu pergunto-me se nossos parceiros tomaram a decisão certa, um pouco mais tarde, em se aproximar cada vez mais das fronteiras da Rússia com as tropas da OTAN. Não podemos aceitar ultimatos e ameaças com sanções.◼

Fonte: Berliner Zeitung